as pessoas lêem livros por dois motivos: para somar algum conhecimento às suas existências ou para, por algum momento, fugir delas.
posso afirmar categoricamente que pertenço ao segundo grupo. leio para visitar novos lugares, novas realidades, novas mentes. leio para tudo isso, e acabo me entregando à obra. me transformo no livro que estou lendo, enquanto estivê-lo fazendo. neste período sou autor, história, protagonista, tudo ao mesmo tempo e, como não posso deixar de sê-lo, sou também eu mesmo.
com isso, fica até fácil de identificar o que leio em determinadas épocas. se estou desleixado, cínico e cruelmente realista, sou também henry chinaski de bukowski. caso esteja direto, humanizado e um tanto epopéico, grandes são as chances de estar acompanhando saramago.
às vezes gosto de me aventurar por imaginar o que aconteceria ao ler algo como shakespeare. sou, por natureza, um dramático inveterado e um romântico amador. teria eu o fim em sangue? sei que, quando estou a ler stephen king, me transformo em um ser das sombras, soturno e perturbado, com uma personalidade mutável e volúvel, tal qual o seu palhaço pennywise.
certa vez, eu era james joyce. confuso, elaborado, profundo e nunca terminei de lê-lo. também, com tantas páginas... decidi-me então por ser a existência humana, partindo de um caso único e extrapolando-o para tudo e todos. poderia ser dito que experimentava uma vontade crônica de ser breve. ou talvez que vivia uma vontade breve de ser crônica?
enfim, posso dizer, quem sabe, que sou um leitor vivo, sendo tudo o que leio e lendo tudo o que sou o tempo todo. mesmo que isso mude com a editora ou com o autor.
O novo mandamento
Há 5 anos