segunda-feira, 21 de março de 2011
sobre a derrota do amor cinematográfico
existe algo nas salas de cinema que as tornaram ideais para essas situações, esses primeiros encontros, ficadas, amassos, trocações de saliva. o primeiro fator é que evita a presunção que é assumir, logo assim de cara, que ambos realmente estão interessados um no outro. pode ser apenas que os dois realmente curtam muito o cinema experimental iraniano, vai saber. o segundo é o escuro que oferece uma privacidade psicológica considerável (isso porque, convenhamos, em uma sala lotada todo mundo sabe o que você, com a guria ao lado e olhar ansioso, foi fazer ali). o terceiro, e mais determinante, são aqueles breves segundos de silêncio enquanto aparecem os créditos das produtoras e distribuidoras, quando a luz da tela é suficiente para que você olhe para o lado e, com um olhar, determine se o bote será infalível.
infelizmente os tempos já não são mais os mesmos e os percalços cada vez maiores. quase não se encontra mais aquelas salas de rua com aqueles carrinhos de pipoca em frente, aqueles filmes chatérrimos europeus que te obrigam, durante a sessão, a achar algo melhor para fazer. não, hoje você é obrigado a se dirigir a um shopping abarrotado de gente, com crianças correndo pelos corredores pedindo por mais balas, chocolates ou manteiga, acompanhadas de seus pais com profundas olheiras e esperando que o filme seja movimentado o suficiente para permitir uma soneca. não me entenda mal, não tenho tantos problemas assim em assistir a um longa hollywoodiano cheio de explosões e efeitos especiais nesses lugares. nada contra, mas vale lembrar que a última das intenções, neste caso debatido agora, é realmente acompanhar qualquer enredo. por fim, o desafio final. qual seria a hora exata em que você levanta o braço entre as duas cadeiras e deixa claro, finalmente, que dali ela não sairá ilesa?
apesar de tudo isso, ainda me mantenho um fiel amante cinematográfico. talvez não consiga largar destes velhos hábitos, e devo dizer que eles me têm sido de grande valia até os dias de hoje. uma velha rotina que apresenta números ridicularmente pequenos de falha, alguns de execução, outros de alvo. por estes motivos que persisto, e eis que, há dois dias atrás, o convite para um filme qualquer foi aceitado.
nos encontramos na praça de alimentação e fomos diretamente à fila do cinema, onde decidiríamos qual o filme com menor probabilidade de lotação e atração de pessoas abaixo de 14 anos. os 20 minutos habituais de conversa jogada fora, comentando os principais acontecimentos da atualidade, foram cumpridos com perfeição. logo os trailers já haviam terminado, e eu colocava uma pastilha de menta na boca, daquelas compradas com um único objetivo. nessa hora, abortar a missão era algo impensável. estiquei o braço por trás de seus ombros como quem não quer nada, o movimento mais antigo do manual, e ela havia aceitado sem protesto. com a luz diminuta da tela, me virei lentamente para encará-la e... desabei a rir. aqueles óculos, aqueles malditos óculos!
erro crasso, de amador. nunca haveria de imaginar o poder que a cara abobada formada por aqueles infelizes óculos 3-D teriam sobre mim. não pude me conter. ela encarava a tela de forma um tanto apaixonada, ansiosa, esperando meu próximo ato, e tudo que consegui fazer foi desatinar a rir sem controle, quase cuspindo a bala em sua cara e rezando a deus que nenhum perdigoto tivesse atingido-lhe a face.
assistimos o filme até o fim. 134 minutos de tortura interminável até que eu pudesse sair correndo dali. no final, ao deixá-la em casa, ela ainda tentou fazer piada. "esquisitos aqueles óculos, né? você até que não ficou tão bobo com eles...". eu só pensava em dar o fora. havia sido derrotado pelo cinema estereoscópico. maldito seja james cameron.
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agradecimentos à querida julia ayres vieira, pelo debate que originou a idéia do post e alguns de seus principais argumentos.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
sobre os amores dos outros
- eu te amo, marina.
a declaração a pega despreparada.
- sério?
- sério, pombas! quem inventaria algo assim?
- ah, querias que eu dissesse o que? puta surpresa, inferno!
- tá, tá! desculpa. é que eu precisava tirar isso do peito o quanto antes e... - ele ouve o burulho do chuveiro ligado e finalmente repara que ela está de roupão, mas com os cabelos secos. - putz! desculpa, mesmo. não queria invadir desse jeito e interromper teu banho, mas...
- agora já foi! desde quando tás apaixonado por mim?
- apaixonado, não! eu te amo! pelo o que a carlinha disse, há uns três meses!
- foi quando a gente ficou a primeira vez, né?... - ela nota que há algo errado - peraí. "pelo o que a carlinha disse"?...
- é! mas o joca começou a dizer isso há dois anos atrás. lembra como eu vivia grudado em ti e tals?
- lembro... mas calma. desde quando, afinal?
- ah, disso eu não tenho certeza, não! sei só o que me disseram. você conhece o joca. quando ele mete algo na cabeça, fica martelando o tempo todo.
- então deixa eu ver se entendi. você me ama, mas não sabe desde quando. sabe apenas o que a carlinha e o joca dizem?
- isso aí, boneca. no começo achei que era viagem deles, mas eles repetiram tanto que eu pensei "acho que não custa nada tentar, né?". agora vem cá que temos tempo pra recuperar até o casório.
- casório?! que mané 'ório?!
- ah, nós temos que fazer tudo direitinho, né. namora uns quatro meses, noiva por um ano, casa e, depois de um tempo, tem os dois filhotes!
- que porra que tu tá falando, daniel??
- porra, não! é tudo nos conformes. mamãe sempre disse que...
- tava demorando. agora é tua mãe que quer que a gente case.
