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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

sobre o homem que tinha amigos demais

entre os corredores, alunos e funcionários da universidade albuquerque, localizada na zona oeste de são paulo, existia apenas uma unanimidade: rambo nogueira era o ser humano mais amigável que já havia frequentado aquela nobre instituição de ensino superior. apesar do nome, rambo tinha tamanho poder cativante que, mesmo cinco anos após sua formatura, ainda existiam dezenas que garantiam ser alguns de seus amigos mais íntimos, não lhe poupando elogios. obviamente que existiam aqueles mal intencionados que apenas queriam pegar carona no mítico carisma do veterano, mas a grande maioria enchia suas bocas de sinceridades ao falar da amizade.

rambo passava pela puberdade quando percebeu o poder que exercia sobre as outras pessoas. sempre tivera amigos, mas, repentinamente, todos pareciam querer lhe fazer favores, dar-lhe uma mão, ajudar como pudessem. claro que isso implicava em expectativas de reciprocidade, como acontece em qualquer relação afetiva platônica. mas isso não era nada.

o porteiro tomou súbito interesse em sua vida e, curiosamente, passou a lhe contar todos os detalhes de suas últimas conquistas amorosas no bailão. a professora de história tolerava seus atrasos na entrega de trabalhos, fazia vista grossa para as breves adormecidas durante a aula. até seu cachorro, que sempre preferira seu irmão mais novo, agora ficava à porta esperando seu retorno da escola, com o par de chinelos do dono na boca.

rambo era amigos de todos, e todos o amavam. e ele odiava isso. não suportava tamanho carinho e atenção, queria gritar a cada sorriso compreensivo. desejava, acima de tudo, fugir desesperadamente de cada indivíduo que, apesar do nome lhe ser desconhecido, o cumprimentava não com um aperto de mão, mas com um abraço apertado.

seus amigos de verdade, aqueles que já o conheciam antes da estranha maldição ser lançada, se divertiam com a situação. observaram, em primeira mão, a evolução gradual de rambo para um dos seres mais agressivos que já caminharam sobre este planeta. e gargalhavam com isso.

logo, a saudação do jovem não passava de um grunhido e o seu nome do meio passava a ser sarcasmo. a cada palavra de incentivo, a resposta era um palavrão - de fato, foram tantos ao longo dos anos que muitos nem existiam ainda. hoje, habitam as páginas de qualquer dicionário informal. mesmo assim, seu carisma perdurava. as pessoas acreditavam que aquele era apenas o jeito dele. e aquele era um jeito divertidíssimo.

"ahahaha! tá certo, bambão! eu enfio esse desenho assim que você me disser se a perspectiva está real ou não... o que?? parece a minha mãe fazendo o que?? porra! não é que tu tá certo? valeu, bambão! sabe tudo, moleque!" - enquanto isso, rambo agonizava.

para piorar seu humor, que já não era dos melhores, rambo, aos 25 anos, nunca tinha conseguido dar uma trepada. aliás, beijo mesmo, só roubado. de amigas. "aaah, bambo. claro que eu vou ao cinema contigo. não, é sério! eu adoraria! qual filme? não importa! faz tempo que eu queria sair com você, mesmo... ah, que ótimo! vou levar o carlos, assim você me diz se aprova o namoro e...".

o lado bom, que ao menos o acalentava, era que esse seu poder o fizera escalar rapidamente os degraus do mundo corporativo. em apenas três anos trabalhando no banco américa, era o primeiro funcionário com menos de 30 anos promovido a diretor. seus chefes se encantavam com seu poder de liderança e sua franqueza. o projeto, aquele que tinha 23 pessoas dedicadas exclusivamente a ele nos últimos sete semestres, realmente era uma bosta, um cu sem tamanho. com seu fim, não só pouparam ainda mais tempo, mas também conseguiram cortar todo um setor da folha de pagamento. o jovem era um talento!

considerado um gênio, era a maior prata da casa desde a sua fundação. pelo menos até a tarde de 27 de outubro, em que seu chefe o chamou para uma conversa. rambo estava sendo, infelizmente, desligado da corporação. não, não haveria como poder dar boas referências. ele sentia muito, tinha rambo como um filho, um irmão, até!, mas a diretoria andava preocupada. não acreditavam que o senhor rambo nogueira tivesse a postura necessária para o agressivo mundo das finanças.

