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domingo, 31 de janeiro de 2010

sobre os puros de espírito

certa vez me achava em uma daquelas situações que muitos podem achar incômodas: estava sentado em uma mesa de bar com uma guria com a qual havia tido relações íntimas - sim, vamos chamar de "relações íntimas" -, seu namorado e um amigo daqueles famosos por não conseguirem calar a boca e entregarem detalhes sórdidos melhor deixados em caixinhas esmagadas em algum lugar do poeirento sótão que chamamos de lembranças. alguns podem achar tais momentos incômodos, talvez até mesmo embaraçosos, mas eu os chamava de inferno carmático.
olá, meu nome é pavio e, sim, eu já me relacionei casualmente com mulheres. antes que me acusem de misógino, acho válido salientar que foram, no máximo de minhas possibilidades casanovianas, umas duas.
pois bem, estávamos lá e a cerveja, conhecida por não conhecer grandes afetos, não parava de chegar.
a noite seguia alta e meu amigo não parava de comentar a leves brados:
- ela é gostosa, hein? mas sou mais você do que esse pirralho do lado dela.
é, ele é daqueles que tentam agradar, mesmo quando essa é uma possibilidade tão distante quanto pegar um avião para katmandu e se alistar no primeiro mosteiro budista enfiado em alguma pedra milenar.
a conversa não saia daquela breve troca de idéias sobre entorpecentes ilegais, comuns a qualquer um de nossa idade - tenho 22 anos - que tenha tido algum passado válido a se comentar, ou sobre os diversos deslumbres conhecidos em nosso curto tempo neste campo astral.
e é isso. eles eram, na mais sincera das minhas intenções, perfeitos um para o outro. não importa quão novo fosse ele, eles se encaixavam, combinavam. seus encantos com momentos dos mais mundanos era algo que simplesmente não cabia em minha mente. e eu só conseguia pensar em dar o fora dali, ao mesmo tempo em que ficava lembrando de certos momentos bíblicos que não merecem ser contados aqui.
o tempo passava e a troca de olhares era inevitável - como haveria eu de negar um breve contato ocular quando as memórias inundavam cada palavra e pensamento que cruzava a minha mente? sim, sou um cara e ainda estou atrás de sexo, oras.
no entanto, eu me mantinha firme. tomava mais cerveja, jogava sinuca e procurava continuar minha vida naqueles instantes tão duradouros quanto o tempo que se leva para apagar um cigarro e procurar outro no maço.
pois bem, a saidera chegou e a despedida era inevitável e bem vinda. não podia ser de outra forma. não podia ser de melhor forma. pelo menos até o momento em que íamos ao supermercado sacar dinheiro para que outro conhecido pudesse pagar seu táxi para casa, quando meu amigo, tão querido pela noite que se aproximava de seu término, virou para mim e disse:
- isso aí, meu velho. tá certinho. como foi mesmo? comeu uma noite e ficou de boa depois, né?
- não. como eu ia te dizendo, eu era tão apaixonado que até terminei com minha namorada pra ficar com ela.
silêncio, como era de se esperar. finalmente ele havia atingido tamanho mal-estar que me garantiria paz suficiente para curtir minha fossa.
ledo engano:
- mas tu comeu, não comeu?
deus abençoe os puros de espírito.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

sobre o que vamos fazer

vamos fingir que estamos em algum outro lugar; um pasto verde em algum país distante da europa mediterrânea, ou sobre as colinas geladas que cobrem territórios sagrados na china imperial.

vamos fingir que somos dois, você e eu, e que não há mais ninguém a ser lembrado sobre a face da Terra.

vamos fingir que existe, em algum lugar, um espaço em que realmente possamos fingir tudo isso.

vamos fingir que seus sentimentos são reais. vamos fingir que não estás fingindo sentir tudo isso que deveras não sente. vamos, os dois, nos fazer de tontos e fingir que a atuação não existe.

vamos fingir que eu não sei disso. vamos fingir que vale a pena se arriscar novamente, pular sobre uma superfície tão distante. vamos fingir que eu ligo, que não penso que talvez seja melhor navegar sobre águas mais tranquilas.

enfim, vamos fingir que o resultado compensa o risco.

vamos fingir que não são tão somente palavras lidas aqui. vamos fingir que o que se lê é real. vamos, podemos. quem sabe assim possamos viver plenamente o que, até agora, apenas se fingiu ser.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

sobre o conto e a moral

façamos o seguinte: imaginem um campo amarelado, com diversos matagais brotando aqui e ali. você já viu essa paisagem antes, apesar de se tratar de uma totalmente nova. estamos falando de um campo chinês. um campo chinês iluminado pelo sol de fim de tarde.

imaginem agora uma montanha; nem tão alta para estar coberta de neve, nem tão baixa para não valer o simples desafio de escalá-la.

no alto de tal montanha que se localiza próxima a um campo amarelado pelo sol do fim de tarde, encontramos o cenário para nosso próximo conto, um monastério simples, daqueles de telhas azuladas e arquitetura quadrada com paredes vermelhas.

se você já assitiu a qualquer filme de kung fu chinês ou de hong kong já consegue vislumbrar a obra arquitetônica a qual me refiro. kung fu panda também serve.

enfim, no meio do campo de tal monastério, cercados por bonecos de treinamento construídos na mais fina madeira oriental, um aprendiz discute a vida com seu mestre:

- mestre, consegui. voltei com ela. e dessa vez é para sempre.

- gafanhoto, deixe-me ver se entendi. você voltou com ela? a mesma que pediu um tempo para pensar na vida e, dois dias depois, ficou com shi fu, seu melhor amigo?

- sim, mestre. ela jura que dessa vez será diferente.

- imagino o que ela jura, jovem gafanhoto. só estou tentando entender a situação. seria ela a mesma que, depois de jurar que nunca mais faria algo como aquilo novamente, tratou de se entregar a dois jovens guerreiros apenas um mês depois de você ser convocado para defender a província de bu-ho?

- sim, mestre. mas eu a amo de todo o meu coração. sei que tal amor não poderá ser desconsiderado novamente.

- jovem gafanhoto, aproxime-se. - o jovem guerreiro chinês se aconchega próximo ao mestre, debaixo das folhas de uma respeitosa figueira. - já ouviu a história do sábio rato e o fosso?

- não, mestre. não ouvi. mas não consigo ver a sua importância agora. imploro seu perdão. estou apaixonado e...

- isso não importa, aprendiz. ouça com atenção às palavras de seu mestre. há gerações que se conta essa história, de pai para filho. por se tratar de um órfão, creio ser meu dever passar-lhe tamanho ensinamento. havia uma vez, muito tempo atrás, um jovem rato, que não sabia mais da vida do que um tolo de 22 anos. certa ocasião, ele voltava para casa, distraído após um dia de roeções e outros deveres característicos a ratos e acabou caindo em um fosso. o fosso se tratava de um buraco profundo, íngrime, escorregadio, que poucos sobreviveriam. em seu fundo, o próprio rato encontrara diversos restos de seres que haviam acabado por ser tragados. no entanto, com perserverança e honra, dignos de um verdadeiro guerreiro, o rato acabou por conseguir sair, mesmo custando-lhe uma de suas presas que usava para o tão importante trabalho de roer sementes. você entende, jovem gafanhoto?

- entendo, mestre. mas ainda não sei como isso se aplicaria ao meu caso...

- tenha paciência. enfim, um dia, meses depois de se salvar das garras do terrível fosso, apesar de se achar imune às suas armadilhas, o rato acabou por se embriagar em uma festa. voltava então para casa ébrio, e não percebia a aproximação gradual e fatal do terrível buraco. foi assim que o fosso lhe envolveu com um braço, laçou-lhe com o outro e acabou por puxá-lo para seu ventre. naquela ocasião, no entanto, o rato se encontrava ainda mais vulnerável, pois estava bêbado. mesmo assim, com dignidade e força, o roedor conseguiu se livrar da horrível armadilha, o que lhe custou as garras que usava para a defesa contra seus inimigos.

- sim, mestre. - neste momento, o jovem aprendiz concentrava toda sua atenção ao incrível conto do rato guerreiro que não se entregava aos planos da morte. - como, então, escapou o rato da terceira vez que caiu no fosso, sem garras e sem presas?

- aí que te enganas, gafanhoto. nunca houve uma terceira vez.

- mas como, se é certo que o fosso se tratava de uma força da natureza tão ardilosa que poderia enganar o mais sábio dos ratos?

- digo-lhe que a terceira vez nunca aconteceu, jovem aprendiz. sabes por quê?

- não imagino, querido mestre. como haveria o rato de se salvar de uma vez por todas?

- porque, por mais ébrio que estivesse nas vezes seguintes, amado jovem, o rato já havia se salvado. quero que prestes bem atenção ao que te direi agora.

- sim, mestre. sabes que minha vida é segui-lo.

- o rato se salvou, de uma vez por todas, porque tomou a atitude que falta à maioria dos seres, sábios ou ignorantes. aquele animal pequeno e tolo por natureza tratou de se salvar da única forma possível; tratou de dar uma porra de um pontapé na bunda daquela vadia de buraco!

- não entendo...