- não exatamente a gente, eu e você. mas ela sempre pregou que tudo deve ser feito com ordem e planejamento. afinal... - silêncio. ele nota que o chuveiro foi desligado - tem alguém aqui contigo?
- ...
- dani, meu filho! que diabos tás fazendo aqui, moleque? - pergunta uma cabeça masculina saindo pela fresta da porta do banheiro.
- joca?... - ele procura por uma resposta vinda de marina que, a essa altura, já está jogada no sofá, declarando a derrota.
- olha, daniel. desculpa, mas tu escolheu a hora errada de declarar amores. eu to apaixonada pelo joaquim.
-ahá! sabia!!! eu sempre te disse que eras apaixonada pelo joca e você vinha com uma história que era ciúme e... ah, caralho. eu sempre te disse, não é?
- isso aí, espertinho. eu cansei de afirmar que era coisa da tua cabeça, mas tu insistiu tanto que... "achei que devia tentar, né?". agora dá o fora daqui. como a minha mãe sempre dizia: dois é bom, três é putaria.
terça-feira, 23 de março de 2010
sobre mulheres e meninas
o problema é que eu tinha um problema, sabe? e o problema, dessa vez, era que eu não sabia como chegar em alguém como ela.
na verdade, o problema verdadeiro era aquele que acomete nove entre dez dos homens de minha idade: seria ela mulher, ou seria ela garota?
creio ter atraído a simpatia da maior parte dos leitores masculinos deste texto. parte essa que sabe o que é não saber como reagir às reações do alvo - neste caso, alguém por volta de seus vinte anos. como saber se devemos desenvolver uma estratégia para quebrar as defesas de uma mulher ou de uma adolescente? que atire a primeira pedra quem souber.
entramos, pois, em terreno nunca dantes desvendado. singramos sitios estranhos.
tudo bem, posso concordar que tudo que remete ao sexo feminino seja algo desconhecido àqueles que buscaram singrar mares não navegados - pois há de concordar, aquele que tenha o mínimo de sabedoria, que não há certeza no eterno reino do cortejo.
sim, uso palavras antigas e esquecidas. também me desventuro por correntes nas quais muitos aventureiros jamais retornaram. mas ouso dizer que não me importo com tais coisas.
o que me importa é que eu mandei. mandei mesmo. enviei uma mensagem de texto à qual temo jamais receber resposta.
uma tempestade em copo d'água, poderia o mais destemido me esbravejar? concordo. mas peço encarecidamente que, aquele que souber todas as respostas, por favor, mande-me um e-mail. um scrap, que seja. adentramos agora no reino do xaveco moderno. o cortejo online. que me adicione no facebook quem tiver as respostas. e que me esclareça: seriam elas meninas ou mulheres?
em breve: o guia do xavecador online.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sobre o verdadeiro romântico
o verdadeiro romântico, não se sabe se por cansaço ou se por estar verdadeiramente interessado, finalmente conheceu alguém e se comprometeu.
o verdadeiro romântico lhe dava flores diariamente, a levava para jantar em lugares dos mais caros e finos, dizia que a amava incondicionalmente, e que ficariam juntos para sempre.
o verdadeiro romântico realmente acreditava em tudo o que dizia. infelizmente, o relacionamento não durou muito tempo. ele ainda amava a perfeição inexistente de sua companheira e, quando a própria, em toda a sua realidade de carne e osso, não conseguiu manter a ilusão, o namoro acabou.
o verdadeiro romântico, no entanto, não se deixou abater por esse contratempo e logo voltou à luta. se envolveu com uma, duas, três, vinte mulheres, algumas simultaneamente. sua gana por encontrar aquele ideal feminino que tivera em mente durante toda a sua adolescência só fazia aumentar e, com isso, acabava por anuviar alguns de seus princípios éticos. não era sua culpa, não podia sê-lo.
o verdadeiro romântico, assim, amava profunda e eternamente todas as mulheres com que se relacionava, que já havia se envolvido, que ainda iria conhecer. talvez fosse por esse motivo que era virtualmente irresistível à maioria da população feminina. enquanto estivesse com uma mulher, ele era todo e completamente seu, apaixonado, devotado. bem, pelo menos até a próxima.
o verdadeiro romântico percebeu esse seu poder. entendeu que sua condição era um verdadeiro afrodisíaco sobre todas as mulheres. como não podia deixar de ser, ele então começou a se aproveitar conscientemente disso. antes que alguém o acuse de insensível, vale lembrar que ele fazia isso não por maldade, mas por um senso próprio de justiça. durante tantos anos, fora um refém da perfeição feminina e, agora, finalmente tinha meios para equilibrar a balança.
o verdadeiro romântico não se continha mais. desejava e possuía todas as mulheres que cruzavam seu caminho e elas não pareciam se importar muito. algumas reclamavam, outras exigiam exclusividade, poucas batiam o pé e brigavam por seu amor.
finalmente, a verdade caiu como uma pedra sobre sua cabeça. depois de tanto tempo, de tanta idealização e amor, o verdadeiro romântico era um verdadeiro canalha.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
sobre amor de verdade
"hello, is it me you're looking for?
I can see it in your eyes
I can see it in your smile
you're all I ever wanted, and my arms are open wide
'cause you know just what to say
and you know just what to do
and I want to tell you so much, I love you..."
em outro apartamento, um filme termina e o aparelho de dvd é desligado. ela tem estado estranha a semana inteira; ele tenta começar uma conversa:
- e aí, gostou?
- é... não é mal, mas...
- pô, e a parte que eles tão no deserto, e aquele robozão sai debaixo da areia e começa a atirar...
- a gente precisa terminar.
-...pra todo lado e...? - ele é pego de surpresa. - como assim "terminar"?
- você sabe. eu sigo minha vida, você segue a sua.
- mas, assim, do nada?