rambo estava na rua, com um apartamento de R$700 mil ainda para pagar. o motivo? amigável demais.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

sobre os amores dos outros

ela abre a porta e dá de cara com daniel, que entra esbaforido.
- eu te amo, marina.
a declaração a pega despreparada.
- sério?
- sério, pombas! quem inventaria algo assim?
- ah, querias que eu dissesse o que? puta surpresa, inferno!
- tá, tá! desculpa. é que eu precisava tirar isso do peito o quanto antes e... - ele ouve o burulho do chuveiro ligado e finalmente repara que ela está de roupão, mas com os cabelos secos. - putz! desculpa, mesmo. não queria invadir desse jeito e interromper teu banho, mas...
- agora já foi! desde quando tás apaixonado por mim?
- apaixonado, não! eu te amo! pelo o que a carlinha disse, há uns três meses!
- foi quando a gente ficou a primeira vez, né?... - ela nota que há algo errado - peraí. "pelo o que a carlinha disse"?...
- é! mas o joca começou a dizer isso há dois anos atrás. lembra como eu vivia grudado em ti e tals?
- lembro... mas calma. desde quando, afinal?
- ah, disso eu não tenho certeza, não! sei só o que me disseram. você conhece o joca. quando ele mete algo na cabeça, fica martelando o tempo todo.
- então deixa eu ver se entendi. você me ama, mas não sabe desde quando. sabe apenas o que a carlinha e o joca dizem?
- isso aí, boneca. no começo achei que era viagem deles, mas eles repetiram tanto que eu pensei "acho que não custa nada tentar, né?". agora vem cá que temos tempo pra recuperar até o casório.
- casório?! que mané 'ório?!
- ah, nós temos que fazer tudo direitinho, né. namora uns quatro meses, noiva por um ano, casa e, depois de um tempo, tem os dois filhotes!
- que porra que tu tá falando, daniel??
- porra, não! é tudo nos conformes. mamãe sempre disse que...
- tava demorando. agora é tua mãe que quer que a gente case.
- não exatamente a gente, eu e você. mas ela sempre pregou que tudo deve ser feito com ordem e planejamento. afinal... - silêncio. ele nota que o chuveiro foi desligado - tem alguém aqui contigo?
- ...
- dani, meu filho! que diabos tás fazendo aqui, moleque? - pergunta uma cabeça masculina saindo pela fresta da porta do banheiro.
- joca?... - ele procura por uma resposta vinda de marina que, a essa altura, já está jogada no sofá, declarando a derrota.
- olha, daniel. desculpa, mas tu escolheu a hora errada de declarar amores. eu to apaixonada pelo joaquim.
-ahá! sabia!!! eu sempre te disse que eras apaixonada pelo joca e você vinha com uma história que era ciúme e... ah, caralho. eu sempre te disse, não é?
- isso aí, espertinho. eu cansei de afirmar que era coisa da tua cabeça, mas tu insistiu tanto que... "achei que devia tentar, né?". agora dá o fora daqui. como a minha mãe sempre dizia: dois é bom, três é putaria.

sábado, 18 de setembro de 2010

sobre uma mulher abandonada

éramos todos, cinco ou seis, perdidamente apaixonados por ela. como haveríamos de evitar? cabelos loiros, olhos claros, seios fartos. desafio aquele que diga que a poderia resistir. não poderia. simplesmente não poderia. digo isso com a mais firme e persistente das convicções.

éramos todos dos mais variados tipos. uns velhos, outros magros, outros metaleiros. se havia um único ponto de convergência era ela. reuníamos nos bares da vida para debatê-la, mistificá-la, endeusá-la. os recém chegados à turma nos diziam loucos, malucos. não havia nesse mundo ser que pudesse ludibriar por tanto tempo uma turma de membros tão díspares quanto aquela. opinião que durava até os primeiros balançares das curvas de um corpo sem falhas em uma pista de dança.

éramos todos fantoches, reféns de um ser acima do tempo, da razão e da teoria. confesso até que aprecíavamos tal posição. "melhor amar e não ter, do que não ter o que amar", não é o que dizia o antigo ditado?

