segunda-feira, 5 de abril de 2010

sobre a terra da libertação

a terra da libertação é cheia de mulher feia.

mesmo sob o efeito de psicotrópicos pesados. pelo menos é isso que pude perceber nesta visita a são thomé das letras.

por isso clamo a vocês, mulheres: deixem seu namorados, noivos, maridos, viajarem.

não vamos a um lugar desses para caçar, espreitar o mulherio; vamos para reforçar aqueles velhos laços de amizade, encher a cara, passar frio e calor no mesmo dia, ouvir música tocada por pessoas mais loucas do que nós mesmos, conhecer pessoas mais loucas que nós mesmos, dividir o aperto de uma barraca inundada pela chuva, derrubar mitos, derrubar garrafas, derrubar a própria realidade.

não visitamos uma cidade cheia de maconheiros porque esperamos encontrar um amor para toda a vida ou apenas uma trepada passageira; visitamos porque desejamos fugir da rotina, fugir da sobriedade, correr desenfreadamente na direção oposta das responsabilidades e apenas viver aqueles breves instantes que levam para que a seda queime completamente.

não acampamos em meio a centenas de machos com seus cabelos rastafari porque procuramos a essência da beleza feminina; mas sim porque precisamos fugir de todas as pressões, queimar neurônios logo acima da delegacia, perder as habilidades motoras necessárias para se manter em pé, perder as habilidades motoras para se alimentar, encher a cara às nove da manhã (em algum lugar do mundo deve ser quatro da tarde), encontrar mensagens escondidas em pinturas de dali ao percebemos que somos verdadeiros especialistas em arte numa sorveteria às seis da madrugada.

enfim, vamos a um lugar como são thomé das letras exatamente porque queremos, desejamos, precisamos fugir de vocês. mas não me entendam mal.

já dedicamos cerca de 90% de nosso coração, cérebro e concentração a vocês. permitam, por favor, que possamos sentir sua falta, encher a cara com os amigos e sermos homens primitivos e sujos por um fim de semana que seja.

pois é apenas com o nível de sinceridade e percepção que só atingimos quando reforçamos aqueles velhos laços de amizade - e usamos uma certa quantidade de artigos legais e ilegais - que podemos perceber e aceitar que a terra da libertação é cheia de mulher feia.

terça-feira, 23 de março de 2010

sobre mulheres e meninas

tudo bem, então talvez aquela não fosse a melhor abordagem para uma mulher como aquelas.

o problema é que eu tinha um problema, sabe? e o problema, dessa vez, era que eu não sabia como chegar em alguém como ela.

na verdade, o problema verdadeiro era aquele que acomete nove entre dez dos homens de minha idade: seria ela mulher, ou seria ela garota?

creio ter atraído a simpatia da maior parte dos leitores masculinos deste texto. parte essa que sabe o que é não saber como reagir às reações do alvo - neste caso, alguém por volta de seus vinte anos. como saber se devemos desenvolver uma estratégia para quebrar as defesas de uma mulher ou de uma adolescente? que atire a primeira pedra quem souber.

entramos, pois, em terreno nunca dantes desvendado. singramos sitios estranhos.

tudo bem, posso concordar que tudo que remete ao sexo feminino seja algo desconhecido àqueles que buscaram singrar mares não navegados - pois há de concordar, aquele que tenha o mínimo de sabedoria, que não há certeza no eterno reino do cortejo.

sim, uso palavras antigas e esquecidas. também me desventuro por correntes nas quais muitos aventureiros jamais retornaram. mas ouso dizer que não me importo com tais coisas.

o que me importa é que eu mandei. mandei mesmo. enviei uma mensagem de texto à qual temo jamais receber resposta.

uma tempestade em copo d'água, poderia o mais destemido me esbravejar? concordo. mas peço encarecidamente que, aquele que souber todas as respostas, por favor, mande-me um e-mail. um scrap, que seja. adentramos agora no reino do xaveco moderno. o cortejo online. que me adicione no facebook quem tiver as respostas. e que me esclareça: seriam elas meninas ou mulheres?


em breve: o guia do xavecador online.