- não. você sabe que a gente tem andado com problemas há meses... você com essa sua obcessão imbecil por robôs gigantes, eu com toda aquela merda no trabalho...
- tá, mas logo depois de transformers? você podia ter me preparado um pouquinho. não se muda de um estado de extrema felicidade depois de assistir um puta filme desses pra uma separação, porra. é tipo um choque térmico, saca? tem gente que morre disso.
- tá, desculpa. caguei. mas isso não muda o fato que a gente precisa terminar.
- eu sei que a gente tem enfrentado uns problemas, mas o que te fez decidir isso, assim, logo hoje?
- você me sufoca, cara.
- como assim?? a gente não se vê há uma semana!
- eu sei. e de repente você tem porque tem que me ver. puta saco...
- caralho, só achei que hoje seria legal da gente se ver. afinal, é só o aniversário de um ano de namoro...
- que brega isso!... te falei que você precisa relaxar mais. não ligo pra essas coisas.
- como assim não liga? um ano, porra! 365 dias... isso é, tipo, um vinte-avo das nossas vidas!
- nossa! quanto, hein??
- deixa de ser besta, você entendeu.
- foda-se. to indo embora.
- não, peraí!... - ele se sente mal, doente, fraco.
ela também, mas é porque se levantou rápido demais. - você realmente achou que nós íamos ficar juntos pra sempre?
- não, mas... - a pergunta o deixa sem reação. obviamente, ele não tinha pensado nisso. - ...mas também não pensei que íamos terminar hoje. hoje, e logo depois do primeiro filme!
ela, que já ia enfiando seu maço de cigarros na bolsa, pára. - por que? quantos filmes cê pegou?
ele sente que tem um trunfo. algo com o qual ela não contava. - tem mais três aqui. um godard, um almodóvar e um fellini.
- tudo bem. não preciso ir embora agora. mas assim que esses três terminarem, a gente segue com nossas vidas. cada um pra um lado.
- cada um pra um lado. certo. cê viu que vai sair transformers 2?
se a televisão estivesse desligada, eles poderiam ouvir as sábias palavras que vinham de um rádio qualquer:
"...hello, I've just got to let you know
'cause I wonder where you are
and I wonder what you do
are you somewhere feeling lonely, or is someone loving you?
tell me how to win your heart
for I haven't got a clue
but let me start by saying, I love you..."
lionel richie; esse sim sabe o que é amor de verdade.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
sobre o jogo
sempre acreditei no amor. no amor e nessas outras coisas bonitinhas e coloridas que se mostram nos filmes americanos de mulherzinha e nas novelas brasileiras, não mais tão de mulherzinha assim.
minha vida era boa, não tinha muito do que reclamar. o dinheiro ficava curto no final do mês, meus sanduíches ficavam cada vez mais preguiçosos e a poeira se acumulava nos cantos da minha casa, mas eu vivia como queria, quando queria, da forma como queria.
eu estava na faculdade, bicho. eu estava morando sozinho, bem longe de casa. tinha a rotina que sempre desejei. fazia meus próprios horários. chegava bêbado altas horas da madrugada sem ninguém me encher o saco a respeito. faltava nas aulas sem peso na consciência nem ter que inventar desculpas. levava quem eu quisesse para "passar a noite" e não tinha que me preocupar com a cara de desaprovação na mesa de jantar no dia seguinte.
e é óbvio que eu tinha de conhecê-la. era a guria mais linda a apaixonante que eu já tinha visto. caí de quatro, literalmente. não havia outra explicação. eu estava perdidamente, loucamente, idioticamente apaixonado pela carol, uma colega da faculdade que eu cursava.
porra, tive das minhas experiências no passado, me apaixonei, quebrei a cara, traí, me fodi, segui em frente e, de verdade, sempre gostei de tudo isso. o problema não era o "estar apaixonado" era mais o "por quem".
é, eu caguei no saco mesmo, mas como eu podia imaginar que pegar a dani, moreninha que me dava mole desde o primeiro dia de aula podia foder minha vida de tal maneira? como eu poderia imaginar que ela era a melhor amiga da mulher da minha vida?
enfim, eu não podia. mas falta de imaginação nunca é justificativa nessas coisas de relações.
por ter ficado com a dani eu estava interditado para tentar qualquer coisa com a carol. está certo, talvez não qualquer coisa, mas algo sério, significativo, duradouro.
como passar por essas barreiras sociologicamente naturais? a resposta me causou mais problemas do que a própria pergunta.
eu, osmar de oliveira netto, gênio, fui pedir conselhos com meu chegado, meu parceiro, meu melhor amigo carlos mangioli, também chamado carinhosamente de carlinhos.
malditas ligações que acreditamos serem eternas e fiéis.
carlinhos saberia o que fazer. era feio que doía, mas tinha jeito com as mulheres, fazer o quê. estava sempre acompanhado por alguns dos melhores exemplares femininos, onde quer que fôssemos. se havia alguém que poderia me ajudar, se apiedar desta pobre alma, colocar-se no meu lugar, seria ele. e não é que ele aprendeu rápido como se colocar no meu lugar? calma, estou colocando o carro na frente dos bois, aqui.
ele logo se debruçou sobre meu caso e, juntos, bolamos diversos planos e estratégias para contornar a situação. carlinhos se impacientava com meu jeito, sempre racionalizando demais as coisas, falava que eu parecia uma colegial, mas eu sou assim, e esse meu jeito vinha funcionando perfeitamente até então.
infelizmente, eu talvez já tivesse cometido um erro grande demais.
explico: alguns dias antes, eu havia me aproximado da carol, iniciado uma relação. oferecia a ela todo o meu encanto e carisma, em troca apenas de estar perto dela, esperando que mais cedo ou mais tarde ela me notasse, você sabe, como homem, não só como amigo.