éramos todos apaixonados irremediáveis. o éramos, pelo menos até o caso do primeiro. pois eis que o primeiro decidiu, e não me pergunte o por quê, que era gay. sim, tamanha reviravolta também nos pegou de surpresa e não havia um que pudesse crer no que ouvia. era coisa da cabeça dele, dizia um. a negação era tamanha que ele havia se confundido, dizia outro

não. não era coisa da cabeça nem negação. ele simplesmente havia percebido que se deixara levar por pensamentos que não os dele. sentia, e sempre sentira, atração por outros homens, e não havia argumento que o fizesse passível a mudar de idéia.

éramos, então, não mais todos, mas apenas cinco. cinco que logo se tornaram quatro. duas semanas depois o segundo se declarou enamorado. claro, dizia um, todos a amamos. não, dizia ele, cansei. amo terceira.

assim, com o tempo, a vida e o cansaço foi nos abatendo, um a um. logo o terceiro se declarou pai. mero mês depois, o quarto se confessou celibatário. o quinto, que frequentava um terapeuta, não demorou a se admitir medicado. e enfim sobrei eu, o sexto e último, em um antro de descrentes.

as reuniões regadas a álcool logo não se mostravam mais as mesmas. como podia eu conviver com um bando de infiéis? tempo passou, esse tempo que não perdoa, e me tornei sóbrio.

anos depois, ainda nos encontrávamos no mesmo boteco de antes e éramos, todos, não mais apaixonados, nem por ela, nem por nossas eventuais namoradas, apenas pela cerveja à nossa frente. ríamos ante a velha obsessão sem propósito por um belo par de mamas. não podíamos crer que já havíamos discutido tanto por mera lactose.

enquanto isso, ela também ria, abandonada por seus fiéis seguidores, mas muito bem acompanhada de seu belo marido, o milionário, 78 anos, sem grandes perspectivas de sobreviver ao câncer de próstata.

éramos, todos, vencedores. pelo menos até o celular de alguém tocar, quando podia se vislumbrar em cada olhar a lembrança de esperanças passadas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

sobre a terra da libertação

a terra da libertação é cheia de mulher feia.

mesmo sob o efeito de psicotrópicos pesados. pelo menos é isso que pude perceber nesta visita a são thomé das letras.

por isso clamo a vocês, mulheres: deixem seu namorados, noivos, maridos, viajarem.

não vamos a um lugar desses para caçar, espreitar o mulherio; vamos para reforçar aqueles velhos laços de amizade, encher a cara, passar frio e calor no mesmo dia, ouvir música tocada por pessoas mais loucas do que nós mesmos, conhecer pessoas mais loucas que nós mesmos, dividir o aperto de uma barraca inundada pela chuva, derrubar mitos, derrubar garrafas, derrubar a própria realidade.

não visitamos uma cidade cheia de maconheiros porque esperamos encontrar um amor para toda a vida ou apenas uma trepada passageira; visitamos porque desejamos fugir da rotina, fugir da sobriedade, correr desenfreadamente na direção oposta das responsabilidades e apenas viver aqueles breves instantes que levam para que a seda queime completamente.

não acampamos em meio a centenas de machos com seus cabelos rastafari porque procuramos a essência da beleza feminina; mas sim porque precisamos fugir de todas as pressões, queimar neurônios logo acima da delegacia, perder as habilidades motoras necessárias para se manter em pé, perder as habilidades motoras para se alimentar, encher a cara às nove da manhã (em algum lugar do mundo deve ser quatro da tarde), encontrar mensagens escondidas em pinturas de dali ao percebemos que somos verdadeiros especialistas em arte numa sorveteria às seis da madrugada.

enfim, vamos a um lugar como são thomé das letras exatamente porque queremos, desejamos, precisamos fugir de vocês. mas não me entendam mal.

já dedicamos cerca de 90% de nosso coração, cérebro e concentração a vocês. permitam, por favor, que possamos sentir sua falta, encher a cara com os amigos e sermos homens primitivos e sujos por um fim de semana que seja.

pois é apenas com o nível de sinceridade e percepção que só atingimos quando reforçamos aqueles velhos laços de amizade - e usamos uma certa quantidade de artigos legais e ilegais - que podemos perceber e aceitar que a terra da libertação é cheia de mulher feia.

sábado, 1 de agosto de 2009

sobre a verdade ou sobre uma chupada

confiança é um assunto delicado. como alguém pode se propor a ler um texto sobre o assunto sem confiar no autor?