- simples, seu imbecil. - e aí o mestre já havia abandonado completamente conto ou moral para se impacientar com o jovem gafanhoto - seja homem para fazer o que até um rato fez antes de ti e manda aquela puta daquela tua namorada pras putas que a pariu, que até a mim ela já tentou dar!

se existe algo que a História nos ensinou, é que não há como discutir com a sabedoria milenar chinesa.

sábado, 8 de agosto de 2009

sobre o que sempre existirá

sempre existirão garotas que se interessarão por caras exclusivamente por causa de seus carros.

e sempre existirão caras que sabem que seus carros lhes ajudam com essas garotas.

a relação homem/mulher/veículo automotor se vê coberta por uma sombra nefasta. não me entendam mal. essa relação sempre existirá, assim como sempre existiu. no entanto, a modificação e, talvez, modernização dos carros nos últimos anos acabou com uma das maiores lembranças que uma pessoa poderia ter em vida: a de saber e até mesmo conhecer o carro em que foi concebido.

carros que duram anos e anos a fio não existem há, pelo menos, uns 20 anos. ou seja, há toda uma geração, talvez até mesmo duas, que não conhece aquele canto especial no banco traseiro em que, um dia, papai e mamãe se envolveram com tamanho fervor que acabaram por selar uma relação eterna.

sim, caros amigos, houve uma época mais feliz, uma época mais simples, em que os recreios eram momentos de discussões como:

- papai disse que eu fui feito na nossa brasília.

- sério? eu fui feito num gurgel.

- e eu numa mercedes.

- caramba! teu pai era rico?

- não. motorista...

- ah!...

- ...de ônibus.

hoje em dia, não podemos mais testemunhar uma conversa tão pura e, ao mesmo tempo, tão reveladora. quem tem o pai cujo carro está na família há mais de três anos? desvalorização no mercado, flutuações cambiais, modelos 2000, quintas gerações e, acima de tudo, motores vagabundos são os principais motivadores da perda de nosso passado.

pertencemos, meus caros, a uma geração sem ninho, sem um carro-natal, sem uma kombi para para chamar de sua. até hoje, gosto de imaginar que sou fruto daquele uno que me lembro ter andado um dia. enfim, creio que nunca saberei com certeza. sei que nem mesmo meus pais poderão se lembrar qual carro tinham na época. não com tantos kadets, monzas, kas e derivados no caminho a enevoar as memórias.

mesmo assim, se ficarmos no mais absoluto silêncio e aguçarmos bem a audição, poderemos ouvir uma camisinha estourando no banco de trás de algum 206 por aí. lutemos para não ficarmos tristes por mais um que não conhecerá suas origens.

sim, sempre existirão os carros para facilitar a aproximação de interesses entre os sexos. só não existe mais aquele pedaço de passado que tanto alegrou a nossos pais e avós em outros tempos.

aprofundando um pouco e distorcendo um tanto mais, pode-se dizer que, por desconhecermos nosso passado, perdemos um pouco também de nosso futuro. mas talvez isso seja ir um pouco longe demais.

é, isso com certeza seria ir longe demais. honremos os bancos traseiros, então. e respeitemos as caronas.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

sobre expetativas frustradas

virei a dose de uma só vez e bati o copo na mesa, imitando aquele estilo bem macho. algumas gotas voaram pelo ar e caíram bem em cima do meu caderninho. três, para ser mais exato. limpo com as costas da mão e levanto a cabeça e, ao mesmo tempo em que combato o enjôo ocasionado pela terceira dose de cachaça, dou uma escaneada no bar.

a noite mal começou, o que explica a falta de movimento. o bar escuro dificulta a visão, e a fumaça acumulada de cigarro não é um fator que ajuda. nem as paredes pretas, mas tudo bem. a situação do ambiente é quase a mesma de todas as noites. atrás do balcão, pinguelo seca alguns copos com seu avental amarelado; na mesa do canto esquerdo, alguns jovens barbudos com óculos intelectualóides discutem as velhas verdades universais promovidas pela cerveja e pelo vinho; mais ao fundo estou eu na minha mesa de sempre, aquela que oferece o melhor campo de visão do bar inteiro. somos seis ao todo, e todos os seis se viram para olhar em direção à porta quando ela entra e se senta em um dos bancos próximos ao balcão.

sentada bem à minha frente, não consigo ver o seu rosto. all star branco rabiscado, saia jeans rasgada e uma camiseta justa, branca. mulheres não são comuns por aqui. na verdade, mulheres nunca entram nesse lugar. acho que é por isso que frequentamos esse bar. a liberdade de poder falar alto, arrotar e coçar o saco; o tipo de liberdade que um ambiente livre do sexo feminino proporciona.

logo, como se flutuasse em algum lugar no ar bem acima à minha cabeça, observei enquanto essa figura barriguda de um jornalista de meia idade, vestindo uma camisa branca velha e com algumas manchas de queimadura, se endireitava na minha cadeira. consertei também a postura e limpei rapidamente a mesa, em uma tentativa patética de parecer mais austero. quero dizer, dava pra ver alguns pêlos fugindo por entre os botões, e a minha barriga se dobrava por cima da calça de uma forma um tanto obcena. como melhorar uma imagem dessas?

por cima do balcão, pinguelo acenou pra mim depois de servir à nossa mais nova frequentadora uma dose de whisky. acenei de volta, e nem percebi que ele não estava olhando pra mim. tampouco notei que ela vinha em minha direção.

sentou-se na cadeira vazia da minha mesa e eu então notei que estava correto: de fato, mulheres nunca vêm a esse bar, mas para tudo há uma primeira vez. no entanto, essa não seria uma delas. mulheres não vêm a esse bar, mas talvez meninas... bem, eu tinha, bem ali, à minha frente, um exemplar feminino de não mais que uns 15 anos.

ela abriu a boca para falar e eu pensei "raios, essa merda dá cadeia", mas ela não disse uma só palavra, apenas engoliu todo o resto de bebida em seu copo. levemente corada, ficou me observando por uns cinco minutos e eu, ao invés de incomodado ou constrangido, apenas meditava sobre a situação. aquela era pra ser uma noite como outra qualquer. depois de sair da redação, eu iria ao bar, pediria uma cerveja, três cachaças e um whisky. dois, se o dia tivesse sido puxado demais. depois, ficaria sentado na mesa como sempre, fazendo o velho inventário do expediente, com meu velho caderninho de anotações. o caderninho, pra variar, estaria intacto no momento da chegada, e em frangalhos quando chegasse em casa, levemente embriagado. ao invés disso, ela insistia em ficar ali. ela, aquela menina, que mal saíra da puberdade, me investigando e devorando com os jovens olhos manchados pela maquiagem.

quem seria ela? talvez uma fã, apesar da idade. de vez em quanto eu conseguia vingar uma matéria na capa ou até mesmo uma coluna. não tinha conhecimento de ninguém que acompanhasse ou admirasse meu trabalho, mas tinha certeza de que eles deviam estar por aí, em algum lugar. e agora estava ali, sentada na minha mesa, parecendo toda jovem e serelepe. e eu só pensava que isso podia dar cadeia.

finalmente, ela sorriu incomodamente e, olhando diretamente nos meus olhos, perguntou:

"você é joão eduardo rosa? o jornalista?" - é, meu velho. mais uma vez, seus instintos se provavam corretos. uma fã, quem diria.

"sou eu, sim. como posso ajudá-la, minha querida? talvez mais uma dose de..."

"acho que você é meu pai."

"...whisky?..."

aquela era pra ser apenas mais uma noite, porra.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

sobre apenas dois

ele acorda, desliga o despertador e decide que dormirá mais alguns minutos. ela já está saindo do banho, e pensa nas roupas que vestirá e qual caminho tomar para desviar do típico engarrafamento das dez da manhã.

ele sai de casa correndo, com uma maçã na boca por estar, mais uma vez, atrasado para o trabalho. ela aperta o botão do nono andar e troca conversa pequena com um cara do jurídico.

ele ouve the cure no carro, pois está de ressaca e esse trânsito é uma merda. ela se distrai com o ritmo de marisa monte, quando deveria estar concentrada no trabalho; afinal, esses números não vão se computar sozinhos.

ele decide ir pelo jardins, já que a porra da doutor arnaldo vai estar parada. ela pensa seriamente em mandar o chefe tomar no cu por lhe cobrar os relatórios mais uma vez.

ele muda de rádio mais uma vez e estaciona o carro ao som das palavras do profeta gentileza. ela cantarola, em direção ao banheiro, uma canção sobre a carta a elise.

ele começa a se resignar a respeito da bronca que levará da chefe, ao mesmo tempo em que esquece do fim de um namoro de quatro anos. ela troca palavras com uma colega e amiga de trabalho sobre homens e a carreira.

ele ouve às reclamações da empregadora e pensa em outras coisas. ela, enquanto fuma um cigarro, só quer saber de pensar em nada.

ele ajeita o teclado do computador, estala os dedos e puxa a primeira pauta. ela já está terminando a última planilha.

ele pega o celular e marca com amigos a que bar irão mais tarde. ela se ressente por saber que não terá tempo de acabar os relatórios e que terá trabalho em casa.

ele decide, enfim, que é hora do almoço. ela pede uma moqueca de camarão e uma água mineral.

ele atravesa a rua na hora errada, distraído com uma garota que, ele jura, poderia ser a mãe de seus filhos. ela desvia o olhar bem a tempo de não guardar na memória, para o resto de sua vida, a visão de um homem sendo atingido por um carro.

ele fica lá, caído no concreto, lutando para respirar com um dos pulmões perfurados. ela corre para socorrer o jovem que acabou de ser atropelado a poucos metros de si, que arfa em busca de ar.

ele, em poucos minutos, não passará de uma estatística. ela, em algumas horas, chorará a morte de um desconhecido.

eles poderiam ter sido protagonistas de qualquer história. se romance, comédia ou drama, não cabe a nós dizer. no entanto, foram não mais que personagens de um conto que descreve apenas o fim; mesmo quando todos iriam preferir que se tratasse apenas do começo.

domingo, 22 de março de 2009

sobre conversas noturnas

a história a seguir retrata, embora não tão profundamente quanto possa parecer, o momento em que pavio encontrou deus.

sabe aqueles momentos, logo antes de dormir, em que sua mente parece acelerar a 200 quilometros por hora e você simplesmente não consegue adormecer? então, pavio, nosso jovem anteriormente conhecido, transitava exatamente por esse misterioso mundo da mentes aceleradas. um olhar mais atento através da escuridão de seu quarto revelaria suas finas e pálidas canelas, que sempre ficavam para fora da cama - pavio devia medir mais de dois metros - inquietas embaixo das cobertas.