tudo bem, eu sou um tanto piegas, confesso. dei até flores à guria. mas o erro não foi esse. na verdade, ela parecia até gostar disso. o erro foi ter tentado beijá-la, de surpresa, durante uma festa em que eu a havia levado. quando ela aceitou a carona, cometi o engano de pensar que aquilo era um encontro, de que éramos um casal. bem, não éramos. se havíamos de ser qualquer coisa, seria um trio, já que ela tratou de deixar claro que o problema era a dani.
e foi assim que me voltei a carlinhos. é claro que eu tinha medo de envolver qualquer homem na jogada, principalmente um jogador experiente quanto carlinhos, mas você tem de entender, eu estava desesperado.
algum tempo depois, nossos planos deram certo. de alguma forma, eu não podia acreditar que aquilo havia funcionado. no entanto, só fui me dar conta alguns dias depois, quando vi ambos, carlinhos e carol, entrando de mãos dadas pela porta do curso. era o casal mais odioso que eu já vira. tratei tudo com normalidade, mas não tenho falado com carlinhos desde então.
o caso é que o plano deu certo. mas não o nosso plano, e sim o do filho duma puta do carlinhos. e carol, pobre coitada, nunca teve a chance de ver o perigo rondando. eu havia tirado sua atenção do verdadeiro predador à sua volta. na verdade, eu a havia colocado em sua mira.
por que nunca cheguei às vias de fato com aquele cuzão de marca maior também conhecido carinhosamente como carlinhos?
oras, porque imagino que, de alguma forma, ele também não tem culpa. utilizou-se das armas e táticas das quais dispunha, e o fez muito bem. não consigo não sentir uma ponta de admiração por alguém assim. isso sem falar no fato de que é impossível não se apaixonar por carol. engraçado, a amo até hoje, embora já tenha aprendido a guardar tal sentimento pra mim.
é, devo ser mesmo isso que você está pensando, o maior perdedor do planeta. pelo menos hoje em dia eu sou rico, futuro presidente de uma empresa de armazenamento e distribuição de cerâmicas venesianas para a fabricação de azulejos e vasos sanitários, com uma renda que chega a duzentos mil reais por ano, enquanto carlinhos está para ser pai aos 23 anos, ainda desempregado e morando com a mãe e carol tenha sido talvez a maior corna da qual nossa faculdade teve notícia nas últimas três décadas.
não odeio o amor, não é sua culpa.
afinal, é como se eu jogasse o jogo, fosse razoavelmente bom nele, mas, de alguma forma, nunca cheguei a ler as regras.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
sobre um final feliz
está bem, talvez não deva pedir perdão ao amor em si, mas ao sexo.
e, quem sabe, não deva nem pedir desculpas ao sexo, mas aos relacionamentos humanos.
já dizia o velho bardo: "há uma maré nos assuntos dos homens". realmente o há. e esta "maré", como assim a chamava william shakespeare, são as cretinas das políticas sexuais.
veja o caso de osmar, por exemplo. grande amigo era ele. infelizmente, osmar tinha um problema. seu problema tinha nome. tinha nome, R.G., olhos grandes e profundamente negros, pele clara com pequenas sardas salpicadas pelo nariz e na parte superior das bochechas, cabelos longos e esvoaçantes, daqueles de comercias de shampoo que se vê na televisão, se vestia muito bem, roupas vivas, descoladas e decotadas na medida certa, sorriso tímido mas apaixonante, uma pequena pinta ao lado esquerdo da boca com os dentes tão brancos e alinhados e 1,78 metro de altura.
era 1,78 metro de problema, seu nome era carolina e ela estudava administração na mesma turma que ele. pobre coitado, como haveria osmar de resistir? não teve nem chance! ele ainda ficara tão feliz ao descobrir que tinham algo em comum, um assunto com o qual puxar conversa. ela era - imaginem só, entenderão o problema - a melhor amiga de daniela, a garota com quem ele ficara logo na primeira festa do curso e que estava atrás dele desde então. tudo bem, osmar era um imbecil. estava completamente, perdidamente, desesperadamente apaixonado pela melhor amiga de sua grande admiradora e não via nenhum empecilho nisso.
osmar, meu querido, esquece essa guria. só vai lhe dar dor de cabeça. não convém correr atrás de melhor amiga. você conhece as mulheres melhor que isso. era o que eu dizia. mas ele respondia, confiante, que não. a conquistaria de qualquer forma. estava idioticamente cego. enfim, ele não conhecia as mulheres melhor que isso.
antes que alguma amiga enfurecida venha me acusar de sexismo, permitam-me a defesa. dizia "as mulheres" simplesmente pelo fato de osmar, meu amigo, ser um heterossexual muito bem resolvido. meu problema mesmo sempre foi com as políticas sexuais, sejam elas entre mulheres ou entre homens. agora, se ele não podia ver nem ao menos a encrenca em que se metera, imaginem como reagiria se eu dissesse: "osmar, meu velho. deixe disso. essas políticas sexuais são de foder. e olha que nem é no bom sentido". dá pra ouvir as velhas engrenagens tentando funcionar em meio a tanta ferrugem e teias de aranha?
e lá foi osmar, partir para a ofensiva. na primeira festa, pagou bebidas a carol. na segunda, ofereceu-lhe carona. na terceira, pateticamente, tentou beijá-la.
epa, osmar! que isso?
poxa, é que a gente estava se dando tão bem...
mas, osmar, - imagine aqui uma cara de piedade - você sabe o quanto a dani gosta de ti. e assim carol saiu pulando pela pista de dança, não sem antes dar aquele último olhar de piedade para trás. aquele que fica gravado na mente até o momento em que se fecha os olhos antes de dormir, isso caso consiga-se dormir. caso contrário, fica gravado até o dia seguinte, e acompanha cada momento maravilhoso proporcionado pela ressaca, física e moral.
você, reles mortal, há de imaginar que osmar desistiria, certo? pois devo confessar-lhe que esta possibilidade chegou a cruzar o pensamento de meu intrépido amigo.
