Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de agosto de 2011

sobre as pessoas ao meu lado

curiosamente, ali estavam apenas o médico, um homem com seus 30 e poucos anos, cabelos castanhos cheios e olhar gentil que lhe dava um ar respeitável, e a enfermeira, já uma senhora que claramente havia visto suas dezenas de primaveras e que usava um suave suéter cor de rosa por baixo do avental creme do hospital. ela perguntou se havia alguma coisa que podia fazer por mim. perguntei-lhe se ela tinha uma caneta e papel.

cerca de quinze minutos antes, o doutor havia me informado que minha condição era crítica e que, assim que possível, eu deveria passar por uma cirurgia para tentar remover o coágulo que pressionava meu cérebro contra o crânio causando, sem meu conhecimento, a enxaqueca que já durava dias. a notícia não havia sido processada apropriadamente ainda, apenas o suficiente para que tudo o que eu conseguisse pensar era em escrever. eu ainda não sabia exatamente o que, mas me parecia uma obrigação deixar registrado meus últimos pensamentos caso, você sabe, eu não tivesse êxito.

estava sozinho numa cafeteria a poucos quarteirões da minha casa quando desmaiei, vítima de um episódio súbito e mais violento do que aqueles que vinham acontecendo. talvez por isso me encontrava sem alguém conhecido naquele quarto de hospital. acho que, por estar tão só naquele que provavelmente seria o momento mais importante da minha vida, só conseguia me concentrar naqueles que eu gostaria que estivessem comigo.

seguindo essa linha de raciocínio entrei em uma área obscura que provavelmente deveria ter evitado. nestes meus 47 anos, quantas pessoas pensariam em mim caso se encontrassem na mesma situação? quantas vidas eu havia realmente marcado a esse ponto, de fazer a diferença na hora de um fim iminente?

***

acordei três dias depois e haviam duas pessoas ao meu lado, meu irmão e pedro, meu melhor amigo desde a adolescência. talvez a única coisa que supere minha felicidade ao perceber que ainda estava vivo seja a alegria presente nos olhos dos dois. um sentimento contido, reservado, de quem não quer que você perceba o quão perto da morte esteve. os dois haviam lido meu bilhete, minhas ex-últimas palavras, e me asseguraram que haviam entregue o recado à terceira pessoa, a mulher da qual eu tinha me divorciado anos antes. ela passara para checar meu estado um dia antes, mas tinha de viajar para fora do estado a trabalho, torcendo pela minha recuperação.

jamais entenderei por que, naquele momento, resolvi que devia buscar esclarecimento com ela. pedro e meu irmão, claro, ambos ainda eram as pessoas mais presentes em minha vida, mas ela? trocávamos e-mails vagos e superficiais a cada dois meses, mais ou menos, apenas para não nos tornarmos estranhos. pelo jeito, havia algo dentro de mim que ainda não a havia esquecido com o assinar dos documentos do divórcio.

conversamos distraidamente por algumas horas os três, sempre evitando o elefante no quarto que havia sido minha quase morte. dias depois descobri que havia ficado em coma durante dois dias, acordando brevemente no terceiro, fato que não me recordo. o almoço chegou acompanhado do doutor, que disse ao dois que eu precisava descansar. pedro, sempre reservado, acenou da porta e disse que voltava no dia seguinte, caso eu não resolvesse ter outra dorzinha de cabeça. meu irmão ainda tentou em vão conter o abraço apertado que quase me arrancou a gaze. com lágrimas nos olhos (tanto nos dele, quanto nos meus) me fez jurar que jamais armaria outra palhaçada daquelas. pouco antes de atravessar a porta, se lembrou. ela havia deixado uma resposta. entregou o papel amassado que havia passado as últimas 24 horas em seu bolso, me beijou a testa e saiu.

depois de almoçar a comida surpreendentemente saborosa, não apenas por se tratar de ser um hospital, mas porque eu também não sentia o gosto das coisas há algumas semanas, ainda assisti um pouco de televisão, agradeci à boa e velha enfermeira por ter entregue meu recado e enrolei mais um pouco até ter coragem de ler o que minha ex-mulher havia respondido. sucinta como lhe era característica, a resposta era constituída por apenas uma palavra. "sim".

e você? já marcou de verdade a vida de alguém? às vezes não vale a pena esperar momentos como este para descobrir.