domingo, 31 de janeiro de 2010

sobre os puros de espírito

certa vez me achava em uma daquelas situações que muitos podem achar incômodas: estava sentado em uma mesa de bar com uma guria com a qual havia tido relações íntimas - sim, vamos chamar de "relações íntimas" -, seu namorado e um amigo daqueles famosos por não conseguirem calar a boca e entregarem detalhes sórdidos melhor deixados em caixinhas esmagadas em algum lugar do poeirento sótão que chamamos de lembranças. alguns podem achar tais momentos incômodos, talvez até mesmo embaraçosos, mas eu os chamava de inferno carmático.
olá, meu nome é pavio e, sim, eu já me relacionei casualmente com mulheres. antes que me acusem de misógino, acho válido salientar que foram, no máximo de minhas possibilidades casanovianas, umas duas.
pois bem, estávamos lá e a cerveja, conhecida por não conhecer grandes afetos, não parava de chegar.
a noite seguia alta e meu amigo não parava de comentar a leves brados:
- ela é gostosa, hein? mas sou mais você do que esse pirralho do lado dela.
é, ele é daqueles que tentam agradar, mesmo quando essa é uma possibilidade tão distante quanto pegar um avião para katmandu e se alistar no primeiro mosteiro budista enfiado em alguma pedra milenar.
a conversa não saia daquela breve troca de idéias sobre entorpecentes ilegais, comuns a qualquer um de nossa idade - tenho 22 anos - que tenha tido algum passado válido a se comentar, ou sobre os diversos deslumbres conhecidos em nosso curto tempo neste campo astral.
e é isso. eles eram, na mais sincera das minhas intenções, perfeitos um para o outro. não importa quão novo fosse ele, eles se encaixavam, combinavam. seus encantos com momentos dos mais mundanos era algo que simplesmente não cabia em minha mente. e eu só conseguia pensar em dar o fora dali, ao mesmo tempo em que ficava lembrando de certos momentos bíblicos que não merecem ser contados aqui.
o tempo passava e a troca de olhares era inevitável - como haveria eu de negar um breve contato ocular quando as memórias inundavam cada palavra e pensamento que cruzava a minha mente? sim, sou um cara e ainda estou atrás de sexo, oras.
no entanto, eu me mantinha firme. tomava mais cerveja, jogava sinuca e procurava continuar minha vida naqueles instantes tão duradouros quanto o tempo que se leva para apagar um cigarro e procurar outro no maço.
pois bem, a saidera chegou e a despedida era inevitável e bem vinda. não podia ser de outra forma. não podia ser de melhor forma. pelo menos até o momento em que íamos ao supermercado sacar dinheiro para que outro conhecido pudesse pagar seu táxi para casa, quando meu amigo, tão querido pela noite que se aproximava de seu término, virou para mim e disse:
- isso aí, meu velho. tá certinho. como foi mesmo? comeu uma noite e ficou de boa depois, né?
- não. como eu ia te dizendo, eu era tão apaixonado que até terminei com minha namorada pra ficar com ela.
silêncio, como era de se esperar. finalmente ele havia atingido tamanho mal-estar que me garantiria paz suficiente para curtir minha fossa.
ledo engano:
- mas tu comeu, não comeu?
deus abençoe os puros de espírito.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

sobre pensamentos VI - vai se foder

outro dia liguei o msn e vi, no nickname de alguma guria com a qual nunca troquei mais do que cinco palavras, os dizeres "voooo ligar o rádio e vou dizerrrrrr, arrumei outro mais gostoso que vce. vai se foder". na minha transcrição, cortei alguns O's e R's que estavam sobrando, até porque eles não importam. procure também ignorar o pequeno erro de português e a linguagem de internet. a mensagem mais importante ultrapassa tais detalhes. o que importa na mensagem, não dirigida à minha pessoa, obviamente, é a parte "arrumei outro mais gostoso que você".

olha, não sei como a pessoa que deveria receber o recado reagiu, mas imagino que a maioria gritante dos homens cagariam. quero dizer, eu não me acho gostoso.
nunca pensei em ser gostoso.
caguei pra ser gostoso.
logo, não seria grande mérito terem arrumado alguém mais gostoso que eu. na verdade, acho que eu teria vantagem por tê-la comido sem ser gostoso.

esse cara, sim, que rala. coitado. não deve ser fácil ser gostoso. e quando ele deixar de ser gostoso, então? tá na merda.