ao contrário, osmar e eu bolamos uma complexa estratégia para dobrarmos carol. antes de mais nada, tínhamos de descobrir se ela realmente não ficava com ele por causa de daniela ou se apenas a usava como desculpa para evitar o confronto que viria com o "cara, não quero ficar contigo, mas a cerveja e as caronas podem continuar, viu?". parecíamos duas colegiais, eu sei, cheios de estratégias e planos mirabolantes - entrega aquele bilhetinho pro luquinhas? mas não fala que fui que mandei, hein? hihihi.
políticas sexuais. se não se pode com elas, junte-se e faça proveito.
então eu comecei a ficar amigo de carol, tentar arrancar qualquer pista que fosse sobre suas verdadeiras intenções com osmar. o pobre coitado ficava morto de ansiedade pelos relatórios diários. e aí? ela deixou escapar alguma coisa? não cara, mas acho que estou chegando lá. já passamos os dois primeiros namorados, a perda da virgindade e temos discutido a vez em que ela quase fugiu de casa com o sócio do pai. acredita que o coroa nem ao menos sonha com isso? tá, tá. não quero saber dos namorados antigos. só me avisa quando ela falar alguma coisa de mim.
o tempo passou e ela deixou, finalmente, escapar que até gostava dele. achava-o um cara divertido e, afinal, devia haver algum motivo muito forte para a dani gostar tanto dele, não?
essa era a deixa para passarmos para a fase dois. sim, caro leitor, nosso plano tinha fases. entretanto, esta parte era mais complicada. eu teria de ir para o sacrifício. ora, o que não fazemos pelos amigos, não? minha missão era a de virar um agente-duplo ativo, tentando corromper nosso maior inimigo. neste caso, o inimigo conhecido pela alcunha de daniela, ou, simplesmente, "dani".
ela tinha seu charme, apesar de ser doida de pedra. eu podia me esforçar para fazê-la esquecer o osmar, nem que isso custasse alguns beijinhos. ele era meu amigo, oras. era meu dever cívico pegá-la.
assim, enquanto osmar iniciava uma reaproximação lenta e gradual com carol, eu partia para cima de sua admiradora com tudo o que eu tinha. carreguei livros, passei a usar apenas roupas limpas, perfume importado, sorriso encantador, olhares 43, 44 e até o 45, aquela fatal ajeitada da franja caída por sobre os olhos para trás da orelha dela, com a mão descendo suavemente pela nuca até a parte frontal do pescoço. posso não ter grandes encantos, mas a vida me ensinou algumas manhas.
ela se fez de difícil, a princípio. tinha de fazê-lo e eu não esperava mesmo que fosse coisa fácil. no entanto, a persistência é a mãe de todos os cafajestes e veio a me abençoar. cinco semanas depois, em uma festa em que a banda que se apresentava era a menos afetada pelo álcool do recinto, arranquei-lhe um beijo. de daniela, não da banda, embora quem estava lá naquela noite possa jurar que tudo era possível. ela relutou brevemente, se entregou ao beijo, depois recobrou a consciência, me empurrou e saiu em direção ao banheiro. poderia parecer uma tentativa falha, mas a duração do beijo foi longa o suficiente para atingir seu objetivo. carol estava nos arredores e testemunhou parte da cena.
pronto, agora a guria já vai estar mais receptiva. deve estar confusa e achando que a outra te esqueceu. vê se não faz merda. com esse conselho em mente, osmar partiu mais uma vez determinado. estava determinado, mas não confiante. aquela primeira cagada de tentar beijá-la do nada e a rejeição o haviam abalado profunda e definitivamente. dessa forma, a reaproximação continuava lenta e gradual e, pior, não passava de uma reaproximação.
com isso, continuei em meu papel de agente infiltrado na mente de carol, conversando todos os dias com ela, fazendo propaganda, você sabe, o procedimento padrão. mas o tempo passava e osmar não tomava a iniciativa, não partia para o momento decisivo. pobre infeliz. diversos avisos foram dados. desse jeito, vai perder a guria, moleque. ninguém gosta de tanta parcimônia relacionamental.
fui amaldiçoado com essa minha visão objetiva sobre eventos externos aos meus interesses, mesmo que, àquela altura do campeonato, eu já seguisse meus próprios objetivos. não deu outra, alguém se adiantou e carol não estava mais desimpedida, nem mesmo interessada.
ah, essas políticas sexuais, você tem de adorá-las.
hoje, um ano após tudo aquilo, não tenho mais a mesma relação que tinha com meu querido amigo osmar. não temos relação alguma, aliás. ele, infelizmente, não consegue superar o fato de que estou namorando a guria de seus sonhos. sinto falta dele. tudo bem, talvez nem tanto.
somos muito felizes, carol e eu. claro que dou das minhas escapadelas, mas o que se pode esperar de um relacionamento que já começou em inverdades?
nota do autor: tema sugerido por bruno volpato, do blog música pra ler e meu colega no curso de jornalismo.
este texto não é auto-biográfico. ao menos a maior parte dele.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
sobre a procura
Chasing Amy, por Kevin Smith, 1997
Silent Bob: Chasing Amy.
(Shocked silence, more for the audience than anyone else)Holden: What? What did you say?
Bob: You’re chasing Amy.
Jay: Why do you so shocked for, man? Fat bastard does this all the time. Think just because never says anything, it’ll have some huge impact when he does open his fucking mouth…
Bob: Jesus Christ, why don’t you just shut the fuck up. You’re yap, yap, yapping all the time. Give me a fucking headache. (to Holden) I went through something like what you’re talking about, a couple years ago, this chick named Amy.
Jay: When?
Bob: A couple years ago?
Jay: What, you live in Canada or something? Why don’t I know about this?