____
levemente inspirado neste belo texto: http://bit.ly/r3FIvd

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

sobre o homem que não morreu

meu vô foi um grande homem. aprendi muito com ele. como me portar com outras pessoas, como mostrar respeito, como se orgulhar de viver minha vida sendo feliz.

meu vô cometeu muitos erros. alguns mais graves, outros passageiros. alguns marcaram a vida das pessoas, outros podem ter até mesmo marcado a minha.

meu vô, mesmo quando errou, me ensinou demais. cada erro seu ficará para sempre em minha memória e, podem ter certeza, viverei procurando desviar de tais armadilhas.

meu vô era um homem feliz, um homem alegre, e não havia como não se contagiar com sua presença.

meu vô conquistou uma cidade inteira, muitas vezes sem nem sair de casa.

meu vô bebia e fumava muito. mas esse é o lance de meu avô, ele não procurava esconder essas coisas que poderiam ser consideradas defeitos.

meu vô não tinha vergonha de ser do jeito como era, não tinha vergonha de ser feliz de formas pouco ortodoxas.

oswaldo soto martinez era um grande homem. este homem morreu dia 22 de setembro de 2009 e foi enterrado no dia seguinte. em seu enterro, familiares e amigos que já eram da família lamentavam sua perda, pessoas que sentirão pelos restos de suas vidas a ausência de alguém que lhes proporcionou tanto.

oswaldo soto martinez morreu dia 22 de setembro de 2009. meu vô continua vivo. afinal, como poderia morrer um homem que morreu e renasceu tantas vezes em sua longa vida?

tenho orgulho de dizer que o tinha como meu avô. como nosso avô. cabe a nós que ficamos provarmos com nossas vidas que merecemos tal honra, e que ele tenha orgulho de dizer que nos tem como seus netos.

domingo, 9 de novembro de 2008

sobre o último minuto

você abre os olhos e só vê branco. a lembrança de um romance de saramago passa brevemente pela sua cabeça. no entanto, você não está cego, acometido pela cegueira branca. está, sim, em um pálido quarto de hospital, como pode ser percebido pela aparelhagem característica e a famosa máquina que emite "beep".

sua respiração está mais pesada do que o costume. puxar o ar para dentro dos pulmões prova-se algo extremamente complicado. é difícil raciocinar. tubos saem de seus braços, ligados a bolsas com líquidos transparentes penduradas ao lado da cama.

sua cabeça roda, parece pesar 30 kilos. o branco dos lençóis se mistura com o bege claro das paredes e o cinza da televisão. uma mulher entra e mexe nos tubos. sai antes que você possa perguntá-la o que faz ali, o que está acontecendo. aliás, você percebe que não consegue falar, dói demais.

falando em dor, agulhas penetram lentamente seu peito, espalhando-se por suas costas, ao longo de toda coluna. não é a melhor sensação do mundo. talvez até se assemelhe ao que você imagina ser a morte ou o inferno. felizmente, a agonia passa, tão logo você desiste de mover qualquer parte do corpo. agora já sabe: até mesmo o mindinho pode funcionar como gatilho para dor tão profunda. parece uma boa idéia permanecer imóvel.

a imobilidade é seu santuário de calma e paz, mas isso ainda não responde o que raios está fazendo naquele quarto de hospital. algo no fundo de sua mente lhe diz que, de alguma forma, você sabe a resposta para tal pergunta, porém esta está guardada em um lugar distante o suficiente para que suas mãos não possam alcançá-la. cansa pensar muito a respeito e, se há algo de que você tem certeza, é de estar profundamente, completamente, exaurido de qualquer energia.

sua cabeça ainda pesa os 30 kilos, e só então percebe o travesseiro macio e fofo com leve cheiro de hortelã com detergente na qual está depositada.

a agonia volta. dessa vez, não é a dor que a ativa, mas a falta de motivos, dos por quês de estar ali, preso àquela cama e aos tubos.

lentamente, as memórias começam a pipocar em sua cabeça, como não poderia deixar de ser. estranha e tortuosa é a psique humana. às vezes falha com o homem, exita em funcionar e exercitar os propósitos pelos quais existe. contudo, há os momentos em que decide lhes fornecer pequenas pistas a respeito do que acontece à sua volta, mesmo que, na maioria das vezes, não façam idéia.

você então vislumbra os vultos dos fantasmas que estiveram ali, naquele mesmo quarto, chorando e aguardando por boas novas. uma mulher com camisa rosa claro, cabelo castanho e olhos azuis cheio de lágrimas. ela olha para a sua figura fraca e doentia na cama e seu desespero é verdadeiro e profundo. você gostaria de poder acalentá-la, dar garantias de que tudo ficará bem, mas não tem poder para tanto. o simples fato de continuar vivo já é um fardo grande demais.

