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terça-feira, 4 de maio de 2010

sobre o pouco que sobrou

eram cinco, mas já haviam sido três.

mudaram-se para lá logo após a cerimônia e, por um tempo, existiu a felicidade. felicidade que cresceu quando, com o passar dos anos, juntaram-se a eles os outros dois, que encheram de vida o local. e nada parecia dar errado.

no entanto, a convivência foi se tornando difícil, dura, áspera. o ar se tornara carregado de palavras curtas e ríspidas e o clima só se dissipou quando o primeiro foi embora.

com a normalidade, os quatro restantes conseguiam ver o futuro novamente, um futuro que não tardaria a chegar. assim, com os sonhos e ambições, o segundo se foi. mesmo que seu coração desejasse alguns segundos a mais.

algumas estações haviam se passado e era chegada a hora do destino seguir seu rumo. as desculpas para ficar não sobrepunham as oportunidades de seguir em frente, e foi com lágrimas nos olhos que o terceiro partiu.

restavam, assim, dois.

mas os dois não eram mais suficientes um para outro. o vazio deixado era muito grande e o pó assentava sobre as lembranças. não havia mais motivos para se ater a dias que não voltariam. o quarto deles manteve um breve olhar de adeus pela porta entreaberta antes de embarcar para sua última jornada.

assim ficamos agora com o último. aquele que nunca poderia partir. aquele que nunca se esqueceria, mesmo que as marcas deixadas fossem cobertas por tinta e argamassa. nada restava da família que ali morara, que ali compartilhara segredos e mistérios de uma vida inteira. sua existência se manteria real e eterna, como parte dos tijolos das próprias paredes. as paredes que sobravam, em um apartamento abandonado.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

sobre o homem que não morreu

meu vô foi um grande homem. aprendi muito com ele. como me portar com outras pessoas, como mostrar respeito, como se orgulhar de viver minha vida sendo feliz.

meu vô cometeu muitos erros. alguns mais graves, outros passageiros. alguns marcaram a vida das pessoas, outros podem ter até mesmo marcado a minha.

meu vô, mesmo quando errou, me ensinou demais. cada erro seu ficará para sempre em minha memória e, podem ter certeza, viverei procurando desviar de tais armadilhas.

meu vô era um homem feliz, um homem alegre, e não havia como não se contagiar com sua presença.

meu vô conquistou uma cidade inteira, muitas vezes sem nem sair de casa.

meu vô bebia e fumava muito. mas esse é o lance de meu avô, ele não procurava esconder essas coisas que poderiam ser consideradas defeitos.

meu vô não tinha vergonha de ser do jeito como era, não tinha vergonha de ser feliz de formas pouco ortodoxas.

oswaldo soto martinez era um grande homem. este homem morreu dia 22 de setembro de 2009 e foi enterrado no dia seguinte. em seu enterro, familiares e amigos que já eram da família lamentavam sua perda, pessoas que sentirão pelos restos de suas vidas a ausência de alguém que lhes proporcionou tanto.

oswaldo soto martinez morreu dia 22 de setembro de 2009. meu vô continua vivo. afinal, como poderia morrer um homem que morreu e renasceu tantas vezes em sua longa vida?

tenho orgulho de dizer que o tinha como meu avô. como nosso avô. cabe a nós que ficamos provarmos com nossas vidas que merecemos tal honra, e que ele tenha orgulho de dizer que nos tem como seus netos.

sexta-feira, 14 de março de 2008

sobre sacolas deixadas num trem

certa feita ouvi sobre um garoto que, durante uma viagem, esquecera uma sacola no trem entre uma cidade e outra. logo que chegou ao hotel, se deu conta da falta da bagagem, mas, como é possível saber, nada havia a ser feito. o país era outro, a língua era estrangeira, e nenhum dos presentes sabia como reivindicar as posses perdidas.
a sacola não era qualquer sacola, e sim aquela na qual ele levava suas compras mais queridas e desejadas, um conjunto de chapéus com as quais sonhava desde que ficara sabendo que deixaria o brasil. sua reação foi das mais simples e previsíveis: chorou. errado há de ser aquele que pensar que o garoto era apenas mais um que dava importância às coisas materiais, assim como há de estar errado aquele que acredita que é fútil chorar por sonhos perdidos.
aqueles chapéus eram mais que reles compras, eram a própria materialização de desejos profundos, infantis até, mas que caracterizavam sua própria personalidade.
obviamente, sua mãe e seu irmão mais velho não foram capazes de entender de imediato a importância daquela perda, e chegaram até mesmo a se impacientar com o pobre garoto. no entanto, sua infelicidade era tão profunda e seu desespero tão genuíno que não puderam se conter em acalentar o infante. comprariam outros assim que pudessem, e foi assim que aos poucos o pranto cessou.
difícil dizer se a sensação de vazio naquele jovem peito tenha passado tão facilmente.

há aqueles que se vêem, em determinado momento de suas vidas, em posição similar. têm de deixar para trás bens preciosos que sabem que dificilmente irão recuperar, ao menos da forma como um dia foram. as formas de lidar com tais acontecimentos são as mais diversas, mas o princípio é o mesmo.
de início, a sensação de perda vem forte, e olhar para trás causa uma dor incomensurável.
em seguida vem a negação. evita-se que o pensamento passeie pelos campos da saudade, e a mente preocupa-se em se manter ocupada.
no entanto, é da natureza humana sentir a falta, a saudade, o vazio deixado por algo que se ama. dessa forma, enquanto a mente luta para ser forte, a alma sente e, embora as ações sejam de quem parece seguir olhando para frente, conhecendo novos destinos e vislumbrando novas vidas, o coração se mostra ainda soberano e sofre calado, até que o cérebro esteja forte o suficiente para acompanhá-lo.

nesse momento que se chora verdadeiramente por aqueles que tiveram de ser deixados para trás, irmãos, amigos, parentes - assim como uma sacola esquecida.

finalmente este irmão mais velho que vos fala entende da dor madura sentida por alguém que tinha tanto para ensinar, por ser tão infinitamente mais inocente a ponto de derramar lágrimas por um bando de chapéus deixados num trem para veneza.



nota do autor:
em homenagem a Gabriel, meu irmão, e a honra que é poder chamá-lo assim, e a todos aqueles que, mesmo não tendo o sangue em comum, já pude um dia fazer o mesmo. obrigado por tudo.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

sobre pensamentos II - os malditos

às vezes, dá a louca na Natureza e ela acha por bem criar irmãos sem qualquer laço genético. felizmente, a Amizade se encarrega deles.