Bob: Bitch, what you don’t know about me I could just about squeeze in the Grand fucking Canyon. Did you know I always wanted to be a dancer in Vegas? (does a gesture with his hands, a reference to a move by the exotic dancers in “Showgirls”) Betcha ya didn’t even know that shit, did ya?
Jay: So tell your fucking story so we can get outta here and smoke this.
Bob: So, there’s me and Amy. And we’re all inseparable, right? Big time in love. Then four months down the road, the idiot gear kicks in, and I ask about the ex-boyfriend. Which, as we all know, is a really dumb move. But you know how you don’t wanna know, but just have to know–stupid guy bullshit. So, anyway, she starts telling me about him. How they fell in love, how they went out for a couple of yeas, how they lived together, her mother likes me better, blah blah blah blah blah. And I’m okay. Then she drops the bomb. And the bomb is this: it seems that a couple of times while they were going out, he brought some people to bed with him, “menage a troi,” I believe it’s called. And this just blows my mind, right? I mean, I am not used to this sorta thing; I was raised Catholic, for Gods sake.
Jay: Saint shithead.
Bob (to Jay): Do something. (to Holden) So I’m totally weirded out by this, right? So I start blasting her. I mean, I don’t know how to deal with what I’m feeling, so I figure the best way is to call her ’slut,’ tell her she was used. I’m out for blood, I really want to hurt this girl. I’m like, “What the fuck is your problem,” right? And she’s just trying to calmly tell me it was that time, it was that place, and she doesn’t feel like she should apologize because she doesn’t feel that she’s done anything wrong. And I say, “Oh, really?” That’s when I look her straight in the eye, tell her it’s over. I walk.
Jay: Fucking-A.
Bob: No, idiot, it was a mistake. I wasn’t disgusted with her, I was afraid. In that moment, I felt small, like I lacked experience, like I’d never be enough for her or something like that, you know what I’m saying? But what I did not get: she didn’t care. She wasn’t looking for that guy any more. She was looking for me, for the Bob. But by the time I figured this all out, it was too late. She had moved on. And all I had to show for it was some foolish pride which gave way to regret. She was the girl. I know that now. But (lights a cigarette) I pushed her away. (pause) So I spend every day since then chasing Amy. (pause) So to speak.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
sobre táxis e as gotas da chuva
para escrever ouvindo: Stars - your ex-lover is dead
foi através do amigo de um amigo que eu encontrei marina pela segunda vez. estávamos na festa de bodas de ouro de um casal de 70 anos ou algo do gênero. as mesas eram cobertas por toalhas de linho branco, com pequenos vasos repletos de lírios ao centro, copos de cristal e talheres de prata. as paredes eram enfeitadas por faixas prateadas e douradas, e a banda tocava sucessos dos anos 50 e 60. era um salão de festas realmente muito bonito.
quando apresentados pelo jovem de boas intenções que não sabia que já nos conhecíamos, rimos brevemente. logo em seguida, instalou-se um silêncio, daqueles constrangedores, pelo que pode ter sido três minutos ou 13 anos. enfim, ela disse algo que teria sido considerado um clichê, caso ignorássemos o tempo que havíamos passado juntos:
- é, eu acho que já nos encontramos antes, não?
pude perceber pelo tom de sua voz que ela sinceramente não se lembrava de mim. quer dizer, pode ser que seu inconsciente soubesse quem eu era, mas já é sabido que a distância entre consciência e aquilo que habita as profundezas de nossa mente é enorme.
talvez essa seja a hora na qual eu devesse contar como nos conhecemos, nos apaixonamos e nos separamos 20 anos antes. fazíamos faculdade juntos, marina e eu. jornalismo. fomos amigos por um tempo, até uma festa em que os dois, bêbados, percebemos que pertencíamos a sexos opostos. alguns meses depois, fomos morar juntos, contrariando uma amiga que dividia o apartamento com ela e dois sujeitos que viviam comigo. com o fim do contrato de 12 meses, acabou também nosso relacionamento. essas coisas acontecem, o que se pode fazer?
enquanto eu lembrava dessa história, percebi que a hora avançava e eu tinha de ir embora. do lado de fora a chuva caía impiedosamente. ao expressar minha necessidade de partir, ela sugeriu que dividíssemos um táxi e eu, por preferir não me molhar, aceitei prontamente.
atravessávamos uma ponte e percebi que ela parecia triste. não trocava mais que algumas poucas palavras comigo. não podia imaginar que, naquele momento, ela tentava se lembrar do meu nome.
a separação foi amigável. concordávamos que não havia maneira de continuarmos juntos. namoramos por cerca de um ano, o qual eu passara tentando entendê-la profundamente em tempo integral. não adiantava, eu não conseguia penetrar suas defesas, ou assim pensava. eu era muito jovem, tinha 22 anos, como podia ser tão arrogante a ponto de querer conhecer todos os seus segredos? saí triste da relação, mas não magoado. ela sim, ficou um tanto deprimida. por isso acabei achando que eu era o maduro da relação, aquele que sabia lidar com relacionamentos.
hoje vejo todos os erros cometidos. não era ela quem se distanciava, não era ela quem tinha medo, não era por culpa dela que eu não conseguia conhecê-la de verdade. ela havia escolhido sentir, amar, desejar, e eu, coitado, nem tive a chance de fazer tal escolha. nunca a amei realmente. minha tristeza depois do fim não era pelo fim em si, mas pela minha incapacidade de sentir. foi por me amar tanto que ela acabou brevemente deprimida. sua depressão era um cartão-postal dos sonhos que tivemos juntos, um recado do amor verdadeiro.
talvez se tivesse tido a coragem de viver tudo aquilo eu não estivesse olhando para trás. marina era o que eu mais queria, e lhe entreguei o que entreguei. espero que não se arrependa de ter me conhecido. espero que não se arrependa de ter terminado. espero que não se arrependa de não haver o que salvar.