crianças entram correndo pela porta. a mulher olha para elas com ternura e tristeza. a mais nova delas, uma menina loira com sardas pela face, brinca com as flores depositadas em um vaso sobre a mesinha ao lado do seu leito. ela não parece saber muito o que significa sua estadia ali. o mais velho, no entanto, exibe os olhos marejados e procura desviar o olhar de onde você está deitado. a dor da consciência de sua tristeza é maior do que a das agulhas, e você chega a desejar que ele não estivesse ali para vê-lo naquele estado. infelizmente, não há nada que você possa fazer. não há nada que você possa fazer há muito tempo, aliás.

os três, entes querido de uma vida há muito passada, se movem como espíritos etéreos, cujo lugar é qualquer um, exceto aquele pálido quarto de hospital. eles deviam estar mundo afora, procurando seus próprios destinos, e não sofrendo por um moribundo sem a menor perspectiva de poder sorrir, cantar ou dançar novamente.

a onda de luz que inunda suas dúvidas neste momento é mais intensa do que a experiência de olhar para um eclipse solar sem qualquer proteção. a cegueira vem de verdade dessa vez, vindo, no entanto, como uma cegueira que lhe abre os olhos para a verdade. você vê, pela primeira vez. vê o médico, com seu jaleco branco e óculos de lentes grossas determinando, com poucas palavras, o fim de seu caminho, de sua vida. na verdade, ele não necessitaria de mais de uma palavra para tal. câncer. terminal. não há nada que possamos fazer. sinto muito.

você gostaria de chorar neste momento. aliás, se já houve algum momento perfeito para as lágrimas desde a criação do mundo, seria este. você quer chorar e seus olhos permanecem secos. nenhuma gota desce por sua face, não importa o tamanho da dor que tome conta de seu coração. a tristeza é tão profunda que seria egoísta não fosse um detalhe: márcia.

você se lembra do nome dela, afinal. consegue até se lembrar daquela pequena lanchonete no interior em que estava no dia em que a conheceu. recorda-se do gosto do café, do cheiro das flores sobre a mesa, da aparência mal-encarada da garçonete rude que o atendeu. a luz do sol que invadiu o ambiente quando a porta dupla foi aberta por márcia era suficiente para queimar levemente sua íris, mas sua beleza o impediu. aquele era o momento de uma vida inteira juntos.

para seu espanto, alguém aperta sua mão, ali, naquele quarto de hospital. a cabeça está caída sobre o braço esquerdo, depositado a seu lado na cama. os cabelos começam a clarear e há um quê de derrota naquela cena. você sente sua perna úmida e salgada por um choro de dias. ela nunca saíra dali, nunca deixara de rezar e rogar por melhoras, mas a esperança se esvaía.

algo então acontece dentro de sua doença, de seu estado, de toda a dor causada pelo tumor instalado em seu peito. você o sente regredindo, perdendo força, desistindo de derrotá-lo, até que, finalmente, ele se retira. você se sente completo novamente. poderia se levantar neste exato momento, agarrar aquela mulher que nunca desistira de ti e dar-lhe um beijo que poderia, nos livros, até mesmo ser chamado de "beijo da vida". você está pronto para mim.

eu saio das sombras. poderia ser de trás da cortina, de debaixo da cama, ou de dentro do guarda-roupas. você sente um novo aperto, dessa vez no ombro, autoria de minha esquálida mão. com seus olhos, você procura sua amada, sua mulher e companheira, mesmo sabendo que, em seu sono, ela não poderia ter chamado sua atenção de tal forma. sempre admirei isso nos homens. como, mesmo nas situações mais impossíveis, procuram força e esperança em sentimentos intangíveis como o amor.

finalmente, você me localiza e, pela primeira vez, o olhar que vejo não é de terror ou espanto, e sim da mais profunda aceitação pelo que viria a acontecer. você certamente foi um ser humano admirável. não tentou barganhar, implorar ou subornar. simplesmente pediu mais um minuto para se despedir. de pé novamente, depois de meses naquela cama, você calmamente inclinou-se e beijou ternamente a testa daquela que ainda demoraria anos para me conhecer.

juntos, deixamos aquele pálido quarto de hotel. meu trabalho estava feito e você teria toda uma nova vida pela frente. nada mudou no seu antigo mundo, só a máquina, que passou a emitir um longo e fulminante "beep".