contudo, há um aspecto dentro de toda a questão envolvendo a confiança que, creio, intriga, ao mesmo tempo em que é comum a todos. que confiança perdida é justificadamente difícil de ser recuperada, ninguém discorda - acho que podemos estabelecer um ponto comum nisto; mas e quando se quebra uma confiança injustificada, algo que nem se sabia existir, algo que você nem ao menos pediu? enfim, é correto ser alvo do ódio da namorada daquele seu amigo apenas porque ela descobriu que, ao contrário do que você - "crápula" - confirmou, ele - "filho da puta" - não estava te ajudando a levar sua avó ao hospital, e sim estava traçando aquela vizinha do sétimo andar vestido de zorro e gritando "hi ho, silver"?

afinal, não era VOCÊ comendo aquela delicinha de mulher em cima da centrífuga; não era VOCÊ o namorado que passara para trás a pobre e ingênua criatura que, pobrezinha, nem merecia tamanho descaso.

na verdade, se havia algum culpado era ELE, que não conseguira manter a mentira, tão bem elaborada pela sua pessoa, de pé. mais que isso, ela devia era ficar orgulhosa de você que, afinal, provara ser um verdadeiro amigo. amigo dele, claro, mas não eram essas as funções estabelecidas no começo da relação?

você, o fiel escudeiro; ela, a jovem e inocente donzela que, futuramente, descobriria que aquele não era seu príncipe encantado.

aliás, pensando a respeito, ela devia era se envergonhar de lhe fazer uma pergunta daquelas - "assim... ele já me traiu? ontem, você saiu com ele?" -, de ter presumido que você deveria dizer a verdade. a ti, coube apenas o seu papel inicial; quem veio a querer mudá-lo fôra ela. como ela se sentiria se um dia você pedisse a ela um boquetinho? assim, nada de mais, só uma língua e coisa e tal. a traição seria a mesma.

na verdade, a traição de um amigo é muito maior que de uma namorada. chifre se perdoa. apunhalada nas costas, jamais.

ou seja, ela deve engolir o orgulho calada, e você deve manter o queixo erguido. a traidora, dentre os dois, era ela. pois, no fim, mais vale uma chupada que dizer a verdade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

sobre conversas que não deveriam existir

idéia para uma possível montagem de crônica em curta-metragem:

o cenário é de uma rua familiar, repleta de pequenas casas com seus portões metálicos. dois amigos e vizinhos de longa data, já ficando grisalhos, por volta de seus 40, 50 anos, conversam em frente ao portal da garagem de um deles.

- ali vai meu filho. olha como o moleque é grande e forte!

observando a baixa estatura do companheiro, o outro apenas responde sarcasticamente:

- é... vê-se que puxou a mãe...

- e tu? o que tens?

- posso não ter filhos, mas pelo menos controlo minha mulher quando quero.

- não foi o que me disse ontem...

- mas não lhe falei nada, muito menos ontem.

- conjuguei o verbo na terceira pessoa.

- ah, e posso saber quando falasse com minha mulher?

- oras, pois ontem!

- como ontem? e eu, onde estava?

- comendo a tua secretária...

- e quem lhe disse isso?

- tua mulher... irônico, não?

o silêncio se posta entre os dois. cada um contrariado com o outro. permanecem calados por alguns minutos, até que o de menor estatura finalmente quebra o vazio com uma pergunta:

- peraí, quando falasse do meu filho, tavas insinuando que sou baixinho???

o corno apenas permanece calado. vira-se e caminha em direção à sua casa, deixando o amigo com seus próprios complexos; parte, então, vitorioso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

sobre o maior dos clubes

"tenho um namorado". - foi o que ela me disse, ao se levantar e me dar um leve beijo, daqueles que não se sabe se é destinado aos lábios ou à bochecha.
e eu fiquei ali, observando-a partir, ligeiramente enraivaceido - enraivecido... eu tava é puto! - ao imaginar os sentimentos que ela poderia sustentar por um terceiro. quatro meses haviam se passado desde que eu a conhecera. três meses desde que eu havia percebido o quanto era linda. dois desde que reparara como seus olhos também brilhavam de forma fora do comum quando depositados sobre a minha pobre pessoa. um, um mês inteiro, desde que eu percebi que estava perdidamente apaixonado.
eu, um jogador, não por natureza, mas por formação; e estava lá, assistindo-a partir para talvez nunca mais voltar, incapaz de correr atrás dela e segurá-la.