pagamos o taxista e subimos apressadamente para o meu apartamento, pois a chuva continuava a cair forte. no dia seguinte, em minha cama, ela ainda não se lembrava de nós dois. talvez assim fosse melhor. eu era um homem melhor, um ser humano melhor. podia ser que eu finalmente conseguisse lidar com o que eu sempre quis.
tínhamos muito tempo para nos conhecermos, para reinventarmos nossa história.
as enormes gotas da tempestade escorriam pela minha janela, desenhando sombras na face adormecida de marina.
naquele momento, eu não sentia muito por não haver o que salvar.
sábado, 22 de dezembro de 2007
sobre Henry Chinasky e as pessoas
-Henry Chinaski, em "Factótum", de Charles Bukowski
sábado, 15 de dezembro de 2007
sobre dias chuvosos
agora, no entanto, já habitava a casa dos 40 anos. sustentava aquela barriga típica dos quarentões que abandonaram qualquer tipo de esporte há mais de dez anos. não era gordo, mas tinha uma senhora barriga. pelo menos era o que lhe falava sua mulher.
no dia seguinte, após um café-da-manhã calado, foi trabalhar. procurou se concentrar nos seus serviços, mas flashs de sua vida com Thaís lhe cruzavam a mente, dançando pelo monitor e indo pousar sobre a impressora. era como se estivesse imprimindo seu passado, lentamente, preparando-o para entregá-lo a seu editor. era como se uma obra do acaso pudesse estampá-lo na primeira página do jornal para o qual trabalhava. não é preciso dizer, foi um dia de trabalho muito improdutivo. pelo menos profissionalmente falando, pois há colegas que poderiam jurar ter visto João rindo sozinho defronte ao computador, de pé na sala do café, na fila do restaurante.
deitado na cama ao lado de sua mulher, fingia estar dormindo, mas já se decidira. daria um jeito de arrumar o telefone de Thaís.
através de Marcon, um amigo próximo afastado desde o início de seu casamento, conseguiu notícias de Thaís. não eram muitas, provavelmente solteira, trabalhando com publicidade, e um cartão. pegou o telefone. discou. uma suave voz feminina atendeu do outro lado da linha, mostrando que já era muito tarde para voltar atrás.
encontraram-se num bar que costumavam frequentar quando ainda eram um casal. ela certamente se apresentava mais velha, mas ainda tinha aquela beleza que João um dia jurara ser a maior do mundo, sussurando ao ouvido da namorada. o quê de menina desaparecera, dando lugar a uma aparente experiência de vida. divorciada, já acumulava sua própria bagagem.
após atender à ligação, Thaís tinha demorado certo tempo para se lembrar do antigo parceiro. contudo, logo aceitou o reencontro.
durante o namoro, haviam se amado muito. no começo, pelo menos. sua assim chamada "ignorância" aborrecia João, mas era contraposta ao seu gênio forte. tal gênio viria a provocar inúmeras discussões ao longo do relacionamento, principalmente quando confrontado pelo jeito leve e irresponsável deste, mas era exatamente o que João mais amava, mesmo sem saber. ironicamente, 18 anos depois do término do namoro, ele havia se casado com uma mulher muito dócil.
a conversa se desenrolava com desenvoltura. eram dois estranhos com uma forte intimidade que só se adquire com o tempo. não falavam sobre as antigas desavenças, pois os anos haviam se encarregado delas. na verdade, discutiam como era possível que tivessem se afastado tanto. ele mesmo lutava para compreender o que acontecera. teria a vida se encarregado de afastá-los? ou foram ambos que, após a útima grande separação, haviam construído muros tão altos entre si que a distância se tornara intransponível?
as horas passavam e João se entorpecia com a presença dela e com mais um copo de cerveja. se lembrava dos dias que passavam em sua cama, abraçados, confessando sentimentos que nunca mais seriam compartilhados com ninguém, dos filmes vistos no sofá de seu antigo apartamento no jardins, com os pés e as pernas entrelaçados para se manterem protegidos contra o frio de mais um dia chuvoso de são paulo.
e foi num absurdo, numa topada, numa ilusão que então entendeu. havia sido ele o responsável pelo distanciamento entre os dois. ele havia construído o tal muro intransponível. ele ainda a amava.
ele ainda a amava quando terminara o namoro. passava por uma turbulência em sua vida como nunca havia passado antes e a simples idéia de tê-la ao seu lado já lhe sustentava. no entanto, fôra obrigado a terminar o relacionamento de pouco mais de dois anos. em seguida, tentara seguir adiante, empurrando com a barriga, mas ambos frequentavam o mesmo círculo de amizades e seguir com a vida parecia difícil demais. assim, começou a levantar uma barreira, tijolo a tijolo, dia após dia, até que, mesmo quando sentados na mesma mesa de bar, sua presença não passava de uma voz tão abafada por concreto e cimento que ele mal podia distinguir.
por muito tempo, considerou-se vitorioso. havia vencido uma força ímpar em sua vida. agora, cerca de 20 anos após o rompimento, decidiu levantar bandeira branca para si mesmo, permitindo-se ser feliz, admitindo a derrota. nunca havia sido capaz de deixar de amá-la.
sentou-se mais próximo a ela, sentindo um perfume que não era o mesmo que sentia quando eram jovens, mas não menos agradável. tirou o cabelo de sua face como costumava fazer. percebeu os pêlos de seu braço se eriçando. enfim, decidiu mentir ao responder a pergunta que ela lhe fizera sobre ser casado.
procurou pelo garçom e pediu a conta.
sua mulher reclamou quando João se debruçou por cima dela, acordando-a. cheirando a cerveja, ele obstruiu seus protestos com um beijo suave. finalmente se dando conta de que poderia passar o resto de sua vida com aquela mulher, João a amou como nunca.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
sobre correspondências guardadas
X,
faz tempos que não nos falamos, não nos falamos de verdade, e sei que essa carta não será o veículo que nos manterá mais perto, mas qual o remédio?
