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domingo, 17 de julho de 2011

sobre viagens de negócios

poligamia é uma daquelas coisas cujo próprio ato já deveria ser considerado punição suficiente. joão moura, popularmente conhecido como jomo, discordou durante anos desta afirmação. aos 23 anos, se casou com maria cláudia, sua primeira namorada, quando esta engravidou. ao contrário do que se pode imaginar em se tratando de um casamento motivado pela gestação, foram muito felizes por sete anos, com mais dois filhos pelo caminho, até que a chama pareceu se apagar. passou a chegar sempre cansado do trabalho, maria cláudia estava sempre com dores de cabeça, foi praticamente um milagre que didi, o terceiro filho do casal, pudesse ter sido gerado.

um dia, no entanto, tudo mudou radicalmente. jomo voltou de uma viagem de trabalhos carregado de presentes para todos. um video game para o primogênito, um carro de controle remoto para o filho do meio, três macacões do santos para didi e uma noite quente para maria cláudia, começando com as crianças com a babá, um jantar romântico em seu restaurante favorito e a superação de qualquer enxaqueca na cama - por quatro horas seguidas. ela não podia acreditar na súbita mudança de humor do marido, e nem estar tão feliz que nem reparou que suas viagens de negócios passaram a se tornar cada mais constantes e longas. afinal, jomo voltava sempre tão amoroso e dedicado que valia a pena as duas semanas por mês que ele tinha que passar longe de casa por causa de sem emprego como representante de vendas de uma fábrica de ligas metálicas. mal sabia ela que, em ribeirão preto, joão moura tinha outra mulher.

tudo havia começado como uma mera relação profissional. maria cristina trabalhava como secretária de um dos clientes de jomo e atraiu sua atenção durante um dos almoços de discussão de preços. era uns bons oito anos mais nova que sua patroa, bonita, ambiciosa e admirava aquele homem que vinha mensalmente conversar com seu patrão. saíram para jantar um dia e só deixaram o quarto dois dias depois, quando joão tinha que voltar pra casa. um ano depois, uma cerimônia pequena reunindo apenas os amigos mais chegados, no cartório mesmo, oficializava a união entre maria cristina rondón e joão de carvalho moura (de carvalho era o sobrenome de solteira da mãe de joão), que passou a ser conhecido nos círculos de conhecidos do casal como "joca", ironicamente.

enfim, durante uns bons três anos, a vida não poderia ser melhor para jomo/joca. conseguia levar bem sua vida dupla, afinal seu emprego realmente o forçava a viver nessa "ponte aérea" santos-ribeirão preto. sempre que chegava em casa, era recebido por amores e saudades, e ainda conseguia ir embora no exato momento em que começavam os atritos da convivência. vivia, então, como um convidado em seu próprio lar, onde fosse, e era tratado com toda a pompa por suas esposas. a vida não podia ser melhor para joão moura.

até o dia em que ele reparou que as coisas não eram mais como antes. suas mulheres, não imporando onde estivessem, se comportavam de forma irracional, temperamental, ditatorial e selvagem. conseguia fugir de uma, às vezes, sob desculpas de uma viagem imprevista e urgente, apenas para ser recepcionado por patadas, unhadas e lágrimas. jomo/joca havia conseguido, por anos a fio, intercalar o fenômeno da TPM de suas mulheres, de forma que nunca estivesse na respectiva casa quando o incidente começasse. por uma dessas ironias da natureza, o ciclo de suas mulheres, mesmo a a 430 quilômetros de distância, haviam se alinhado. agora ele não tinha de encarar apenas UMA mulher chorando, agredindo, xingando e esbravejando, mas um ataque conjunto e coordenado. isso, pois mesmo que estivesse longe, enfrentando a artilharia de uma, recebia os ataques da outra por celular, e-mail ou sms.

o pobre joão moura não sabia mais o que fazer. estava prestes a se entregar à mercê de ambas as fúrias e pedir por perdão, rezando para que a morte fosse rápida e indolor. nesse momento de fraqueza suprema, quando nenhuma conclusão parecia se aproximar e os ciclos não davam indicação de que se desligariam em um futuro próximo, jomo/joca conheceu sua resposta. joão moura, casado há dez anos com maria cláudia e há três com maria cristina, surpreendeu a si mesmo ao perceber que não teria outra solução - casou-se pela terceira vez.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

sobre coisas não ditas

queria poder escrever uma história bonita, reconfortante e calorosa. infelizmente, o único calor gerado no relato a seguir vem dos cigarros acesos por tiago, um após o outro, alguns até ao mesmo tempo.