num bar, dois amigos discutiam já brevemente embriagados. o mais velho parecia sê-lo ainda mais do que realmente era; e o mais jovem fingindo ser mais experiente do que a realidade, talvez apenas para enganar ao colega de cerveja, talvez mentindo para si mesmo.
discutiam, como invariavelmente essas situações de dois amigos conversando ebriamente em um bar acabam, sobre mulheres.
ambos já haviam sofrido sua cota de desilusões e alegrias, de rejeições e felicidades, mas, acima de tudo, ambos estavam absolutamente na merda.
talvez você já tenha lido um livro de stephen king chamado "a coisa", talvez não tenha. o que importa saber sobre esta obra é que é protagonizada por um grupo de jovens párias da sociedade, auto-intitulados "clube dos perdedores".
senhoras e senhores, apresento a vocês, aqui, nesta mesa de bar, o verdadeiro clube dos perdedores. ainda haverão de inventar algo que combine mais com um clube de perdedores do que ser constituído de apenas duas pessoas. há quem discuta que, melhor do que serem chamados de clube, talvez devessem receber a alcunha de dupla.
sim, dupla de perdedores.
no entanto, e aqui ambos podem testemunhar a seus favores, os dois eram tão extremamente perdedores que suas experiências poderiam encher a vida de mais meia dúzia de indivíduos. assim, temos aqui novamente formado o clube dos perdedores.

"costeletas, velho. o cara tem costeletas!" - dizia entusiasmadamente um deles, ou melhor, bradava. se lamentava por ter sido, de acordo com uma lógica só sua, trocado por um sujeito que cultivava uma quantidade um tanto obscena de pêlos nas extremidades das bochechas.
"ela tem um namorado, bicho. depois de tudo o que passamos, ela tem uma porra de um namorado" - respondia o outro. talvez não respondia, mas relatava, sem se importar muito com as lamúrias do companheiro.
para os não muito vividos entre mesas de bar, principalmente neste estágio de bebedeira, poderia parecer que os dois contavam suas próprias histórias sem dar muita importância para o que o outro dizia. chegaria um observador a tal conclusão e não poderia estar mais enganado. é assim que funciona a dinâmica do clube dos perdedores. problemas e contos são jogados ao ar de forma aparentemente aleatória, e a conversa não segue necessariamente uma linha de raciocínio que uma mente comum conseguiria acompanhar. o que não significa, de forma alguma, que um não está prestando a mais profunda atenção no outro.
conforme os relatos vão se aprofundando, tomando forma, se solidificando, a competição se acerra. sim, pois um compete com o outro pelo título de maior dos perdedores.
a essa altura, a cerveja já foi esquecida, e são depositadas na frente de ambos doses cavalares de whisky.

"e teve aquela vez que eu, por medo de terminar, falei pra ela que tinha ficado com sua melhor amiga. o resultado foi melhor do que eu havia planejado. a gente não se fala até hoje..."

"isso porque tu nunca deu um soco na cara do pai dela, meu velho. teve uma vez que o velho entrou e ela tava chorando, daí começou a falar um monte pra mim... não tive dúvidas..."

"tá, e o vaso passou raspando na minha cabeça. eu gritei 'tá louca, sua vaca!?' e saí batendo a porta..."

"ela ficava falando dos ex dela. mandei tomar no cu, mas agora acho que eu deveria ter sido mais paciente..."

"falei 'vanessa', bicho. VANESSA! daí a samantha ficou olhando pra mim e, quando eu vi, tava me estapeando e ameaçando morder o..."

"e eu to lá, olhando pra baixo, rezando a deus que um milagre enverta a porra da força da gravidade e tudo o que tá caído, suba..."

conforme a madrugada vai clareando, fica claro que a disputa terá de ser decidida um outro dia. mais leves e relaxados, nosso clube dos perdedores formado por dois dos mais exemplares espécimes da humanidade já paridos se levanta, encerrando esta sessão. apoiados entre si, com pernas cambaleando para todos os lados, ambos se dirigem para o carro.

sei que, em tempos de lei seca e o caramba, este não é o final mais politicamente correto para qualquer história, mas essa é a minha verdade e eu ficarei com ela.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

sobre uma história familiar

temos aqui duas pessoas: um homem e uma mulher. talvez, em outra versão, pudessem ser chamados de dois jovens, um garoto e uma garota, mas neste caso seguiremos com "homem e mulher".