nos vemos distantes há meses, separados por essa enorme massa que se chama mundo. se a culpa é minha, se a culpa é sua, se a culpa é daquilo a que chamamos destino, não posso afirmar com certeza.
tenho certeza apenas que sinto falta. sinto falta daqueles que partiram, e você é um deles.
sinto falta daqueles que partirão, e você também é um deles.
sinto falta, sobretudo, sinto falta daqueles que estão aqui. tolice dizer quem.
sim, pois não posso afirmar se você partiu, se irá partir, se não irá de qualquer forma. isso pois o intangível lhe é mais apropriado. quereria poder segurá-la, abraçá-la, equacioná-la tal qual o nome que sustenta, X. infelizmente, matemática e sentimentos me faltam.
faltam de tal forma que não sei se tenho raiva, se tenho paixão, se tenho mágoa.
a única coisa que sei é que estamos distantes, como nunca estivemos. distantes enquanto estamos perto, tão perto que sinto como se meus dedos pudessem tocá-la a qualquer momento, mas não está lá.
seja como for, X, a distância ao mesmo tempo em que é algoz dos sentimentos que dirigem esta carta também é aquilo que os impulsionam.
Saudade, pois, é como lhe chamarei, X.
saiba que, se um dia resolver retornar, ainda estarei aqui. grisalho, talvez. mas aqui.
caso decida que o melhor é continuar onde está, fique tranqüila. Saudade é quem me guia. você me guia.
e é pra finalizar esta que pode ser a última comunicação existente entre nós que uso o seu nome para dar vazão a tudo o que quero dizer mas não sei como.
sinto Saudade. sinta-se amada.
sinceramente, como nunca antes,
o Autor.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
sobre histórias e amores
marcos, vamos chamá-lo de marcos, outro dia percebeu isso súbita e drasticamente. andava pela rua distraído a pensar e a conclusão lhe atingiu com tal força na face que lhe quebrou um dente e lhe deixou um calombo do tamanho de um punho na testa. infelizmente, não posso afirmar categoricamente se as contusões foram resultado do impacto da percepção ou do impacto de um enorme poste de concreto que fora posicionado estrategicamente naquela parte da rua apenas para acrescentar um pouco de humor a esta história. de uma maneira ou de outra, o que nos importa é que, recobrado os sentidos, marcos só conseguia pensar naquilo.
ao chegar em casa e se livrar agilmente dos braços preocupados da mãe - "que raios você andou fazendo lá fora?" - marcos se dirigiu diretamente a seu quarto, onde se trancou para poder pensar com maior segurança sobre o assunto.
não, definitivamente não atravessava uma onda de sorte com as mulheres. apesar de jovem, já havia amado imensamente duas delas. o relacionamento com a primeira tinha terminado mal. assim marcos pensava. mas falaremos dela mais tarde. o que nos interessa por ora é a segunda.
eu falava que marcos não atravessava uma onda de sorte com as mulheres. menti. quero dizer, não menti, equivoquei-me. marcos atravessava uma onda de azar era com o amor. mulheres nunca lhe foram problema.
enfim, havia essa segunda garota. seu relacionamento com ela havia terminado... bem, tal relacionamento nunca havia nem ao menos começado. entendem? eles estiveram juntos, claro, mas sempre fora "eu E você", nunca "nós".
marcos havia passado meses tentando entender o que dera errado. isso, talvez nem mesmo eu possa lhes dizer. sabe-se apenas que ambos seguiram suas vidas, separados. ele certamente seguia a dele, mas seu pensamento, de vez em quando, se perdia por estes trajetos e ele apenas permitia que fosse. não havia depressão, nem mesmo tristeza ou raiva. havia apenas decepção.
o futuro lhe aguardava, ele sabia disso. contudo, olhar pra trás era inevitável. e pensava nas coisas que lhe acontecera, nos caminhos que havia percorrido para chegar até ali. e se lembrava dela. não, não da segunda; da primeira.
e foi numa dessas lembranças que encontrou a conclusão que lhe fez trombar estrondosamente com um enorme poste de concreto que fora posicionado estrategicamente naquela parte da rua apenas para acrescentar um pouco de humor a esta história, mordendo a língua e perdendo uma lasca do dente da frente, o que lhe causaria um chiado na fala que só seria resolvido anos mais tarde, quando finalmente pôde pagar um dentista decente com seu salário medíocre.
eu havia dito, havia dito e repito, que ele pensava que seu primeiro relacionamento verdadeiramente amoroso tinha conhecido um fim amargo. bem, já não pensava mais nisso. na verdade, olhava agora com carinho por cima do ombro para recordações tão antigas. percebia que podia ver o exato momento em que havia descoberto o que é realmente se preocupar com alguém de forma completamente altruísta. preocupar-se por se preocupar, sem esperar algo em troca. e como era bom tal sentimento. e como ele gostava de gostar tanto de alguém.
marcos se levantou de sua cama com um salto e esqueceu da decepção, e também de seus medos, e também de suas preocupações, e também de seus problemas.
decidido e impulsionado pela força que o amor que outrora sentira e que tudo que mais queria agora era sentir novamente, marcos abriu a porta e foi viver. viver uma vida nova, uma vida dos destinos que virão, sem lugar para o passado.
isso, pois percebia que há coisas que realmente passam. passam, e não voltam.
mas, e se voltassem? ah, se voltassem, meus caros, eu não estaria aqui para lhes contar esta história. estaria aqui para lhes contar uma história sobre marcos, o garoto que encontrou a felicidade cedo demais e não soube o que fazer com ela. de uma maneira ou de outra, esta seria exatamente a mesma história, não é mesmo?