você talvez consiga imaginá-lo com uma jaqueta de couro com a gola virada para cima, camisa xadrez e barba por fazer, mas a verdade é que ele lhe surpreenderia. tiago era, na verdade, um camarada dos mais sem graça. estava sentado na beirada da janela de seu quarto no apartamento 607, com uma velha camisa branca gasta enfiada pra dentro da calça cor de burro quando foge, barba feita pela manhã e cabelo preto e quadrado. era a velha e clichê imagem do jovem que parece mais velho do que realmente é, sentado no parapeito à noite com apenas a luz da lua inundando seu quarto e aquele pontinho luminoso do cigarro flutuando na semi-escuridão. a iluminação branca refletia em seus óculos que, por sua vez, refletiam no vidro, formando um tedioso círculo vicioso.

lá estava ele sentado, pensando em tudo, mas quase adormecido e não conseguindo se concentrar em nada. foi quando veio a imagem de uma lembrança de uma vida tão distante que mais parecia sonho. isso mesmo, a imagem de uma lembrança de uma vida. pode parecer confuso, mas esforce-se que conseguirá entender o que digo.

não era uma lembrança propriamente dita, era como uma foto, um frame de memória, congelada e imóvel. no entanto, por mais que nada se movesse, era possível experimentar cada aroma e ouvir cada som daquela cena de uma maneira que era vívida demais para ter sido apenas um sonho.

e sonho definitivamente não o era, pois ele se lembrava que, um dia, aquilo realmente acontecera. de certa forma, acontecera por anos, numa rotina diária que raramente era interrompida. e não havia acontecido há tanto tempo atrás, apesar de parecer ser outra vida.

ali, naquela imagem, tiago se reconhecia na figura do rapaz abraçado na cama a uma jovem mulher de não mais de 17 anos. ele conseguia ver a si mesmo segurando com a força de alguém que não pretende soltar nunca mais, sentia borbulhar novamente aquelas emoções há muito esquecidas, se entregava àquele perfume que por tanto tempo infestou seu travesseiro, mas não conseguia se colocar naquele lugar, naquela cama, com aquela guria.

e haviam se passado apenas cinco anos.

ele parou então para finalmente se concentrar naquele momento em que uma vida deixou de existir para dar lugar a outra. em que o antigo tiago se despediu do mundo e apresentou o novo. a noite em que tiago, o primeiro, não disse nada.

ela gritava, jogava coisas pelo quarto. no presente, aquele jovem sentado na janela conseguia ver onde sua edição original de 1984 caía, próxima ao pé da cama, e contava em quantos pedaços havia se despedaçado seu abajur azul marinho, presente de sua mãe. naquela noite, ele também apenas olhava, mas atônito. havia sido pego de surpresa e ainda não conseguira se recuperar do baque. tinham terminado há duas noites, mas ela ainda não devolvera as chaves do apartamento.

ele havia tomado a iniciativa em terminar, apesar de ainda sustentar sentimentos que alguns podem chamar de amor. o relacionamento entre os dois já se desgastava há alguns meses e, apesar dos momentos de paz após o sexo, logo acabavam se lembrando de tudo que não toleravam um no outro. ele gostava de acreditar que era o mais forte entre os dois, o mais maduro. logo, se alguém teria de tomar uma atitude não seria ela.

mesmo em uma relação que resistia apenas pela inércia, o fim não foi dos melhores. ele falou que a amava, mas que era melhor dar um tempo, pensar melhor nas coisas. ela, a princípio, ficou enraivecida, xingou, gritou, esbofeteou até acabar arrependida. dizia que iria mudar, que os dois poderiam sobreviver, mas ele se manteve irredutível.