ambos eram amigos há muito tempo. quem sabe até se conhecessem desde crianças, tendo sido vizinhos em um daqueles subúrbios americanos - grandes casas com varanda, quintal e uma bela cerca branca - ou em um conjunto habitacional criado pela prefeitura paulistana - prédios de estatura mediana, com a pintura descascando em contraste com as pixações ilegíveis nos andares superiores. eram amigos por tanto tempo que já conheciam todos os gostos um do outro, suas paixões, seus temores, suas expectativas e aquelas pequenas manias que todos temos, perceptíveis apenas por aqueles com quem convivemos a maior parte de nossa vida. exato, esse é o nível de intimidade que ambos compartilham.

de qualquer forma, é um espanto que os dois tenham se aturado por tanto tempo. isso porque, mesmo se conhecendo há anos, os dois não têm absolutamente qualquer coisa em comum. está bem, talvez ambos dividam a mesma opinião sobre a saúde pública - aliás, quem não tem a mesma opinião sobre a saúde pública? - mas, de resto, são completos opostos.

ela gosta de rock, tatuagens, preto, piercings e grandes concertos internacionais. ele prefere seu jazz, suas artes e seus livros, além de, é claro, a gostosona da faculdade. mais uma vez: se a história fosse outra, estaria ela apaixonada pelo vocalista gótico daquela banda de heavy metal, mas esse não é o caso. e, dessa vez, ela reprova frontalmente as escolhas relacionamentais dele. existem mais de mil mulheres inteligentes e interessantes somente na vizinhança em que moram, por que raios ele tinha de gostar justo daquela piranha?

nem ele sabe, mas ela não consegue se conformar. tenta dissuadi-lo da idéia - onde já se viu pensar em casamento sem nem ao menos ter a coragem para chamar a guria pra sair? como pode se falar em cachorro e gêmeos se os dois nem ao menos foram apresentados? - mas ele se mostra irredutível. e é óbvio que ela gritará com ele, tentará pôr um ultimato nessa loucura, e ele ficará lá, com aquela cara de bocó, tentando entender por que as mulheres estouram por qualquer besteira.

então ela sai com lágrimas nos olhos, borrando o lápis preto que os envolve e esbarrando o ombro com força na porta, para marcar sua saída dramática. por sua vez, ele desiste de entendê-la e, na mesma noite em que consegue um jantar com a tal boasuda da faculdade, não pode imaginar que sua antiga e querida amiga de infância está se entregando, finalmente, àquele vocalista gótico da banda de heavy metal.

alguns meses se passam, vamos dizer uns três, e ambos seguem sem se falar. não é preciso dizer que tudo em que os dois pensaram nesses meses foi em como sentiam a falta um do outro. aliás, também não irei entrar em detalhes aqui, mas vocês podem imaginar o quanto sofreram na mão de seus respectivos parceiros.

ele, usado por motivos materiais, como caronas para o shopping, carregador de sacolas e financiador de compras. ela, usada por motivos bíblicos, como sexo, pedaço de carne sem sentimentos e boneca inflável.

finalmente, o reencontro dos dois acontece, e de longe pode se perceber, pelo modo como se olham e se comportam, que o distanciamento serviu para que percebessem que eram feitos um para o outro. sobe música romântica, algo como kiss me, do sixpence none the richer.

enquanto a música inunda o ambiente da festa ou do show cenário do reencontro, os dois se trancam em um quarto arrancando suas roupas com todas as mãos, dentes, unhas e utensílios à disposição.

neste mesmo momento, seus antigos parceiros fúteis se dão mal de alguma forma. talvez batam o carro e a polícia leve os dois sob a alegação de tráfico de drogas, algo do qual o antigo vocalista gótico da banda de heavy metal realmente é responsável. enquanto esperam pelo seu direito a uma ligação, são estranhamente mantidos na mesma cela e descobrem também serem perfeitos um para o outro. afinal, não podemos culpá-los inteiramente por serem as pessoas fúteis que são, e eu realmente acho que ambos merecem um pouco de felicidade nesse mundo.

esse deve ser o enredo da sua comédia romântica assucarada favorita, ou então de todo um gênero que você odeie. no entanto, a história já é conhecida. mesmo com pequenas variações - em um filme de kevin smith, teríamos escatologias, lesbianismos e dois pequenos traficantes que serviriam para manter a trama junta; por sua vez, caso fosse uma produção de nora ephron, teríamos tom hanks e meg ryan - a moral é sempre a mesma.