o que fazer nessas horas? você relaxa, tenta descontrair cada músculo de seu corpo, controlar a respiração, desfocar a mente de qualquer assunto em específico, mas isso dá tanto trabalho que, no final, você acaba ainda mais desperto do que antes. eu disse desperto, e não energizado, ou até mesmo acordado, como pavio estava. é como se cada um de tais procedimentos fosse inútil, e você acaba percebendo que, não importa o que faça, haverão duas forças que não podem ser controladas: seu coração e sua mente. e a última insiste em visitar cada situação do dia, semana, mês, ano, horas, minutos ou segundos. são faces e momentos que transitam a velocidades exorbitantes, de forma desconexa, incabível, impensável, intransitável, impossível. na verdade, possível apenas naqueles momentos que antecedem o adormecer.

mas já basta de divagações sobre tal instante. (divagações que, garanto-lhes, passaram todas pela cabeça do pobre pavio, não importando o quanto ele estivesse exausto) foi olhando para o quadro do "paquiderme comendo bambu", trazido por sua amada mãe em sua última visita, que pavio se deu conta dos leves e constantes ruídos vindos da janela de vidro em seu quarto. eram barulhos baixinhos, que lembravam aqueles que fazem pequenas pedras ao serem atiradas de encontro às janelas de amantes, com uma cadência que se assemelhava a sons produzidos por galhos de árvores embaladas pelo vento, perturbando o ser humano adormecido abrigado em seu quarto, que só cedem quando abrem-se as janelas ou quando tais galhos são arrancados à força por um pobre insône frustrado. foi com tal pensamento que pavio decidiu conhecer a origem dos ruídos.

ao abrir a janela, pavio deu de encontro com o maior grilo que já havia visto em sua vida. certamente, haveria de ter algo de errado com o inseto, uma mutação, o que fosse. o verde de seu exoesqueleto, iluminado pela lua cheia, lembrava aqueles usados em canetas marcatexto e o bicho devia medir quase 50 centímetros. o assombro deu lugar, brevemente, ao pânico, quando o animal invadiu seu quarto tão rapidamente que pavio apenas imaginou ter sido com um pulo, já que nem mesmo conseguiu observar o gigantesco grilo mover-se. antes que pudesse reagir, o grilo rezadeiro já se encontrava em sua cama. rezadeiro, pois suas patas dianteiras se uniam, como em uma espécie de louvor.

isso, burro, não é um grilo. é uma porcaria de um louvadeus.

"nunca mais", disse o louvadeus, como que em uma resposta à conclusão de pavio.

ficaram os dois ali, observando-se na escuridão do quarto de pavio, quarto esse que estava ocupado pelo jovem há menos de um ano, quando mudara-se para sua nova cidade, longe de família e amigos. havia sido um bom ano, concluiu pavio, apesar das mudanças. na verdade, pensava, havia sido um bom ano por causa das mudanças. cada experiência era uma nova experiência, tudo era novidade. lugares, situações, amigos. tudo novo. nada se encaixava ou se encaixaria em sua antiga vida, que ainda esperava por ele e por seu retorno, guardados naquele lugar onde ficam as antigas lembranças de um passado que se olha com carinho. há quem chame tal lugar de coração, mas pavio gostava de pensar diferente. não coração, alma. era lá onde guardava seu passado. mas isso tudo não mudava o fato de que havia um louvadeus em sua cama, encarando-o em silêncio após proferir as poescas palavras. um cigarro depois, o clima misturado com fumaça que habitava o espaço entre jovem e inseto era quase tangível o suficiente para ser cortado com uma faca, cortado então pelas palavras do animal.

"apenas brincando. achei que ia ser legal começar assim, todo corvo. nunca mais. pffft. nunca entendi aquela porra de conto. quer dizer que corvos só sabem falar aquilo? vou te dizer uma coisa, se há uma coisa que eu sei, é que corvos são animais muito falantes. isso é, logo antes de te devorar. 'você sabia que ontem eu peguei aquela galinha que tava dando sopa e...' ZÁZ, sua vida acaba antes que possa perceber. perdi muito amigos assim. 'nunca mais'... acho que nunca é uma palavra que não consta em seu vocabulário..."

era verdade, então. aquele louvadeus realmente estava ali, em sua cama, após forçar sua entrada pela janela, falando com ele. não parecia se importar muito pelas horas avançadas da madrugada, ou pela fumaça do cigarro já apagado de pavio, ou até mesmo pelo vento gelado que entrava por sua janela, ou, certamente, pelo fato de que louvadeus não fala.

"tudo bem, um louvadeus não fala mesmo. são animais calados por natureza. quero dizer, todos os animais são calados por natureza, exceto pelos humanos, os quais achei por bem incentivar o dom da fala. achei que, talvez, caísse bem com sua suposta inteligência. por que me olhas com essa expressão de espanto? 'criei'? sim. criei, diabos! ou você é desses metidos a espertinho que acreditam naquela baboseira de evolucionismo? merda, construo a existência em seis dias, SEIS DIAS, e vem um branquelo metido a esperto e dá créditos à maldita natureza, aquela putinha... como se fosse difícil fazer tudo isso em MILHÕES DE ANOS. vou te dizer uma coisa, me dê só meio milhão e você verá o que eu construo com isso... evolucionismo... de qualquer forma, me desvio do assunto. prazer, jovem pavio. eu sou deus."

era o que faltava, um louvadeus com mania de grandeza.

"vai ficar aí quieto, porra? você tá aí, sentado no meio da noite, com a porra de DEUS no seu quarto, na sua cama, e vai ficar quieto? e eu falei que esse negócio de inteligência era algo superestimado... olha as formigas, por exemplo, burras feito uma porta, mas dão conta do recado. carregam animais cinco vezes o seu tamanho, abrem caminhos que os humanos levariam anos para abrir e não precisam construir arranha-céus para isso. na verdade, uma vez conheci uma que tava meio decidida a ser arquiteta, mas nós logo sabíamos que isso só podia dar errado e..."

e como falava, o filho-da-putinha! talvez fosse mesmo mais fácil pavio simplesmente dar uma sapatada nele e voltar a tentar dormir. mas isso faria uma puta de uma sujeira, o bicho estava bem no meio de sua cama. talvez pavio devesse ir dormir na sala, deixando o animal falando sozinho. mas isso seria de uma tremenda grosseria e se havia algo que pavio não era, era mal-educado. pois bem, por ora, iria responder aos caprichos do animal "divino".

"epa, nunca falei que era divino, ô grandalhão. isso soa meio gay. não que haja qualquer coisa de errado em ser gay, amo todas as minhas criações da mesma forma, apesar de que isso soa meio gay, também."

pavio se perguntava agora como o animal sabia o que havia pensado. cacete, aquela era uma noite estranha. ele gostaria de ter um do verde para espairecer um pouco ou, quem sabe, esquecer muito. quem diria, deus preocupa-se com sua masculinidade.

"pode ter certeza que eu me preocupo com minha masculinidade. não nos preocupamos todos? quero dizer, mesmo as mulheres se preocupam com sua masculinidade, por que não haveríamos nós de fazer o mesmo? enfim, talvez estejamos nos desviando da tarefa à mão. vim aqui esta noite, pois você tem o direito a fazer uma pergunta a deus, meu jovem. mas não enrole e..."

uma pergunta, então? pavio, como todo bom jovem na casa de seus vinte anos, tinha muitas perguntas. sobre tudo, sobre qualquer coisa. talvez não tantas quanto crianças de três a sete anos, fase de nossas vidas em que tudo é uma enorme marca de interrogação, mas pavio certamente tinha muitas dúvidas. o engraçado era que, logo agora, nada lhe vinha à mente. o inseto começava a olhar impaciente. tudo bem, foda-se, tudo não devia passar de um sonho mesmo... "qual o sent..."

"...e não me venha com aquela baboseira clichezinha de merda de 'ai, senhor meu deus, qual o sentido da vida?' que eu não to com saco pra essa porra sentimentalóide hoje. a verdadeira questão, meu jovem pavio, é a questão em si. como eu vi em um filme, certa vez, uma boa resposta não é uma boa resposta sem uma boa pergunta por trás dela. 'e o que é uma boa pergunta?' questionava um dos estudantes que assistia à aula fictícia na película. 'essa é uma boa pergunta.', respondia o professor, triunfante. 'então, qual a boa resposta?', 'a minha', ainda mais triunfante, tambores, aplausos, risos e regojizos. todo mundo fica feliz. era um bom filme, se não me engano, mas não consigo me recordar o nome. eu sei, eu sei, não é fácil ser onisciente. na verdade, enche o saco tanta coisa na cabeça da gente. você acha que tem dificuldades para dormir? devia ver o meu cérebro quando deito na cama...