no dia seguinte, ela o procurara, queria conversar, reatar, transar até tudo aquilo ficar pra trás, mas encontrou um tiago diferente do que aquele que conhecia. ainda não era o segundo, mas já tentava ser. obviamente, para ele não era a coisa mais fácil a se fazer. queria com todas as forças sofrer essa transformação, pobre coitado, mas seres humanos não podem apenas fabricar casulos para saírem novos.

ele precisava de um empurrão, um combustível, um reagente que o fizesse abandonar de vez a outra vida. ela veio na forma de uma força feminina irresistível que abriu a porta de seu apartamento de um só vez e indagou a plenos pulmões: "a minha amiga, seu filho da puta?".

em seu quarto, cinco anos depois, ele desejava ter conseguido responder alguma coisa. pensando agora, preferia até ter mentido, continuado naquela outra vida, aquela que parecia apenas um sonho.

gostaria de ter dito que não, que era coisa da cabeça dela, que jamais havia nem tocado em outra mulher, mas aquela era sua chance de mudar, de fugir, de se tornar outro. ele observava, em seu sétimo cigarro, seu semblante mais jovem mudo, sem saber o que dizer, enquanto seu quarto era revirado pela fúria de uma vida passada, que, após tentar com todas as forças se manter viva, finalmente o abandonava.

existem esses momentos nas histórias das pessoas. instantes em que você pode ir para a balada ou estudar mais um pouco; voltar para casa dirigindo ou tomar mais um whisky; pegar o telefone para pedir uma pizza ou perdão; correr ou ficar na chuva; esquerda ou direita. nós os vivemos diariamente. toda hora uma vida se desfaz para dar lugar a outra. no entanto, poucas são as ocorrências assim tão claras.

tiago se deu conta disso ao acender o nono cigarro. o novo tiago, pelo menos. este aqui que vos fala, que habita uma mente quase adormecida há pouco menos de cinco anos, percebeu isso enquanto ficava calado e pode dizer: hoje nós dois gostaríamos de ter dito alguma coisa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

sobre o homem que tinha amigos demais

entre os corredores, alunos e funcionários da universidade albuquerque, localizada na zona oeste de são paulo, existia apenas uma unanimidade: rambo nogueira era o ser humano mais amigável que já havia frequentado aquela nobre instituição de ensino superior. apesar do nome, rambo tinha tamanho poder cativante que, mesmo cinco anos após sua formatura, ainda existiam dezenas que garantiam ser alguns de seus amigos mais íntimos, não lhe poupando elogios. obviamente que existiam aqueles mal intencionados que apenas queriam pegar carona no mítico carisma do veterano, mas a grande maioria enchia suas bocas de sinceridades ao falar da amizade.

rambo passava pela puberdade quando percebeu o poder que exercia sobre as outras pessoas. sempre tivera amigos, mas, repentinamente, todos pareciam querer lhe fazer favores, dar-lhe uma mão, ajudar como pudessem. claro que isso implicava em expectativas de reciprocidade, como acontece em qualquer relação afetiva platônica. mas isso não era nada.

o porteiro tomou súbito interesse em sua vida e, curiosamente, passou a lhe contar todos os detalhes de suas últimas conquistas amorosas no bailão. a professora de história tolerava seus atrasos na entrega de trabalhos, fazia vista grossa para as breves adormecidas durante a aula. até seu cachorro, que sempre preferira seu irmão mais novo, agora ficava à porta esperando seu retorno da escola, com o par de chinelos do dono na boca.

rambo era amigos de todos, e todos o amavam. e ele odiava isso. não suportava tamanho carinho e atenção, queria gritar a cada sorriso compreensivo. desejava, acima de tudo, fugir desesperadamente de cada indivíduo que, apesar do nome lhe ser desconhecido, o cumprimentava não com um aperto de mão, mas com um abraço apertado.

seus amigos de verdade, aqueles que já o conheciam antes da estranha maldição ser lançada, se divertiam com a situação. observaram, em primeira mão, a evolução gradual de rambo para um dos seres mais agressivos que já caminharam sobre este planeta. e gargalhavam com isso.

logo, a saudação do jovem não passava de um grunhido e o seu nome do meio passava a ser sarcasmo. a cada palavra de incentivo, a resposta era um palavrão - de fato, foram tantos ao longo dos anos que muitos nem existiam ainda. hoje, habitam as páginas de qualquer dicionário informal. mesmo assim, seu carisma perdurava. as pessoas acreditavam que aquele era apenas o jeito dele. e aquele era um jeito divertidíssimo.