para falar a verdade, conheço um número muito maior de "gostosonas da faculdade" ou de "vocalistas góticos daquela banda de heavy metal" do que pessoas que poderiam se encaixar como nossos intrépidos protagonistas. raios, aposto que você já deve ter passado por uma situação parecida com a dos "parceiros fúteis" - eu sei que eu mesmo já me vi usando esses sapatos.

talvez tudo isso seja apenas dor de cotovelo. pode ser que realmente haja uma história dessas por aí, em algum lugar. por enquanto, seguimos apenas sonhando com algo assim tão simples, mas tenho minhas suspeitas de que, quando encontrarmos, não acharemos a menor graça, perdendo o interesse na trama bem antes da grande reviravolta.

afinal, qual a graça de uma história da qual já se sabe o final?

na manhã seguinte, ambos acordam, provavelmente com uma ressaca fenomenal. não conseguem mater contato visual por mais do que dois minutos. vestem suas roupas e seguem para suas casas sem trocar uma palavra. mais tarde, no mesmo dia, vão jantar juntos e nenhum dos dois tem coragem de tocar no assunto.

por muitos anos, aquela noite segue sem ser lembrada, pelo menos em voz alta, por nenhum dois, como um pacto estabelecido. um pacto que nunca precisou ser firmado.

ele, enfim, se casa com uma jovem corretora de imóveis, passando a frequentar ambientes mais familiares e se afastando gradualmente de seu passado.

passado esse que inclui ela, que se tornou uma escritora não muito conhecida, mas com admiradores fiéis e sem uma vida pessoal das mais animadas, regada por taças de vinho degustadas em sua solidão, altas horas da noite.

um pode realmente ter sido a pessoa perfeita para o outro, mas a vida tem dessas coisas e isso eu não posso mudar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

sobre pensamentos II - os malditos

às vezes, dá a louca na Natureza e ela acha por bem criar irmãos sem qualquer laço genético. felizmente, a Amizade se encarrega deles.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

sobre feriados

a vida segue normalmente. todo dia a neura de seguir a rotina nos abate implacavelmente.
acordar, estudar, andar, jogar, sonhar, ganhar, exercitar, trabalhar, lutar, respirar, digitar, correr, viver, perder, acender, morder, ser, sentir, dirigir, fingir, atingir, parir, fugir.

fugir. fugir finalmente para longe, para todo o sempre, nem que por apenas um minuto. é importante que no meio do caos da rotina consiga-se fugir. ou isso, ou ficamos loucos. fugir num feriado, reunindo os amigos para aquela escapada que nos garantirá a sanidade ao mesmo tempo em que a anula. fugir para longe, para o meio do mato se possível. se não for possível, para um sítio distante de todo esse ambiente urbano que nos afaga e nos sufoca.