"e aqui vou eu, saindo do eixo, novamente. enfim, caro pavio, lembre-se que tens apenas uma pergunta a ser feita e eu, cercado de toda a minha sabedoria infinita, tentarei responder da melhor forma possível. não há pressão. se a sua pergunta for qual a hora em bangkoc neste momento, eu responderei. devo dizer que será um tempo muito mal aproveitado, para você e para mim, e provavelmente nunca nos veremos novamente depois disso, mas eu responderei. pegue todas as suas dúvidas, todas as suas incertezas, aquelas que habitam os lugares mais empoeirados de sua mente, os cantos mais escuros de sua alma, o lugar mais apertado de seu coração, e busque algo que possa definir sua vida. acredite em mim, você não vai querer olhar para trás um dia e, ao se lembrar deste momento, ficar com vergonha da pergunta. eu sei disso, já não comentei que sou onisciente?"

e com isso pavio virou do avesso. afundou-se em si mesmo buscando todas aquelas imagens que transitavam em sua mente minutos antes. imagens que o próprio pavio não tinha muita certeza de que se tratavam. lembrou-se da visita de sua mãe e de seu irmão menor, no mês anterior, e de como tinha sido difícil deixa-los partir novamente, e de como deveria ter sido difícil para eles deixarem-no ir, também. visitou o momento em que, anos antes, havia negado o amor que queimara em seu peito; ele gostava de acreditar que havia sido pelo bem dos dois, mas não podia deixar de imaginar se não teria sido apenas egoísmo. caminhou pelas vielas da cidade onde seu pai morava, um homem que já não era mais tanto seu pai, mas que ainda era venerado pelos eternos olhos de criança que dominam a todos nós quando olhamos nossos pais. observou decisões difíceis, escolhas cobertas de alegria, despedidas com lágrimas ou abraços, brigas armadas de palavras ou de punhos. sentiu cada dor que era possível sentir e o gosto de sangue que as acampanha, sejam nas costelas ou na alma.

"por que tudo o que vale a pena ser lembrado e guardado é acompanhado de dificuldades, incertezas ou dor?", finalmente perguntou.

"agora essa é a verdadeira boa pergunta. porque, senão, como saberíamos que elas merecem ser lembradas e guardadas? melhor ainda, que graça teriam elas?"

pavio então conseguiu lentamente deslizar para o adormecer, deitado em sua cama, como sempre estivera. no entanto, observando-se atentamente pela escuridão de seu quarto, através das cortinas e da janela, um olho mais experiente encontraria, em meio à folhagem, um pequeno grande inseto cor de jade.

domingo, 9 de novembro de 2008

sobre o último minuto

você abre os olhos e só vê branco. a lembrança de um romance de saramago passa brevemente pela sua cabeça. no entanto, você não está cego, acometido pela cegueira branca. está, sim, em um pálido quarto de hospital, como pode ser percebido pela aparelhagem característica e a famosa máquina que emite "beep".

sua respiração está mais pesada do que o costume. puxar o ar para dentro dos pulmões prova-se algo extremamente complicado. é difícil raciocinar. tubos saem de seus braços, ligados a bolsas com líquidos transparentes penduradas ao lado da cama.

sua cabeça roda, parece pesar 30 kilos. o branco dos lençóis se mistura com o bege claro das paredes e o cinza da televisão. uma mulher entra e mexe nos tubos. sai antes que você possa perguntá-la o que faz ali, o que está acontecendo. aliás, você percebe que não consegue falar, dói demais.

falando em dor, agulhas penetram lentamente seu peito, espalhando-se por suas costas, ao longo de toda coluna. não é a melhor sensação do mundo. talvez até se assemelhe ao que você imagina ser a morte ou o inferno. felizmente, a agonia passa, tão logo você desiste de mover qualquer parte do corpo. agora já sabe: até mesmo o mindinho pode funcionar como gatilho para dor tão profunda. parece uma boa idéia permanecer imóvel.

a imobilidade é seu santuário de calma e paz, mas isso ainda não responde o que raios está fazendo naquele quarto de hospital. algo no fundo de sua mente lhe diz que, de alguma forma, você sabe a resposta para tal pergunta, porém esta está guardada em um lugar distante o suficiente para que suas mãos não possam alcançá-la. cansa pensar muito a respeito e, se há algo de que você tem certeza, é de estar profundamente, completamente, exaurido de qualquer energia.

sua cabeça ainda pesa os 30 kilos, e só então percebe o travesseiro macio e fofo com leve cheiro de hortelã com detergente na qual está depositada.

a agonia volta. dessa vez, não é a dor que a ativa, mas a falta de motivos, dos por quês de estar ali, preso àquela cama e aos tubos.

lentamente, as memórias começam a pipocar em sua cabeça, como não poderia deixar de ser. estranha e tortuosa é a psique humana. às vezes falha com o homem, exita em funcionar e exercitar os propósitos pelos quais existe. contudo, há os momentos em que decide lhes fornecer pequenas pistas a respeito do que acontece à sua volta, mesmo que, na maioria das vezes, não façam idéia.

você então vislumbra os vultos dos fantasmas que estiveram ali, naquele mesmo quarto, chorando e aguardando por boas novas. uma mulher com camisa rosa claro, cabelo castanho e olhos azuis cheio de lágrimas. ela olha para a sua figura fraca e doentia na cama e seu desespero é verdadeiro e profundo. você gostaria de poder acalentá-la, dar garantias de que tudo ficará bem, mas não tem poder para tanto. o simples fato de continuar vivo já é um fardo grande demais.

crianças entram correndo pela porta. a mulher olha para elas com ternura e tristeza. a mais nova delas, uma menina loira com sardas pela face, brinca com as flores depositadas em um vaso sobre a mesinha ao lado do seu leito. ela não parece saber muito o que significa sua estadia ali. o mais velho, no entanto, exibe os olhos marejados e procura desviar o olhar de onde você está deitado. a dor da consciência de sua tristeza é maior do que a das agulhas, e você chega a desejar que ele não estivesse ali para vê-lo naquele estado. infelizmente, não há nada que você possa fazer. não há nada que você possa fazer há muito tempo, aliás.

os três, entes querido de uma vida há muito passada, se movem como espíritos etéreos, cujo lugar é qualquer um, exceto aquele pálido quarto de hospital. eles deviam estar mundo afora, procurando seus próprios destinos, e não sofrendo por um moribundo sem a menor perspectiva de poder sorrir, cantar ou dançar novamente.

a onda de luz que inunda suas dúvidas neste momento é mais intensa do que a experiência de olhar para um eclipse solar sem qualquer proteção. a cegueira vem de verdade dessa vez, vindo, no entanto, como uma cegueira que lhe abre os olhos para a verdade. você vê, pela primeira vez. vê o médico, com seu jaleco branco e óculos de lentes grossas determinando, com poucas palavras, o fim de seu caminho, de sua vida. na verdade, ele não necessitaria de mais de uma palavra para tal. câncer. terminal. não há nada que possamos fazer. sinto muito.

você gostaria de chorar neste momento. aliás, se já houve algum momento perfeito para as lágrimas desde a criação do mundo, seria este. você quer chorar e seus olhos permanecem secos. nenhuma gota desce por sua face, não importa o tamanho da dor que tome conta de seu coração. a tristeza é tão profunda que seria egoísta não fosse um detalhe: márcia.

você se lembra do nome dela, afinal. consegue até se lembrar daquela pequena lanchonete no interior em que estava no dia em que a conheceu. recorda-se do gosto do café, do cheiro das flores sobre a mesa, da aparência mal-encarada da garçonete rude que o atendeu. a luz do sol que invadiu o ambiente quando a porta dupla foi aberta por márcia era suficiente para queimar levemente sua íris, mas sua beleza o impediu. aquele era o momento de uma vida inteira juntos.

para seu espanto, alguém aperta sua mão, ali, naquele quarto de hospital. a cabeça está caída sobre o braço esquerdo, depositado a seu lado na cama. os cabelos começam a clarear e há um quê de derrota naquela cena. você sente sua perna úmida e salgada por um choro de dias. ela nunca saíra dali, nunca deixara de rezar e rogar por melhoras, mas a esperança se esvaía.

algo então acontece dentro de sua doença, de seu estado, de toda a dor causada pelo tumor instalado em seu peito. você o sente regredindo, perdendo força, desistindo de derrotá-lo, até que, finalmente, ele se retira. você se sente completo novamente. poderia se levantar neste exato momento, agarrar aquela mulher que nunca desistira de ti e dar-lhe um beijo que poderia, nos livros, até mesmo ser chamado de "beijo da vida". você está pronto para mim.

eu saio das sombras. poderia ser de trás da cortina, de debaixo da cama, ou de dentro do guarda-roupas. você sente um novo aperto, dessa vez no ombro, autoria de minha esquálida mão. com seus olhos, você procura sua amada, sua mulher e companheira, mesmo sabendo que, em seu sono, ela não poderia ter chamado sua atenção de tal forma. sempre admirei isso nos homens. como, mesmo nas situações mais impossíveis, procuram força e esperança em sentimentos intangíveis como o amor.

finalmente, você me localiza e, pela primeira vez, o olhar que vejo não é de terror ou espanto, e sim da mais profunda aceitação pelo que viria a acontecer. você certamente foi um ser humano admirável. não tentou barganhar, implorar ou subornar. simplesmente pediu mais um minuto para se despedir. de pé novamente, depois de meses naquela cama, você calmamente inclinou-se e beijou ternamente a testa daquela que ainda demoraria anos para me conhecer.

juntos, deixamos aquele pálido quarto de hotel. meu trabalho estava feito e você teria toda uma nova vida pela frente. nada mudou no seu antigo mundo, só a máquina, que passou a emitir um longo e fulminante "beep".

terça-feira, 21 de outubro de 2008

sobre uma história familiar

temos aqui duas pessoas: um homem e uma mulher. talvez, em outra versão, pudessem ser chamados de dois jovens, um garoto e uma garota, mas neste caso seguiremos com "homem e mulher".

ambos eram amigos há muito tempo. quem sabe até se conhecessem desde crianças, tendo sido vizinhos em um daqueles subúrbios americanos - grandes casas com varanda, quintal e uma bela cerca branca - ou em um conjunto habitacional criado pela prefeitura paulistana - prédios de estatura mediana, com a pintura descascando em contraste com as pixações ilegíveis nos andares superiores. eram amigos por tanto tempo que já conheciam todos os gostos um do outro, suas paixões, seus temores, suas expectativas e aquelas pequenas manias que todos temos, perceptíveis apenas por aqueles com quem convivemos a maior parte de nossa vida. exato, esse é o nível de intimidade que ambos compartilham.