porque de uma coisa eu sei, não serei gostoso nunca na minha vida - como isso aconteceria, com tanto cigarro e cerveja? - mas ainda tenho minhas vitórias esporadicamente. vitórias essas que nada têm nada a ver com meu nível de gostosura. se tivessem, é certo que logo acabariam.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sobre o verdadeiro romântico

o verdadeiro romântico demorou a se apaixonar. desde sua puberdade era um romântico, amando sempre a idealização da mulher. assim, o verdadeiro romântico não conseguia encontrar alguém que se encaixasse em seus padrões altíssimos, não conseguia amar apenas uma mulher, quando era apaixonado por todas.

o verdadeiro romântico, não se sabe se por cansaço ou se por estar verdadeiramente interessado, finalmente conheceu alguém e se comprometeu.

o verdadeiro romântico lhe dava flores diariamente, a levava para jantar em lugares dos mais caros e finos, dizia que a amava incondicionalmente, e que ficariam juntos para sempre.

o verdadeiro romântico realmente acreditava em tudo o que dizia. infelizmente, o relacionamento não durou muito tempo. ele ainda amava a perfeição inexistente de sua companheira e, quando a própria, em toda a sua realidade de carne e osso, não conseguiu manter a ilusão, o namoro acabou.

o verdadeiro romântico, no entanto, não se deixou abater por esse contratempo e logo voltou à luta. se envolveu com uma, duas, três, vinte mulheres, algumas simultaneamente. sua gana por encontrar aquele ideal feminino que tivera em mente durante toda a sua adolescência só fazia aumentar e, com isso, acabava por anuviar alguns de seus princípios éticos. não era sua culpa, não podia sê-lo.

o verdadeiro romântico, assim, amava profunda e eternamente todas as mulheres com que se relacionava, que já havia se envolvido, que ainda iria conhecer. talvez fosse por esse motivo que era virtualmente irresistível à maioria da população feminina. enquanto estivesse com uma mulher, ele era todo e completamente seu, apaixonado, devotado. bem, pelo menos até a próxima.

o verdadeiro romântico percebeu esse seu poder. entendeu que sua condição era um verdadeiro afrodisíaco sobre todas as mulheres. como não podia deixar de ser, ele então começou a se aproveitar conscientemente disso. antes que alguém o acuse de insensível, vale lembrar que ele fazia isso não por maldade, mas por um senso próprio de justiça. durante tantos anos, fora um refém da perfeição feminina e, agora, finalmente tinha meios para equilibrar a balança.

o verdadeiro romântico não se continha mais. desejava e possuía todas as mulheres que cruzavam seu caminho e elas não pareciam se importar muito. algumas reclamavam, outras exigiam exclusividade, poucas batiam o pé e brigavam por seu amor.

finalmente, a verdade caiu como uma pedra sobre sua cabeça. depois de tanto tempo, de tanta idealização e amor, o verdadeiro romântico era um verdadeiro canalha.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sobre o som que habita o silêncio

fiquei observando-o ali, sentado no fundo do ônibus, aparentemente imóvel. apenas um olhar mais atento para perceber que seu coma era uma farsa. os dedos se moviam sutil e lentamente, acompanhando o ritmo da música que era emitida por seus fones de ouvido.

desde a primeira vez que saíra de casa com as próprias pernas, tinha sempre posicionado em sua cabeça o par de aparelhos auriculares. ganhara um walkman de seu pai ao completar três anos, com uma fita cassete da dupla sandy & júnior. não conseguia desgrudar do aparelho. ia à escola, ao treino de futebol nas manhãs dos sábados, ao supermercado com sua mãe, invariavelmente com os fones ligados.

assim, crescera. e, mesmo que o aparelho mudasse (de um walkman para um moderno Ipod) e a música nele contida (os filhos de xororó, ou chitãozinho, sei lá, não mais lhe apeteciam, como era de se esperar) o cenário era o mesmo. enquanto estivesse em movimento, nas ruas ou em lugares fechados, tinha seus companheiros sonoros conectados quase diretamente a seu próprio cérebro. já virara uma rotina. ao sair de casa pegava carteira com documentos e dinheiro, relógio, chaves e sua música.