em carros, guiando pela estrada, se pode sentir o momento exato em que já não se é tanto um só, mas se é todos. em que todos querem apenas abstrair a vida, vivendo aquele momento insandecidamente embebido em álcool, de preferência.
lá chegando, é importante constatar a total ausência de água pela casa, até mesmo na piscina. também se deve sair para comprar gelo, afinal a geladeira com a qual todos contavam, inexiste. por fim, coloca-se a cerveja num imenso balde para gelar, quem sabe assim a noite começa.
e começa. logo as brincadeiras têm início e o nível de sangue na corrente alcoólica de todos baixa drasticamente.
sete e múltiplos de sete. catorze! lá se vai a primeira dose de vodka. 56 é múltiplo de 7? é! então bebe.
as perguntas correm soltas, não se pode respondê-las. a cada pergunta emenda-se uma nova, é isso? isso mesmo...xiii. bebe!
há sempre aquele que resolve pegar no pé de alguém, principalmente se isso puder causar o maior mal-estar possível. felizmente, a benvinda ebriedade já chegou há tempos e se juntou ao grupo. ninguém liga.
todos gritam e falam simultaneamente. todos se escutam e ninguém se ouve, ao mesmo tempo que a música vinda do porta-malas de um dos veículos atinge seu máximo volume.
finalmente, alguem obtém o privilegio de ter a prioridade sobre o último gole de vodka.
sirenes na porta e a convidada temida mas indispensável se mostra presente. pelo menos, sua presença é passageira e a polícia vai embora depois de pegar todos os dados de uma das poucas que conseguiu a proeza de se manter razoavelmente sóbria. isso no portão, pois lá nos fundos o grupo de bêbados tenta um improvisado jogo de queimada, com latinhas amassadas demarcando territórios.
sob a ameaça de uma agradável noite na prisão, todos entram à casa e começam um jogo de regras complexamente simples, no qual quem fizer o primeiro par de três cartas vence.
o sono finalmente começa a ganhar força e deposita seu peso sobre as pálpebras de alguns. os que resistem, decidem ir à cidade, para o maior rodeio minúsculo de uma pequena metrópole rural.
no dia seguinte, o tom é o mesmo, acrescido do calor trazido pelo sol tão brilhante. mais cerveja e gelo, por favor. a piscina vazia ri da cara de todos e a piscina do vizinho, tão limpa e reluzente, olha só, sorri. o carrasco solar aflige, e não se vê outra saída a não ser procurar refúgio sob as águas contidas passando o muro da casa ao lado.
o líquido transparente voa para o espaço a medida em que os corpos furtivamente mergulham, procurando fazer o maior barulho possível no meio do silêncio obrigatório de quem está fazendo algo ilícito.
como saco vazio não pára em pé e nem alça vôo sobre as savanas, todos se fartam com o maldito pão seco abençoado pelas fatias sagradas da mortadela. jesus cristo, aquele que se sacrificou pelos nossos pecados, está lá e, com sua estatura modesta, grita a plenos pulmões que a esbórnia não é mais loucura, é esparta.
vencido o calor, uma nova brincadeira é iniciada. resolvem brincar de carrinho. mas deus me perdoe se forem carrinhos daqueles da infância. agora são todos automotores puxados por cavalos nem sempre muito potentes. um dos jovens que, coitado, ainda nem mesmo conhece as belezas bíblicas carnais, perde sua virgindade (apenas aquela atrás do volante) e mostra mais habilidade até mesmo do que aqueles que já suaram para comprar suas habilitações.
finalmente, não se tolera mais a fome e uma última incursão à cidade é indispensável. vestidos a caráter, invadem as ruas causando espanto na irriquieta população local. uma pizzaria é agraciada com a sua presença. na telinha da tv, a seleção brasileira de futebol dá show em cima dos estadunidenses. três pizzas e duas cocas depois, a santa ceia se encerra e é necessário começar a articular a partida.
a casa lavada com o pouco d'água contido no tanque, o sono espantado após uma bela soneca e todos estão em seus assentos novamente. o destino é são paulo. o destino é suas próprias vidas, marcadas com o que vier pela frente.
infelizmente, nada é certo e este grupo irá se separar. um deles irá partir para o outro lado do globo em breve e esta foi uma mais que merecida despedida. separados, mas unidos para sempre, pois, mesmo que a memória falhe com os amores e o coração se esqueça das lembranças, ainda terão, gravados para sempre, os filmes desta incrível família que se formou em tão pouco tempo.
e eu, tão humildemente que vos falo, tenho orgulho e me sinto honrado de poder dizer que faço parte dela.

acredito que existem dois tipos de pessoa neste mundo: as que existem e as que vivem. as que existem se prendem às suas vidinhas tranqüilas, recatadas e retilínias. sua maior preocupação é se a salada será de tomate ou se seria ousadia demais colocar também algumas folhas de alface. as que vivem têm formas indefinidas que inundam suas vidas. em suas biografias, contradições, antíteses e paradoxos jorrariam das páginas e agarrariam o leitor pelo colarinho, agitando-o de tal maneira que ele mal veria a hora para ter o mesmo. enormes trechos de páginas em branco, como que redigidas por um escritor ébrio e são, que teve tempo para expressar as pausas que infestam suas vidas. na capa, estampados em letras garrafais estariam os dizeres: amor e saudade. talvez esta fosse a única parte do livro que não entraria em conflito consigo mesma. isso porque a saudade é a forma mais leve e carregada do amor sadio. na contracapa, uma única ilustração. a de uma mochila de viagem totalmente carregada de experiências, boas e más, deixada para trás após uma vida completa.

enfim, o que seria da vida sem suas pausas e suas contradições? acima de tudo, o que seria da vida sem a saudade?



*este texto é dedicado a todos que estiveram no infame sítio em boituva. obrigado por campartilharem tantos momentos juntos. e, mayara, que sua viagem seja tudo o que você quer, e tudo aquilo que nós mais lhe desejamos.