terça-feira, 5 de outubro de 2010

sobre a pressa divina

seu nome era ricardo nogueira e ele nasceu com pressa. bateu no médico ao ser parido. não conseguia entender a demora de nove meses.

sua mãe reclamava das fraldas mal colocadas. trocava as próprias, já que ninguém percebia o cheiro em menos de dez minutos. também esquentava as mamadeiras sozinho e, antes que a mãe pudesse se preparar, abria sutiãs.

aos quatro anos, comemorou dois aniversários em duas semanas. aos oito, comeu um hot pocket congelado por não conseguir esperar um minuto e meio. aos doze, saiu com o carro do pai para buscar uma pizza que não chegava.

sentava-se apenas para levantar, deitava-se na ânsia de acordar. se andava, queria correr. se corria, desejava galopar. se galopava, era apenas para estar lá.

posso não estar a resumir muito bem, mas era basicamente isso. sua vida era uma busca inquieta pelo próximo instante. a pressa marcava quase todos os aspectos de sua vida, com a excessão de um. as mulheres, em constante rodízio em sua vida, viviam a reclamar que era lento demais.

não tinha iniciativa, não corria atrás, não declarava seus óbvios sentimentos. quando um beijo era o único caminho, recuava, dava dois passos para trás e pensava mais uma vez. isso, como qualquer homem com o mínimo de conhecimento de vida, só podia ser fatal.

e assim foi a adolescência inteira, de passagem pela vida, mas parando no portão dos relacionamentos. não houve uma que tolerasse sua calma e frieza durante os trailers no cinema, seu estrategismo ao deixá-las em casa, sua racionalização perante um torso nu.

obviamente, sua falta de habilidade com o sexo feminino não lhe havia passado despercebido. certa vez, resolveu conversar a sério com uma guria que lhe atraía a atenção. impressionantemente, como uma espécie de deus ex machina desta tragédia moderna, ela explicou ponto a ponto todos os aspectos que o tornavam tão impossível. vai entender, às vezes se dá sorte nessas coisas.

consciente de todos os seus defeitos, mais uma vez ricardo nogueira se via impaciente em remediar a situação. assim, superou a pressão do primeiro beijo em tempo recorde, aceitou prontamente subir para um cafezinho e já havia espalhado as roupas de ambos pelo chão antes que a porta do elevador conseguisse se fechar totalmente. um milagre se anunciava. anjos pelos céus afinavam suas trombetas e harpas para a maior sinfonia climática da criação.

tudo se encaminhava muito bem até que deus, que de misericordioso e piedoso nada tinha, resolveu tornar pública sua já conhecida ironia, que se declarava para a infelicidade de nosso intrépido herói. apesar de toda a enrolação superada, deitado ali, na cama, ele ainda tinha pressa, muita pressa.

3 comentários:

Camila Garcia disse...

Genial.
Adorei.

léo disse...

Muito bom!
Gostei do ritmo. Só tiraria uns arabescos ali do tipo "não estar a resumir muito bem" e incluiria um "unico e óvbio caminho".
Mas dai já seria um texto meu né.

Abrá!

Ketryn disse...

adorei! ritmo muito legal...
e não sei se é porque sou impaciente, mas tava querendo chegar no final logo pra ver o que ia acontecer com ele.. hahaha

:*