de qualquer forma, é um espanto que os dois tenham se aturado por tanto tempo. isso porque, mesmo se conhecendo há anos, os dois não têm absolutamente qualquer coisa em comum. está bem, talvez ambos dividam a mesma opinião sobre a saúde pública - aliás, quem não tem a mesma opinião sobre a saúde pública? - mas, de resto, são completos opostos.

ela gosta de rock, tatuagens, preto, piercings e grandes concertos internacionais. ele prefere seu jazz, suas artes e seus livros, além de, é claro, a gostosona da faculdade. mais uma vez: se a história fosse outra, estaria ela apaixonada pelo vocalista gótico daquela banda de heavy metal, mas esse não é o caso. e, dessa vez, ela reprova frontalmente as escolhas relacionamentais dele. existem mais de mil mulheres inteligentes e interessantes somente na vizinhança em que moram, por que raios ele tinha de gostar justo daquela piranha?

nem ele sabe, mas ela não consegue se conformar. tenta dissuadi-lo da idéia - onde já se viu pensar em casamento sem nem ao menos ter a coragem para chamar a guria pra sair? como pode se falar em cachorro e gêmeos se os dois nem ao menos foram apresentados? - mas ele se mostra irredutível. e é óbvio que ela gritará com ele, tentará pôr um ultimato nessa loucura, e ele ficará lá, com aquela cara de bocó, tentando entender por que as mulheres estouram por qualquer besteira.

então ela sai com lágrimas nos olhos, borrando o lápis preto que os envolve e esbarrando o ombro com força na porta, para marcar sua saída dramática. por sua vez, ele desiste de entendê-la e, na mesma noite em que consegue um jantar com a tal boasuda da faculdade, não pode imaginar que sua antiga e querida amiga de infância está se entregando, finalmente, àquele vocalista gótico da banda de heavy metal.

alguns meses se passam, vamos dizer uns três, e ambos seguem sem se falar. não é preciso dizer que tudo em que os dois pensaram nesses meses foi em como sentiam a falta um do outro. aliás, também não irei entrar em detalhes aqui, mas vocês podem imaginar o quanto sofreram na mão de seus respectivos parceiros.

ele, usado por motivos materiais, como caronas para o shopping, carregador de sacolas e financiador de compras. ela, usada por motivos bíblicos, como sexo, pedaço de carne sem sentimentos e boneca inflável.

finalmente, o reencontro dos dois acontece, e de longe pode se perceber, pelo modo como se olham e se comportam, que o distanciamento serviu para que percebessem que eram feitos um para o outro. sobe música romântica, algo como kiss me, do sixpence none the richer.

enquanto a música inunda o ambiente da festa ou do show cenário do reencontro, os dois se trancam em um quarto arrancando suas roupas com todas as mãos, dentes, unhas e utensílios à disposição.

neste mesmo momento, seus antigos parceiros fúteis se dão mal de alguma forma. talvez batam o carro e a polícia leve os dois sob a alegação de tráfico de drogas, algo do qual o antigo vocalista gótico da banda de heavy metal realmente é responsável. enquanto esperam pelo seu direito a uma ligação, são estranhamente mantidos na mesma cela e descobrem também serem perfeitos um para o outro. afinal, não podemos culpá-los inteiramente por serem as pessoas fúteis que são, e eu realmente acho que ambos merecem um pouco de felicidade nesse mundo.

esse deve ser o enredo da sua comédia romântica assucarada favorita, ou então de todo um gênero que você odeie. no entanto, a história já é conhecida. mesmo com pequenas variações - em um filme de kevin smith, teríamos escatologias, lesbianismos e dois pequenos traficantes que serviriam para manter a trama junta; por sua vez, caso fosse uma produção de nora ephron, teríamos tom hanks e meg ryan - a moral é sempre a mesma.

para falar a verdade, conheço um número muito maior de "gostosonas da faculdade" ou de "vocalistas góticos daquela banda de heavy metal" do que pessoas que poderiam se encaixar como nossos intrépidos protagonistas. raios, aposto que você já deve ter passado por uma situação parecida com a dos "parceiros fúteis" - eu sei que eu mesmo já me vi usando esses sapatos.

talvez tudo isso seja apenas dor de cotovelo. pode ser que realmente haja uma história dessas por aí, em algum lugar. por enquanto, seguimos apenas sonhando com algo assim tão simples, mas tenho minhas suspeitas de que, quando encontrarmos, não acharemos a menor graça, perdendo o interesse na trama bem antes da grande reviravolta.

afinal, qual a graça de uma história da qual já se sabe o final?

na manhã seguinte, ambos acordam, provavelmente com uma ressaca fenomenal. não conseguem mater contato visual por mais do que dois minutos. vestem suas roupas e seguem para suas casas sem trocar uma palavra. mais tarde, no mesmo dia, vão jantar juntos e nenhum dos dois tem coragem de tocar no assunto.

por muitos anos, aquela noite segue sem ser lembrada, pelo menos em voz alta, por nenhum dois, como um pacto estabelecido. um pacto que nunca precisou ser firmado.

ele, enfim, se casa com uma jovem corretora de imóveis, passando a frequentar ambientes mais familiares e se afastando gradualmente de seu passado.

passado esse que inclui ela, que se tornou uma escritora não muito conhecida, mas com admiradores fiéis e sem uma vida pessoal das mais animadas, regada por taças de vinho degustadas em sua solidão, altas horas da noite.

um pode realmente ter sido a pessoa perfeita para o outro, mas a vida tem dessas coisas e isso eu não posso mudar.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

sobre o jogo

eu?
sempre acreditei no amor. no amor e nessas outras coisas bonitinhas e coloridas que se mostram nos filmes americanos de mulherzinha e nas novelas brasileiras, não mais tão de mulherzinha assim.

minha vida era boa, não tinha muito do que reclamar. o dinheiro ficava curto no final do mês, meus sanduíches ficavam cada vez mais preguiçosos e a poeira se acumulava nos cantos da minha casa, mas eu vivia como queria, quando queria, da forma como queria.

eu estava na faculdade, bicho. eu estava morando sozinho, bem longe de casa. tinha a rotina que sempre desejei. fazia meus próprios horários. chegava bêbado altas horas da madrugada sem ninguém me encher o saco a respeito. faltava nas aulas sem peso na consciência nem ter que inventar desculpas. levava quem eu quisesse para "passar a noite" e não tinha que me preocupar com a cara de desaprovação na mesa de jantar no dia seguinte.

e é óbvio que eu tinha de conhecê-la. era a guria mais linda a apaixonante que eu já tinha visto. caí de quatro, literalmente. não havia outra explicação. eu estava perdidamente, loucamente, idioticamente apaixonado pela carol, uma colega da faculdade que eu cursava.

porra, tive das minhas experiências no passado, me apaixonei, quebrei a cara, traí, me fodi, segui em frente e, de verdade, sempre gostei de tudo isso. o problema não era o "estar apaixonado" era mais o "por quem".

é, eu caguei no saco mesmo, mas como eu podia imaginar que pegar a dani, moreninha que me dava mole desde o primeiro dia de aula podia foder minha vida de tal maneira? como eu poderia imaginar que ela era a melhor amiga da mulher da minha vida?

enfim, eu não podia. mas falta de imaginação nunca é justificativa nessas coisas de relações.

por ter ficado com a dani eu estava interditado para tentar qualquer coisa com a carol. está certo, talvez não qualquer coisa, mas algo sério, significativo, duradouro.

como passar por essas barreiras sociologicamente naturais? a resposta me causou mais problemas do que a própria pergunta.

eu, osmar de oliveira netto, gênio, fui pedir conselhos com meu chegado, meu parceiro, meu melhor amigo carlos mangioli, também chamado carinhosamente de carlinhos.

malditas ligações que acreditamos serem eternas e fiéis.

carlinhos saberia o que fazer. era feio que doía, mas tinha jeito com as mulheres, fazer o quê. estava sempre acompanhado por alguns dos melhores exemplares femininos, onde quer que fôssemos. se havia alguém que poderia me ajudar, se apiedar desta pobre alma, colocar-se no meu lugar, seria ele. e não é que ele aprendeu rápido como se colocar no meu lugar? calma, estou colocando o carro na frente dos bois, aqui.

ele logo se debruçou sobre meu caso e, juntos, bolamos diversos planos e estratégias para contornar a situação. carlinhos se impacientava com meu jeito, sempre racionalizando demais as coisas, falava que eu parecia uma colegial, mas eu sou assim, e esse meu jeito vinha funcionando perfeitamente até então.

infelizmente, eu talvez já tivesse cometido um erro grande demais.

explico: alguns dias antes, eu havia me aproximado da carol, iniciado uma relação. oferecia a ela todo o meu encanto e carisma, em troca apenas de estar perto dela, esperando que mais cedo ou mais tarde ela me notasse, você sabe, como homem, não só como amigo.

tudo bem, eu sou um tanto piegas, confesso. dei até flores à guria. mas o erro não foi esse. na verdade, ela parecia até gostar disso. o erro foi ter tentado beijá-la, de surpresa, durante uma festa em que eu a havia levado. quando ela aceitou a carona, cometi o engano de pensar que aquilo era um encontro, de que éramos um casal. bem, não éramos. se havíamos de ser qualquer coisa, seria um trio, já que ela tratou de deixar claro que o problema era a dani.

e foi assim que me voltei a carlinhos. é claro que eu tinha medo de envolver qualquer homem na jogada, principalmente um jogador experiente quanto carlinhos, mas você tem de entender, eu estava desesperado.

algum tempo depois, nossos planos deram certo. de alguma forma, eu não podia acreditar que aquilo havia funcionado. no entanto, só fui me dar conta alguns dias depois, quando vi ambos, carlinhos e carol, entrando de mãos dadas pela porta do curso. era o casal mais odioso que eu já vira. tratei tudo com normalidade, mas não tenho falado com carlinhos desde então.

o caso é que o plano deu certo. mas não o nosso plano, e sim o do filho duma puta do carlinhos. e carol, pobre coitada, nunca teve a chance de ver o perigo rondando. eu havia tirado sua atenção do verdadeiro predador à sua volta. na verdade, eu a havia colocado em sua mira.

por que nunca cheguei às vias de fato com aquele cuzão de marca maior também conhecido carinhosamente como carlinhos?

oras, porque imagino que, de alguma forma, ele também não tem culpa. utilizou-se das armas e táticas das quais dispunha, e o fez muito bem. não consigo não sentir uma ponta de admiração por alguém assim. isso sem falar no fato de que é impossível não se apaixonar por carol. engraçado, a amo até hoje, embora já tenha aprendido a guardar tal sentimento pra mim.