"ahahaha! tá certo, bambão! eu enfio esse desenho assim que você me disser se a perspectiva está real ou não... o que?? parece a minha mãe fazendo o que?? porra! não é que tu tá certo? valeu, bambão! sabe tudo, moleque!" - enquanto isso, rambo agonizava.

para piorar seu humor, que já não era dos melhores, rambo, aos 25 anos, nunca tinha conseguido dar uma trepada. aliás, beijo mesmo, só roubado. de amigas. "aaah, bambo. claro que eu vou ao cinema contigo. não, é sério! eu adoraria! qual filme? não importa! faz tempo que eu queria sair com você, mesmo... ah, que ótimo! vou levar o carlos, assim você me diz se aprova o namoro e...".

o lado bom, que ao menos o acalentava, era que esse seu poder o fizera escalar rapidamente os degraus do mundo corporativo. em apenas três anos trabalhando no banco américa, era o primeiro funcionário com menos de 30 anos promovido a diretor. seus chefes se encantavam com seu poder de liderança e sua franqueza. o projeto, aquele que tinha 23 pessoas dedicadas exclusivamente a ele nos últimos sete semestres, realmente era uma bosta, um cu sem tamanho. com seu fim, não só pouparam ainda mais tempo, mas também conseguiram cortar todo um setor da folha de pagamento. o jovem era um talento!

considerado um gênio, era a maior prata da casa desde a sua fundação. pelo menos até a tarde de 27 de outubro, em que seu chefe o chamou para uma conversa. rambo estava sendo, infelizmente, desligado da corporação. não, não haveria como poder dar boas referências. ele sentia muito, tinha rambo como um filho, um irmão, até!, mas a diretoria andava preocupada. não acreditavam que o senhor rambo nogueira tivesse a postura necessária para o agressivo mundo das finanças.

rambo estava na rua, com um apartamento de R$700 mil ainda para pagar. o motivo? amigável demais.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sobre o verdadeiro romântico

o verdadeiro romântico demorou a se apaixonar. desde sua puberdade era um romântico, amando sempre a idealização da mulher. assim, o verdadeiro romântico não conseguia encontrar alguém que se encaixasse em seus padrões altíssimos, não conseguia amar apenas uma mulher, quando era apaixonado por todas.

o verdadeiro romântico, não se sabe se por cansaço ou se por estar verdadeiramente interessado, finalmente conheceu alguém e se comprometeu.

o verdadeiro romântico lhe dava flores diariamente, a levava para jantar em lugares dos mais caros e finos, dizia que a amava incondicionalmente, e que ficariam juntos para sempre.

o verdadeiro romântico realmente acreditava em tudo o que dizia. infelizmente, o relacionamento não durou muito tempo. ele ainda amava a perfeição inexistente de sua companheira e, quando a própria, em toda a sua realidade de carne e osso, não conseguiu manter a ilusão, o namoro acabou.

o verdadeiro romântico, no entanto, não se deixou abater por esse contratempo e logo voltou à luta. se envolveu com uma, duas, três, vinte mulheres, algumas simultaneamente. sua gana por encontrar aquele ideal feminino que tivera em mente durante toda a sua adolescência só fazia aumentar e, com isso, acabava por anuviar alguns de seus princípios éticos. não era sua culpa, não podia sê-lo.

o verdadeiro romântico, assim, amava profunda e eternamente todas as mulheres com que se relacionava, que já havia se envolvido, que ainda iria conhecer. talvez fosse por esse motivo que era virtualmente irresistível à maioria da população feminina. enquanto estivesse com uma mulher, ele era todo e completamente seu, apaixonado, devotado. bem, pelo menos até a próxima.

o verdadeiro romântico percebeu esse seu poder. entendeu que sua condição era um verdadeiro afrodisíaco sobre todas as mulheres. como não podia deixar de ser, ele então começou a se aproveitar conscientemente disso. antes que alguém o acuse de insensível, vale lembrar que ele fazia isso não por maldade, mas por um senso próprio de justiça. durante tantos anos, fora um refém da perfeição feminina e, agora, finalmente tinha meios para equilibrar a balança.

