segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sobre o acordar

existem sonhos que fazem jus ao nome. são aqueles nos quais você consegue tudo o que sempre quis. quando percebe, foi promovido; comprou seu primeiro apartamento; falou mais uma vez com o avô, há muito falecido; ficou, finalmente, com a garota. sonhos que, mais cedo ou mais tarde, mostram ser o que são por serem bons demais. mesmo assim, você se apega a eles, estabelecendo o acordo não oficial de fingir que não sabe ser sonho, e ele fingindo que não sabe que você sabe. continuam todos, assim, felizes em sua ignorância.

no entanto, a vida é geniosa e não suporta ser trocada assim tão fácil por algo que nem existe fora de nossas cabeças, jogando algo para nos tirar daquele estado inconsciente. em algumas vezes o despertador toca, em outras, sua mãe bate à porta e avisa que é hora de levantar. você, claro, não desiste assim tão fácil. enfia a cabeça debaixo do travesseiro, puxa as cobertas e tenta, apertando os olhos de tal maneira que eles poderiam jamais abrir novamente de tão forte, voltar àquela realidade irreal. mesmo sabendo que na maioria das vezes ela não volta. situações estas que se repetem tantas vezes ao longo de nossa existência que acabamos nos acostumando.

contudo, se tivermos sorte, em algum momento chegamos a conhecer o aconchego de um sonho neste mundo aqui de fora, vivendo todos os dias em um estado aparentemente perpétuo de plenitude, podendo até mesmo fazer pouco de tamanha graça. nestas horas, ignoramos que este é um universo paralelo cujo fim já estava estabelecido em seu começo. e assim dá-se continuidade àquele acordo, ninguém me belisque pra saber se é verdade.

como todo sonho, no entanto, o amanhecer não tarda a chegar e a vida, invejosa, tem pressa de continuar. você pode lutar, pode se debater e enfiar a cabeça debaixo do travesseiro, tentando voltar àquela irrealidade arredia. mais cedo ou mais tarde, não importando o que faça, acaba por se aceitar o inevitável. resta, então, apenas deixá-la partir, como tantas outras antes. mesmo sabendo que, dessa vez, toda vez em que se deitar, rezará calado para que ela volte.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

sobre as pessoas ao meu lado

curiosamente, ali estavam apenas o médico, um homem com seus 30 e poucos anos, cabelos castanhos cheios e olhar gentil que lhe dava um ar respeitável, e a enfermeira, já uma senhora que claramente havia visto suas dezenas de primaveras e que usava um suave suéter cor de rosa por baixo do avental creme do hospital. ela perguntou se havia alguma coisa que podia fazer por mim. perguntei-lhe se ela tinha uma caneta e papel.

cerca de quinze minutos antes, o doutor havia me informado que minha condição era crítica e que, assim que possível, eu deveria passar por uma cirurgia para tentar remover o coágulo que pressionava meu cérebro contra o crânio causando, sem meu conhecimento, a enxaqueca que já durava dias. a notícia não havia sido processada apropriadamente ainda, apenas o suficiente para que tudo o que eu conseguisse pensar era em escrever. eu ainda não sabia exatamente o que, mas me parecia uma obrigação deixar registrado meus últimos pensamentos caso, você sabe, eu não tivesse êxito.

estava sozinho numa cafeteria a poucos quarteirões da minha casa quando desmaiei, vítima de um episódio súbito e mais violento do que aqueles que vinham acontecendo. talvez por isso me encontrava sem alguém conhecido naquele quarto de hospital. acho que, por estar tão só naquele que provavelmente seria o momento mais importante da minha vida, só conseguia me concentrar naqueles que eu gostaria que estivessem comigo.

seguindo essa linha de raciocínio entrei em uma área obscura que provavelmente deveria ter evitado. nestes meus 47 anos, quantas pessoas pensariam em mim caso se encontrassem na mesma situação? quantas vidas eu havia realmente marcado a esse ponto, de fazer a diferença na hora de um fim iminente?

***

acordei três dias depois e haviam duas pessoas ao meu lado, meu irmão e pedro, meu melhor amigo desde a adolescência. talvez a única coisa que supere minha felicidade ao perceber que ainda estava vivo seja a alegria presente nos olhos dos dois. um sentimento contido, reservado, de quem não quer que você perceba o quão perto da morte esteve. os dois haviam lido meu bilhete, minhas ex-últimas palavras, e me asseguraram que haviam entregue o recado à terceira pessoa, a mulher da qual eu tinha me divorciado anos antes. ela passara para checar meu estado um dia antes, mas tinha de viajar para fora do estado a trabalho, torcendo pela minha recuperação.

jamais entenderei por que, naquele momento, resolvi que devia buscar esclarecimento com ela. pedro e meu irmão, claro, ambos ainda eram as pessoas mais presentes em minha vida, mas ela? trocávamos e-mails vagos e superficiais a cada dois meses, mais ou menos, apenas para não nos tornarmos estranhos. pelo jeito, havia algo dentro de mim que ainda não a havia esquecido com o assinar dos documentos do divórcio.

conversamos distraidamente por algumas horas os três, sempre evitando o elefante no quarto que havia sido minha quase morte. dias depois descobri que havia ficado em coma durante dois dias, acordando brevemente no terceiro, fato que não me recordo. o almoço chegou acompanhado do doutor, que disse ao dois que eu precisava descansar. pedro, sempre reservado, acenou da porta e disse que voltava no dia seguinte, caso eu não resolvesse ter outra dorzinha de cabeça. meu irmão ainda tentou em vão conter o abraço apertado que quase me arrancou a gaze. com lágrimas nos olhos (tanto nos dele, quanto nos meus) me fez jurar que jamais armaria outra palhaçada daquelas. pouco antes de atravessar a porta, se lembrou. ela havia deixado uma resposta. entregou o papel amassado que havia passado as últimas 24 horas em seu bolso, me beijou a testa e saiu.

depois de almoçar a comida surpreendentemente saborosa, não apenas por se tratar de ser um hospital, mas porque eu também não sentia o gosto das coisas há algumas semanas, ainda assisti um pouco de televisão, agradeci à boa e velha enfermeira por ter entregue meu recado e enrolei mais um pouco até ter coragem de ler o que minha ex-mulher havia respondido. sucinta como lhe era característica, a resposta era constituída por apenas uma palavra. "sim".

e você? já marcou de verdade a vida de alguém? às vezes não vale a pena esperar momentos como este para descobrir.


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levemente inspirado neste belo texto: http://bit.ly/r3FIvd