é, devo ser mesmo isso que você está pensando, o maior perdedor do planeta. pelo menos hoje em dia eu sou rico, futuro presidente de uma empresa de armazenamento e distribuição de cerâmicas venesianas para a fabricação de azulejos e vasos sanitários, com uma renda que chega a duzentos mil reais por ano, enquanto carlinhos está para ser pai aos 23 anos, ainda desempregado e morando com a mãe e carol tenha sido talvez a maior corna da qual nossa faculdade teve notícia nas últimas três décadas.

não odeio o amor, não é sua culpa.

afinal, é como se eu jogasse o jogo, fosse razoavelmente bom nele, mas, de alguma forma, nunca cheguei a ler as regras.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

sobre um final feliz

o amor que me perdoe, mas eu odeio políticas sexuais.

está bem, talvez não deva pedir perdão ao amor em si, mas ao sexo.
e, quem sabe, não deva nem pedir desculpas ao sexo, mas aos relacionamentos humanos.
já dizia o velho bardo: "há uma maré nos assuntos dos homens". realmente o há. e esta "maré", como assim a chamava william shakespeare, são as cretinas das políticas sexuais.

veja o caso de osmar, por exemplo. grande amigo era ele. infelizmente, osmar tinha um problema. seu problema tinha nome. tinha nome, R.G., olhos grandes e profundamente negros, pele clara com pequenas sardas salpicadas pelo nariz e na parte superior das bochechas, cabelos longos e esvoaçantes, daqueles de comercias de shampoo que se vê na televisão, se vestia muito bem, roupas vivas, descoladas e decotadas na medida certa, sorriso tímido mas apaixonante, uma pequena pinta ao lado esquerdo da boca com os dentes tão brancos e alinhados e 1,78 metro de altura.

era 1,78 metro de problema, seu nome era carolina e ela estudava administração na mesma turma que ele. pobre coitado, como haveria osmar de resistir? não teve nem chance! ele ainda ficara tão feliz ao descobrir que tinham algo em comum, um assunto com o qual puxar conversa. ela era - imaginem só, entenderão o problema - a melhor amiga de daniela, a garota com quem ele ficara logo na primeira festa do curso e que estava atrás dele desde então. tudo bem, osmar era um imbecil. estava completamente, perdidamente, desesperadamente apaixonado pela melhor amiga de sua grande admiradora e não via nenhum empecilho nisso.

osmar, meu querido, esquece essa guria. só vai lhe dar dor de cabeça. não convém correr atrás de melhor amiga. você conhece as mulheres melhor que isso. era o que eu dizia. mas ele respondia, confiante, que não. a conquistaria de qualquer forma. estava idioticamente cego. enfim, ele não conhecia as mulheres melhor que isso.

antes que alguma amiga enfurecida venha me acusar de sexismo, permitam-me a defesa. dizia "as mulheres" simplesmente pelo fato de osmar, meu amigo, ser um heterossexual muito bem resolvido. meu problema mesmo sempre foi com as políticas sexuais, sejam elas entre mulheres ou entre homens. agora, se ele não podia ver nem ao menos a encrenca em que se metera, imaginem como reagiria se eu dissesse: "osmar, meu velho. deixe disso. essas políticas sexuais são de foder. e olha que nem é no bom sentido". dá pra ouvir as velhas engrenagens tentando funcionar em meio a tanta ferrugem e teias de aranha?

e lá foi osmar, partir para a ofensiva. na primeira festa, pagou bebidas a carol. na segunda, ofereceu-lhe carona. na terceira, pateticamente, tentou beijá-la.
epa, osmar! que isso?
poxa, é que a gente estava se dando tão bem...
mas, osmar, - imagine aqui uma cara de piedade - você sabe o quanto a dani gosta de ti. e assim carol saiu pulando pela pista de dança, não sem antes dar aquele último olhar de piedade para trás. aquele que fica gravado na mente até o momento em que se fecha os olhos antes de dormir, isso caso consiga-se dormir. caso contrário, fica gravado até o dia seguinte, e acompanha cada momento maravilhoso proporcionado pela ressaca, física e moral.

você, reles mortal, há de imaginar que osmar desistiria, certo? pois devo confessar-lhe que esta possibilidade chegou a cruzar o pensamento de meu intrépido amigo.

ao contrário, osmar e eu bolamos uma complexa estratégia para dobrarmos carol. antes de mais nada, tínhamos de descobrir se ela realmente não ficava com ele por causa de daniela ou se apenas a usava como desculpa para evitar o confronto que viria com o "cara, não quero ficar contigo, mas a cerveja e as caronas podem continuar, viu?". parecíamos duas colegiais, eu sei, cheios de estratégias e planos mirabolantes - entrega aquele bilhetinho pro luquinhas? mas não fala que fui que mandei, hein? hihihi.

políticas sexuais. se não se pode com elas, junte-se e faça proveito.

então eu comecei a ficar amigo de carol, tentar arrancar qualquer pista que fosse sobre suas verdadeiras intenções com osmar. o pobre coitado ficava morto de ansiedade pelos relatórios diários. e aí? ela deixou escapar alguma coisa? não cara, mas acho que estou chegando lá. já passamos os dois primeiros namorados, a perda da virgindade e temos discutido a vez em que ela quase fugiu de casa com o sócio do pai. acredita que o coroa nem ao menos sonha com isso? tá, tá. não quero saber dos namorados antigos. só me avisa quando ela falar alguma coisa de mim.

o tempo passou e ela deixou, finalmente, escapar que até gostava dele. achava-o um cara divertido e, afinal, devia haver algum motivo muito forte para a dani gostar tanto dele, não?
essa era a deixa para passarmos para a fase dois. sim, caro leitor, nosso plano tinha fases. entretanto, esta parte era mais complicada. eu teria de ir para o sacrifício. ora, o que não fazemos pelos amigos, não? minha missão era a de virar um agente-duplo ativo, tentando corromper nosso maior inimigo. neste caso, o inimigo conhecido pela alcunha de daniela, ou, simplesmente, "dani".

ela tinha seu charme, apesar de ser doida de pedra. eu podia me esforçar para fazê-la esquecer o osmar, nem que isso custasse alguns beijinhos. ele era meu amigo, oras. era meu dever cívico pegá-la.

assim, enquanto osmar iniciava uma reaproximação lenta e gradual com carol, eu partia para cima de sua admiradora com tudo o que eu tinha. carreguei livros, passei a usar apenas roupas limpas, perfume importado, sorriso encantador, olhares 43, 44 e até o 45, aquela fatal ajeitada da franja caída por sobre os olhos para trás da orelha dela, com a mão descendo suavemente pela nuca até a parte frontal do pescoço. posso não ter grandes encantos, mas a vida me ensinou algumas manhas.

ela se fez de difícil, a princípio. tinha de fazê-lo e eu não esperava mesmo que fosse coisa fácil. no entanto, a persistência é a mãe de todos os cafajestes e veio a me abençoar. cinco semanas depois, em uma festa em que a banda que se apresentava era a menos afetada pelo álcool do recinto, arranquei-lhe um beijo. de daniela, não da banda, embora quem estava lá naquela noite possa jurar que tudo era possível. ela relutou brevemente, se entregou ao beijo, depois recobrou a consciência, me empurrou e saiu em direção ao banheiro. poderia parecer uma tentativa falha, mas a duração do beijo foi longa o suficiente para atingir seu objetivo. carol estava nos arredores e testemunhou parte da cena.

pronto, agora a guria já vai estar mais receptiva. deve estar confusa e achando que a outra te esqueceu. vê se não faz merda. com esse conselho em mente, osmar partiu mais uma vez determinado. estava determinado, mas não confiante. aquela primeira cagada de tentar beijá-la do nada e a rejeição o haviam abalado profunda e definitivamente. dessa forma, a reaproximação continuava lenta e gradual e, pior, não passava de uma reaproximação.

com isso, continuei em meu papel de agente infiltrado na mente de carol, conversando todos os dias com ela, fazendo propaganda, você sabe, o procedimento padrão. mas o tempo passava e osmar não tomava a iniciativa, não partia para o momento decisivo. pobre infeliz. diversos avisos foram dados. desse jeito, vai perder a guria, moleque. ninguém gosta de tanta parcimônia relacionamental.

fui amaldiçoado com essa minha visão objetiva sobre eventos externos aos meus interesses, mesmo que, àquela altura do campeonato, eu já seguisse meus próprios objetivos. não deu outra, alguém se adiantou e carol não estava mais desimpedida, nem mesmo interessada.

ah, essas políticas sexuais, você tem de adorá-las.

hoje, um ano após tudo aquilo, não tenho mais a mesma relação que tinha com meu querido amigo osmar. não temos relação alguma, aliás. ele, infelizmente, não consegue superar o fato de que estou namorando a guria de seus sonhos. sinto falta dele. tudo bem, talvez nem tanto.

somos muito felizes, carol e eu. claro que dou das minhas escapadelas, mas o que se pode esperar de um relacionamento que já começou em inverdades?