o verdadeiro romântico não se continha mais. desejava e possuía todas as mulheres que cruzavam seu caminho e elas não pareciam se importar muito. algumas reclamavam, outras exigiam exclusividade, poucas batiam o pé e brigavam por seu amor.

finalmente, a verdade caiu como uma pedra sobre sua cabeça. depois de tanto tempo, de tanta idealização e amor, o verdadeiro romântico era um verdadeiro canalha.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sobre o som que habita o silêncio

fiquei observando-o ali, sentado no fundo do ônibus, aparentemente imóvel. apenas um olhar mais atento para perceber que seu coma era uma farsa. os dedos se moviam sutil e lentamente, acompanhando o ritmo da música que era emitida por seus fones de ouvido.

desde a primeira vez que saíra de casa com as próprias pernas, tinha sempre posicionado em sua cabeça o par de aparelhos auriculares. ganhara um walkman de seu pai ao completar três anos, com uma fita cassete da dupla sandy & júnior. não conseguia desgrudar do aparelho. ia à escola, ao treino de futebol nas manhãs dos sábados, ao supermercado com sua mãe, invariavelmente com os fones ligados.

assim, crescera. e, mesmo que o aparelho mudasse (de um walkman para um moderno Ipod) e a música nele contida (os filhos de xororó, ou chitãozinho, sei lá, não mais lhe apeteciam, como era de se esperar) o cenário era o mesmo. enquanto estivesse em movimento, nas ruas ou em lugares fechados, tinha seus companheiros sonoros conectados quase diretamente a seu próprio cérebro. já virara uma rotina. ao sair de casa pegava carteira com documentos e dinheiro, relógio, chaves e sua música.

ao contrário do que poderia se supor, tinha uma vida normal. o colégio, vivia sempre rodeado de amigos. conhecera sua parte de interesses amorosos. a preocupação inicial dos pais, que viam o filho se desligar do mundo ao sair de casa, passara com os relatos de diretoras e professores de que seu filho nutria uma relação social saudável - até mesmo invejável - com as pessoas ao seu redor. claro que o fato de que, em muitas vezes, os fones estarem posicionados em suas orelhas até durante as aulas causou certa apreensão, mas suas notas não apresentavam motivos para suspeitas.

sem maiores contratempos teria sido sua vida até aquele momento em que eu o observava no ônibus. o forte transe que o mantinha desligado do mundo por mais de vinte minutos pareceu cessar de súbito. de repente, aquele jovem e tranquilo garoto, mais novo do que eu por não mais do que quatro anos, apresentava uma exasperante inquietação. inicialmente, procurou manter a calma, examinando minuciosamente seu aparelho de armazenamento musical. sem encontrar respostas satisfatórias, passou a investigar seus antigos companheiros, os fones. quem o observasse naquele momento podia perceber, estampada em sua cara, que suas suspeitas se confirmavam: estavam quebrados, algo no fio, provavelmente. sua angústia era aparente, mas não havia nada que pudesse fazer ali, naquele momento. então, após praguejar e soltar algumas palavras de baixo calão por alguns segundos, finalmente pareceu resignar-se a completar aquela viagem em um silêncio desconhecido por anos.

o problema maior, no entanto, não era o silêncio. na verdade, o silêncio nem ao menos existia. subitamente, sua mente era inundada por vozes desordenadas e confusas, que gritavam milhares de sentenças por segundo. vozes que não pertenciam a terceiros, sentados nos bancos ao redor ou de pé no corredor, mas sim a seus próprios pensamentos. pela primeira vez em sua vida como ser humano pensante e inteligente aquele jovem se via obrigado a conviver consigo mesmo, pela primeira vez se deparava verdadeiramente com sua própria vida.

o jovem poderia ter experimentado um período sem música, sem fones, apenas com seus pensamentos. em uma semana, já teria vivido mais do que o resto de sua vida inteira, imerso em ciclos de pensamentos que nunca havia aprendido a organizar, soterrado por seus próprios erros e acertos, atacado constantemente pelas palavras que nunca dissera, pelas brigas que não havia tido. ele poderia, mas, se tivesse de apostar, diria que não foi isso que aconteceu.