ao contrário do que poderia se supor, tinha uma vida normal. o colégio, vivia sempre rodeado de amigos. conhecera sua parte de interesses amorosos. a preocupação inicial dos pais, que viam o filho se desligar do mundo ao sair de casa, passara com os relatos de diretoras e professores de que seu filho nutria uma relação social saudável - até mesmo invejável - com as pessoas ao seu redor. claro que o fato de que, em muitas vezes, os fones estarem posicionados em suas orelhas até durante as aulas causou certa apreensão, mas suas notas não apresentavam motivos para suspeitas.

sem maiores contratempos teria sido sua vida até aquele momento em que eu o observava no ônibus. o forte transe que o mantinha desligado do mundo por mais de vinte minutos pareceu cessar de súbito. de repente, aquele jovem e tranquilo garoto, mais novo do que eu por não mais do que quatro anos, apresentava uma exasperante inquietação. inicialmente, procurou manter a calma, examinando minuciosamente seu aparelho de armazenamento musical. sem encontrar respostas satisfatórias, passou a investigar seus antigos companheiros, os fones. quem o observasse naquele momento podia perceber, estampada em sua cara, que suas suspeitas se confirmavam: estavam quebrados, algo no fio, provavelmente. sua angústia era aparente, mas não havia nada que pudesse fazer ali, naquele momento. então, após praguejar e soltar algumas palavras de baixo calão por alguns segundos, finalmente pareceu resignar-se a completar aquela viagem em um silêncio desconhecido por anos.

o problema maior, no entanto, não era o silêncio. na verdade, o silêncio nem ao menos existia. subitamente, sua mente era inundada por vozes desordenadas e confusas, que gritavam milhares de sentenças por segundo. vozes que não pertenciam a terceiros, sentados nos bancos ao redor ou de pé no corredor, mas sim a seus próprios pensamentos. pela primeira vez em sua vida como ser humano pensante e inteligente aquele jovem se via obrigado a conviver consigo mesmo, pela primeira vez se deparava verdadeiramente com sua própria vida.

o jovem poderia ter experimentado um período sem música, sem fones, apenas com seus pensamentos. em uma semana, já teria vivido mais do que o resto de sua vida inteira, imerso em ciclos de pensamentos que nunca havia aprendido a organizar, soterrado por seus próprios erros e acertos, atacado constantemente pelas palavras que nunca dissera, pelas brigas que não havia tido. ele poderia, mas, se tivesse de apostar, diria que não foi isso que aconteceu.

chegando em casa, depois de se deparar com uma vida inteira que tinha pela frente, o rapaz chegou a conclusão que teria de fazer o que fosse necessário para que aquela situação nunca mais acontecesse. como poderia ter chegado até aquele momento sem nunca ter se confrontado daquela forma?

no dia seguinte, comprou novos fones de ouvido. novos e vários. tantos, para nunca tivesse que passar por aquilo novamente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

sobre o homem que não morreu

meu vô foi um grande homem. aprendi muito com ele. como me portar com outras pessoas, como mostrar respeito, como se orgulhar de viver minha vida sendo feliz.

meu vô cometeu muitos erros. alguns mais graves, outros passageiros. alguns marcaram a vida das pessoas, outros podem ter até mesmo marcado a minha.

meu vô, mesmo quando errou, me ensinou demais. cada erro seu ficará para sempre em minha memória e, podem ter certeza, viverei procurando desviar de tais armadilhas.

meu vô era um homem feliz, um homem alegre, e não havia como não se contagiar com sua presença.

meu vô conquistou uma cidade inteira, muitas vezes sem nem sair de casa.

meu vô bebia e fumava muito. mas esse é o lance de meu avô, ele não procurava esconder essas coisas que poderiam ser consideradas defeitos.

meu vô não tinha vergonha de ser do jeito como era, não tinha vergonha de ser feliz de formas pouco ortodoxas.

oswaldo soto martinez era um grande homem. este homem morreu dia 22 de setembro de 2009 e foi enterrado no dia seguinte. em seu enterro, familiares e amigos que já eram da família lamentavam sua perda, pessoas que sentirão pelos restos de suas vidas a ausência de alguém que lhes proporcionou tanto.

oswaldo soto martinez morreu dia 22 de setembro de 2009. meu vô continua vivo. afinal, como poderia morrer um homem que morreu e renasceu tantas vezes em sua longa vida?

tenho orgulho de dizer que o tinha como meu avô. como nosso avô. cabe a nós que ficamos provarmos com nossas vidas que merecemos tal honra, e que ele tenha orgulho de dizer que nos tem como seus netos.