nota do autor:
tema sugerido por bruno volpato, do blog música pra ler e meu colega no curso de jornalismo.
este texto não é auto-biográfico. ao menos a maior parte dele.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

sobre o momento em que me encontrei

voltava para casa, ao fim de tarde, quando eu me encontrei.
não, não no sentido filosófico da expressão, no sentido literal.
eu ia por ali, andando despreocupadamente pelas ruas do meu bairro, concentrando meu olhar ao chão. mas sabe quando você dá aquelas breves olhadas para cima, tentando olhar o rosto das pessoas? então, em uma dessas desviadas de olhar, avistei um rosto muito familiar. devia ter uns 15 anos a mais que eu, barba por fazer, bigode ralo, semblante despreocupado e cansado. não havia como negar; aquele era eu.
fiquei encarando por alguns segundos, tentando desfazer o óbvio nó que havia dado em meus pensamentos, quando algo ainda mais bizarro aconteceu: ele me olhou de volta. e naqueles milésimos de segundo em que nossos olhares se encontraram, minha alma se encheu com a certeza de que eu era um cara legal. assim, de que eu seria um cara legal. melhor dizendo, de que eu serei legal.
eu sei, isso é tudo muito confuso. não consigo nem conjulgar os verbos.
e naquela situação esdrúxula, fiz o que, creio, a maioria faria. travei. não consegui pensar no que fazer, em como reagir, o que falar. e algo parecido deve ter acontecido com ele/comigo, já que eu também não fiz nada.
dessa forma, nos cruzamos respeitosamente e seguimos nossos caminhos. não consigo imaginar para onde eu ia. aliás, não sei nem ao menos se essa é a verdadeira questão. talvez eu devesse me perguntar o que raios ele fazia ali, naquele momento, 15 anos antes de quando ele deveria estar vivendo. deus! lá vou eu novamente me chamando de "ele", quando o fato é que "ele" era eu.
a esta altura você deve estar achando que sou maluco. talvez esteja certo; e talvez neste momento eu esteja mostrando à minha mulher um velho texto, que publiquei na internet 15 anos atrás, sobre o momento em que me encontrei na rua, depois de lhe ter contado a incrível experiência que foi ter cruzado comigo mesmo 15 anos mais novo; e talvez ela, minha mulher, esteja pensando em como sou maluco.
de qualquer forma, se eu não fosse louco, isso tudo certamente contribuiu para tornar-me um pouco mais insano. mas quantas pessoas tiveram a chance de vislumbrar seu futuro?
depois de me encontrar, sei que estou no caminho certo, sei que sou feliz, sei que continuo tranquilo e sei que meu gosto por roupas cairá com o tempo - ou isso, ou no futuro todos andam muito desleixados pela rua.
não sei por que aconteceu comigo. não sei por que mereci esse lapso temporal. não sei nem ao menos se esse acontecimento ajudará a transformar-me naquele sujeito que caminhava tão despreocupado pelas ruas da cidade.
há, no entanto, algo de que tenho certeza: se, em 15 anos, eu tiver estampado em minha cara um olhar tão leve e realizado, esse tempo que nos separa, eu de mim mesmo, será do caralho.
mal vejo a hora.

e agora? como serei em 30 anos?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

sobre as três partes envolvidas

na entrada, ele pensa.
ela me obrigou a vir à tal peça.
eu nem queria, mas tive de vir. sabe como é, um agrado aqui, outro acolá, e se consegue uma semana de sossego. ir ao teatro com ela deve me garantir alguns dias sem lavar a louça.
pessoas empoladas por todos os lados. tenho certeza de que ouvi o casaco de alguma madame rosnando para mim. odeio colocar terno. odeio colocar gravata. odeio, acima de tudo, colocar esses malditos sapatos velhos. tudo bem, é tudo pelo direito de colocar os pés cansados em cima da mesinha de café da sala.
com licença, com licença. desculpe senhor, esses são os nossos lugares. não, veja. bem aqui, no bilhete. o quê? fileira H? oh, perdão. com licença, com licença.
com licença, com licença. finalmente. não sei como a deixo me convencer a vir a essas peças. se eu tivesse que tropeçar em mais alguma barriga, surtaria. não mande eu me calar. estou falando baixo! "shhhh" o quê?! ah, perdão.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!
na coxia, o diretor se desespera.
maldição! tentemos mais uma vez.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!!!
vamos, tente! não é possível que não haja ninguém no público com o maldito celular ligado. vamos, alguma musiquinha do gás, algum funk que seja! pelo menos aquele clássico "atende o telemóvel". de que adiantou todo aquele trabalho de pegar os números dos celulares de todos os que compraram os ingressos para ninguém atender?
e agora? a peça inteira era baseada nessa premissa. sempre tem de haver algum mal-educado que esquece o celular ligado.
ô, minha filha, continua tentando! continua tentando, senão é melhor cancelarmos agora toda essa porcaria!
no bolso, o celular luta para se controlar.
ah, não. agora não. por favor. tinha de ser agora?
toda vez que vamos ao cinema, ao teatro, a algum recital de poesia, esse infeliz esquece de me desligar ou deixar no silencioso, e toda vez alguém liga. ele não aprende nunca? maldito seja! estou cansado de passar vergonha, de ser xingado e vaiado. como se fosse eu o sem educação!
o que posso fazer? oh, deus! mais alguns toques e eu não aguentarei mais. a vontade é muito forte!
não vou, não posso, não quero.
não vou, não quero, não posso.
não posso, não quero, não vou!
ai, mas a natureza é muito forte. fui feito para isso! quem será o desgraçado ligando bem a essa hora? puxa vida, já são 11 horas da noite, isso não é hora para se ligar para alguém. deve ser a amante desse infeliz. sempre ligando nos momentos mais inoportunos. desiste, sua vaca!
não, o telefone é desconhecido. de certo, a oferecida está ligando de algum outro lugar. por que ela não desiste?
daqui a pouco começo a tremer. se isso acontecer, não resistirei mais, gritarei a plenos pulmões! filho-da-mãe, custava ter me desligado? não, não custava!
já sei, mandarei tudo às favas e chutarei minha bateria. isso, resolvo meu próprio problema. a partir de hoje, não dependerei mais desse imbecil que nem consegue seguir as regras básicas da etiqueta.
deixe-me ver, deixe-me ver. isso. aqui. só um chutinho, agora... foi.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

sobre táxis e as gotas da chuva


para escrever ouvindo: Stars - your ex-lover is dead



foi através do amigo de um amigo que eu encontrei marina pela segunda vez. estávamos na festa de bodas de ouro de um casal de 70 anos ou algo do gênero. as mesas eram cobertas por toalhas de linho branco, com pequenos vasos repletos de lírios ao centro, copos de cristal e talheres de prata. as paredes eram enfeitadas por faixas prateadas e douradas, e a banda tocava sucessos dos anos 50 e 60. era um salão de festas realmente muito bonito.
quando apresentados pelo jovem de boas intenções que não sabia que já nos conhecíamos, rimos brevemente. logo em seguida, instalou-se um silêncio, daqueles constrangedores, pelo que pode ter sido três minutos ou 13 anos. enfim, ela disse algo que teria sido considerado um clichê, caso ignorássemos o tempo que havíamos passado juntos:
- é, eu acho que já nos encontramos antes, não?
pude perceber pelo tom de sua voz que ela sinceramente não se lembrava de mim. quer dizer, pode ser que seu inconsciente soubesse quem eu era, mas já é sabido que a distância entre consciência e aquilo que habita as profundezas de nossa mente é enorme.
talvez essa seja a hora na qual eu devesse contar como nos conhecemos, nos apaixonamos e nos separamos 20 anos antes. fazíamos faculdade juntos, marina e eu. jornalismo. fomos amigos por um tempo, até uma festa em que os dois, bêbados, percebemos que pertencíamos a sexos opostos. alguns meses depois, fomos morar juntos, contrariando uma amiga que dividia o apartamento com ela e dois sujeitos que viviam comigo. com o fim do contrato de 12 meses, acabou também nosso relacionamento. essas coisas acontecem, o que se pode fazer?
enquanto eu lembrava dessa história, percebi que a hora avançava e eu tinha de ir embora. do lado de fora a chuva caía impiedosamente. ao expressar minha necessidade de partir, ela sugeriu que dividíssemos um táxi e eu, por preferir não me molhar, aceitei prontamente.
atravessávamos uma ponte e percebi que ela parecia triste. não trocava mais que algumas poucas palavras comigo. não podia imaginar que, naquele momento, ela tentava se lembrar do meu nome.
a separação foi amigável. concordávamos que não havia maneira de continuarmos juntos. namoramos por cerca de um ano, o qual eu passara tentando entendê-la profundamente em tempo integral. não adiantava, eu não conseguia penetrar suas defesas, ou assim pensava. eu era muito jovem, tinha 22 anos, como podia ser tão arrogante a ponto de querer conhecer todos os seus segredos? saí triste da relação, mas não magoado. ela sim, ficou um tanto deprimida. por isso acabei achando que eu era o maduro da relação, aquele que sabia lidar com relacionamentos.
hoje vejo todos os erros cometidos. não era ela quem se distanciava, não era ela quem tinha medo, não era por culpa dela que eu não conseguia conhecê-la de verdade. ela havia escolhido sentir, amar, desejar, e eu, coitado, nem tive a chance de fazer tal escolha. nunca a amei realmente. minha tristeza depois do fim não era pelo fim em si, mas pela minha incapacidade de sentir. foi por me amar tanto que ela acabou brevemente deprimida. sua depressão era um cartão-postal dos sonhos que tivemos juntos, um recado do amor verdadeiro.
talvez se tivesse tido a coragem de viver tudo aquilo eu não estivesse olhando para trás. marina era o que eu mais queria, e lhe entreguei o que entreguei. espero que não se arrependa de ter me conhecido. espero que não se arrependa de ter terminado. espero que não se arrependa de não haver o que salvar.
pagamos o taxista e subimos apressadamente para o meu apartamento, pois a chuva continuava a cair forte. no dia seguinte, em minha cama, ela ainda não se lembrava de nós dois. talvez assim fosse melhor. eu era um homem melhor, um ser humano melhor. podia ser que eu finalmente conseguisse lidar com o que eu sempre quis.
tínhamos muito tempo para nos conhecermos, para reinventarmos nossa história.
as enormes gotas da tempestade escorriam pela minha janela, desenhando sombras na face adormecida de marina.
naquele momento, eu não sentia muito por não haver o que salvar.