chegando em casa, depois de se deparar com uma vida inteira que tinha pela frente, o rapaz chegou a conclusão que teria de fazer o que fosse necessário para que aquela situação nunca mais acontecesse. como poderia ter chegado até aquele momento sem nunca ter se confrontado daquela forma?

no dia seguinte, comprou novos fones de ouvido. novos e vários. tantos, para nunca tivesse que passar por aquilo novamente.

domingo, 28 de dezembro de 2008

sobre a estranha situação do elefante

seu nome era joaquim garbusco, mas ele também era conhecido como "pavio". não mentirei para vocês, ele era assim chamado por um único motivo: eu o quis dessa forma.
como autor, locutor e genioso por natureza, sinto que é meu dever avisá-los de antemão: minha vontade será magnânima e a explicação para diversos eventos bizarros que acontecerão nas próximas linhas. outro dia mesmo, eu analisava, sabe-se lá deus por quê, a palavra "pavio" e decidi que seria um apelido peculiar para alguém. como alguém eu não poderia criar, decidi escrever um breve conto sobre o jovem joaquim, estudante e preguiçoso, apelidado de pavio. talvez sua mãe tenha o chamado assim por algum motivo obscuro, talvez tenha sido algum amigo malicioso, o fato é que eu não me importo.
pavio acordou certa manhã e observou que havia algo de errado com seu quarto, algo que não se encaixava à habitual paisagem composta por seu guarda-roupas bege, sua escrivaninha de compensado e seus pôsteres de filmes coreanos. o objeto que distoava do mundano era um enorme elefante acinzentado que comia tranquilamente o que parecia ser um bambu. tudo bem, não era um objeto, era mais um gigantesco paquiderme com olhar tolo e despreocupado.
pavio não sabia como lidar com esta situação. quero dizer, o que haveria alguém de fazer ao acordar e se deparar com um elefante em seu quarto? por um breve tempo, pavio e o animal se encararam e se analisaram à distância, sem imaginar que tudo isso era a mais pura obra de um autor frustrado e insône, que decidira tomar mais uma taça de vinho antes de se retirar aos seus próprios aposentos.
infelizmente, a taça de vinho (periquita, português, tinto seco. recomendo, aliás) acabara, e deixara o jovem escritor e locutor desse estranho conto em uma sinuca de bico. deveria ele continuar a escrever e se arriscar a um final infeliz e sem sentido ou simplesmente jogar a toalha a admitir que toda essa situação, todas estas palavras não passaram de um capricho seu, uma simples desculpa para escrever sobre um personagem conhecido como pavio que acordou certa manhã com um elefante em seu quarto?
sim, talvez a segunda opção pareça mais tentadora aqui, colocada em palavras. sim, acho que esse conto realmente foi apenas para a realização de um desejo incomum. na verdade, esse conto não era nada demais, mal tinha um começo, não deve merecer um fim. na verdade, e cito luís fernando veríssimo agora, este conto termina aqui.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

sobre segundos de euforia

na última vez em que assisti a uma corrida inteira de fórmula 1, do ínicio ao fim, airton senna morreu. lembro de poucas coisas da ocasião. na verdade, acho que só me lembro realmente de alguma coisa, qualquer que seja, porque foi nesse dia em que vi meu avô chorando pela primeira vez.

neste domingo, anos depois, acabei acompanhando o gp de interlagos. não sei bem o que foi. nunca fui um grande entusiasta do automobilismo. talvez fosse a torcida dos meus amigos e do resto do país, talvez fosse porque eu realmente simpatizo com felipe massa, o zacarias da ferrari. de qualquer forma, às 15 horas, lá estava eu defronte ao televisor.

a corrida começou morna e logo se tornou entediante como sempre. tive de resistir bravamente à tentação de mudar de canal, mas confesso que fui me distraindo com outras coisas, apesar de manter a tv sintonizada. acho que o fato de não ter mais nada que preste nos canais abertos aos domingos (tudo bem, talvez não só aos domingos) tenha sido um forte motivador a manter-me firme.