sábado, 15 de dezembro de 2007

sobre dias chuvosos

e foi num absurdo, numa topada, numa ilusão, num milésimo de segundo antes de conseguir dormir que João se lembrou de Thaís. haviam namorado por dois anos. ele tinha 18, ela era apenas alguns meses mais jovem.
agora, no entanto, já habitava a casa dos 40 anos. sustentava aquela barriga típica dos quarentões que abandonaram qualquer tipo de esporte há mais de dez anos. não era gordo, mas tinha uma senhora barriga. pelo menos era o que lhe falava sua mulher.
no dia seguinte, após um café-da-manhã calado, foi trabalhar. procurou se concentrar nos seus serviços, mas flashs de sua vida com Thaís lhe cruzavam a mente, dançando pelo monitor e indo pousar sobre a impressora. era como se estivesse imprimindo seu passado, lentamente, preparando-o para entregá-lo a seu editor. era como se uma obra do acaso pudesse estampá-lo na primeira página do jornal para o qual trabalhava. não é preciso dizer, foi um dia de trabalho muito improdutivo. pelo menos profissionalmente falando, pois há colegas que poderiam jurar ter visto João rindo sozinho defronte ao computador, de pé na sala do café, na fila do restaurante.
deitado na cama ao lado de sua mulher, fingia estar dormindo, mas já se decidira. daria um jeito de arrumar o telefone de Thaís.
através de Marcon, um amigo próximo afastado desde o início de seu casamento, conseguiu notícias de Thaís. não eram muitas, provavelmente solteira, trabalhando com publicidade, e um cartão. pegou o telefone. discou. uma suave voz feminina atendeu do outro lado da linha, mostrando que já era muito tarde para voltar atrás.

encontraram-se num bar que costumavam frequentar quando ainda eram um casal. ela certamente se apresentava mais velha, mas ainda tinha aquela beleza que João um dia jurara ser a maior do mundo, sussurando ao ouvido da namorada. o quê de menina desaparecera, dando lugar a uma aparente experiência de vida. divorciada, já acumulava sua própria bagagem.
após atender à ligação, Thaís tinha demorado certo tempo para se lembrar do antigo parceiro. contudo, logo aceitou o reencontro.
durante o namoro, haviam se amado muito. no começo, pelo menos. sua assim chamada "ignorância" aborrecia João, mas era contraposta ao seu gênio forte. tal gênio viria a provocar inúmeras discussões ao longo do relacionamento, principalmente quando confrontado pelo jeito leve e irresponsável deste, mas era exatamente o que João mais amava, mesmo sem saber. ironicamente, 18 anos depois do término do namoro, ele havia se casado com uma mulher muito dócil.
a conversa se desenrolava com desenvoltura. eram dois estranhos com uma forte intimidade que só se adquire com o tempo. não falavam sobre as antigas desavenças, pois os anos haviam se encarregado delas. na verdade, discutiam como era possível que tivessem se afastado tanto. ele mesmo lutava para compreender o que acontecera. teria a vida se encarregado de afastá-los? ou foram ambos que, após a útima grande separação, haviam construído muros tão altos entre si que a distância se tornara intransponível?
as horas passavam e João se entorpecia com a presença dela e com mais um copo de cerveja. se lembrava dos dias que passavam em sua cama, abraçados, confessando sentimentos que nunca mais seriam compartilhados com ninguém, dos filmes vistos no sofá de seu antigo apartamento no jardins, com os pés e as pernas entrelaçados para se manterem protegidos contra o frio de mais um dia chuvoso de são paulo.
e foi num absurdo, numa topada, numa ilusão que então entendeu. havia sido ele o responsável pelo distanciamento entre os dois. ele havia construído o tal muro intransponível. ele ainda a amava.
ele ainda a amava quando terminara o namoro. passava por uma turbulência em sua vida como nunca havia passado antes e a simples idéia de tê-la ao seu lado já lhe sustentava. no entanto, fôra obrigado a terminar o relacionamento de pouco mais de dois anos. em seguida, tentara seguir adiante, empurrando com a barriga, mas ambos frequentavam o mesmo círculo de amizades e seguir com a vida parecia difícil demais. assim, começou a levantar uma barreira, tijolo a tijolo, dia após dia, até que, mesmo quando sentados na mesma mesa de bar, sua presença não passava de uma voz tão abafada por concreto e cimento que ele mal podia distinguir.
por muito tempo, considerou-se vitorioso. havia vencido uma força ímpar em sua vida. agora, cerca de 20 anos após o rompimento, decidiu levantar bandeira branca para si mesmo, permitindo-se ser feliz, admitindo a derrota. nunca havia sido capaz de deixar de amá-la.
sentou-se mais próximo a ela, sentindo um perfume que não era o mesmo que sentia quando eram jovens, mas não menos agradável. tirou o cabelo de sua face como costumava fazer. percebeu os pêlos de seu braço se eriçando. enfim, decidiu mentir ao responder a pergunta que ela lhe fizera sobre ser casado.
procurou pelo garçom e pediu a conta.

sua mulher reclamou quando João se debruçou por cima dela, acordando-a. cheirando a cerveja, ele obstruiu seus protestos com um beijo suave. finalmente se dando conta de que poderia passar o resto de sua vida com aquela mulher, João a amou como nunca.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

sobre decepções e culpas

no outro dia, cruzei com essa garota que eu costumava sair às vezes, no meio da Consolação.
- olá.
- alô. tudo certinho?
- opa, tudo em cima. e você?
- tranqüilo, tranqüilo...
...
- mas então, como andam as novidades? - disse eu, tentando quebrar aquele clima estranho.
- ah, quase tudo na mesma. puxa, quanto tempo, né?
- pois é. a gente diz que vai manter o contato, mas...
- ah! você não adivinha quem tá namorando...
- não adivinho. quem?
- tenta adivinhar, vai.
- poxa, mas eu não faço idéia!
- uma dica: é alguém que você já gostou muito.
- mamãe! não, eu ainda gosto muito de mamãe.
- não, bobo! alguém com quem você já teve noites maravilhosas...
- xiii, daí você complica minha vida.
- ih, "don juan". até parece que você já teve muitos casos do tipo.
- mas tive, viu. ah, as noites de WAR com o tio carlos. sabe, outro dia ele teve um problema de apendicite. coisa braba.
- deixa de ser tonto! sou eu, tolinho. tô namorando! dois meses, já.
- ahn... - ela já tinha me perdido. nessa hora, eu lutava pra lembrar o que havia acontecido com tio carlos e seu apêndice.
- ele é ótimo, eu o conheci no ônibus, se é que dá pra imaginar uma coisa dessas. foi ótimo. engraçado como, quando se menos espera, pode se conhecer alguém ótimo. - ela tinha a mania de ficar repetindo "ótimo". isso me deixava louco desde o tempo em que éramos um casal.
- puxa vida, não diga. - respostas automáticas! o que seria da vida sem as respostas automáticas? diabos, como andaria o tio carlos? precisava ligar pra ele, aliás...
- digo sim! ai, como a vida pode ser ótima. acho que esse é pra casar. não é santo, mas também não é que nem você, né? lembra? você já tinha saído com metade da turma antes de me chamar pra um "cineminha". seu cineminha era famoso. compravam-se as balas no caixa do cinema e íamos acabar de comê-las na tua casa, na manhã seguinte.
- é verdade, é verdade. - teria ele ficado internado no hospital? meu deus, como ficaram meus primos com a notícia da doença? primeira coisa a fazer quando chegar em casa: ligar pra tia édna e saber como andam as coisas. tadinha, ela também já não era mais nenhuma mocinha.
- enfim, o nome dele é daniel, é arquiteto. tem alguns prédios na Paulista que são dele, sabia? ele tá trabalhando pra prefeitura, ultimamente...
- desculpa, mas eu realmente tenho que ir andando...
- ah, tá. desculpa eu, você deve ter mais coisas pra fazer, né? que você anda fazendo da vida? ainda servindo mesas naquele restaurante na Pompéia? - a decepção na voz dela era evidente. ou percebeu que eu não havia ouvido uma só palavra do que dissera ou então achava que ficar falando do namorado não surtira o efeito desejado. em ambos os casos, ela estava certa.
- não, eu... olha, desculpa mesmo. tenho que ir. mas viu, vamos marcar alguma coisa, reunir a galera. daí você pode me contar as novidades com mais calma, tá?
- tá certo, então. se cuida.
- se cuida.
ao chegar em casa, peguei o telefone e liguei para a família toda. todos estavam bem, com excessão do meu primo marcos, que havia sofrido leves lesões ao dar de cara com um poste de concreto no meio da rua. dizem que havia sido instalado ali para introduzir um efeito de humor em alguma história, sei lá. nada sério, no entanto. tio carlos estava melhor da apendicite havia semanas. me senti mais leve e prometi a mim mesmo nunca mais esquecer das pessoas que amo.
só restava uma dúvida: o que diabos teria aquela garota falado no meio da rua? algo sobre um arquiteto paulista de ônibus, talvez...
bah, deixa pra lá.