massa foi o líder do campeonato por alguns instantes, é verdade, mas eu sabia que aquilo não duraria. nenhum outro motor tinha potência para rivalizar com os da ferrari e da mclaren. havia apenas um fator que poderia dar o título ao brasileiro: o talento individual dos pilotos. infelizmente, eu sabia que não havia tanto talento para garantir a colocação de hamilton atrás o suficiente.

deus, como é bom às vezes estar enganado. foi assim que, faltando apenas duas voltas para o fim, vettel, alemão que já não tinha nenhuma chance ao título, parte para cima do inglês e dá o campeonato a felipe massa. nesse momento eu já estava na beira do assento, praticamente de pé, rezando para todas as divindades que conheço, e até a algumas inventadas, só para garantir.

o brasileiro, depois de liderar desde o começo a corrida, cruza a linha de chegada campeão do campeonato. tudo o que havia para fazer tinha sido feito. o impossível tinha se transformado em possível e o país verde-amarelo era então vermelho.

até a penúltima curva da última volta. quis o destino que o jovem piloto da escuderia italiana não conhecesse a vitória. não neste ano, pelo menos. timo glock, com pneus para pista seca, não conseguia tração suficiente para manter sua quarta posição debaixo da chuva que caía sobre interlagos. assim, com a curva, nada pôde fazer para impedir a ultrapassagem de sabastian vettel, seguido por, sim, senhoras e senhores, lewis hamilton.

a inglaterra conseguia um novo campeão depois de doze anos. o brasil perdia o seu.

acho que não trago muita sorte ao automobilismo brasileiro. pensando bem, não temos tido muita sorte mesmo nesse tempo em que passei ausente.

deveria acompanhar o campeonato no ano que vem?

a verdade é que eu buscava manter minha confiança baixa antes da corrida simplesmente pelo medo de não me decepcionar. fazemos muito disso, todos os dias. aliás, estamos tão acostumados que já nem percebemos. deve ser algo da natureza humana, sei lá. por alguns segundos, na última volta, na última reta, eu me permiti acreditar, gritar, festejar. está certo que a decepção veio, forte e ligeira, deixando-me atordoado, até mesmo atônito por alguns minutos. minha mente processava o que havia acontecido, meus olhos haviam sido testemunhas da ultrapassagem derradeira e, mesmo assim, meu coração relutava em ceder à lógica. sim, a decepção e a tristeza foram grandes. mas não troco o que senti naqueles poucos segundos de euforia por muitas coisas nessa vida. ao medo, então? nunca mais.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

sobre as três partes envolvidas

na entrada, ele pensa.
ela me obrigou a vir à tal peça.
eu nem queria, mas tive de vir. sabe como é, um agrado aqui, outro acolá, e se consegue uma semana de sossego. ir ao teatro com ela deve me garantir alguns dias sem lavar a louça.
pessoas empoladas por todos os lados. tenho certeza de que ouvi o casaco de alguma madame rosnando para mim. odeio colocar terno. odeio colocar gravata. odeio, acima de tudo, colocar esses malditos sapatos velhos. tudo bem, é tudo pelo direito de colocar os pés cansados em cima da mesinha de café da sala.
com licença, com licença. desculpe senhor, esses são os nossos lugares. não, veja. bem aqui, no bilhete. o quê? fileira H? oh, perdão. com licença, com licença.
com licença, com licença. finalmente. não sei como a deixo me convencer a vir a essas peças. se eu tivesse que tropeçar em mais alguma barriga, surtaria. não mande eu me calar. estou falando baixo! "shhhh" o quê?! ah, perdão.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!
na coxia, o diretor se desespera.
maldição! tentemos mais uma vez.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!!!
vamos, tente! não é possível que não haja ninguém no público com o maldito celular ligado. vamos, alguma musiquinha do gás, algum funk que seja! pelo menos aquele clássico "atende o telemóvel". de que adiantou todo aquele trabalho de pegar os números dos celulares de todos os que compraram os ingressos para ninguém atender?
e agora? a peça inteira era baseada nessa premissa. sempre tem de haver algum mal-educado que esquece o celular ligado.
ô, minha filha, continua tentando! continua tentando, senão é melhor cancelarmos agora toda essa porcaria!
no bolso, o celular luta para se controlar.
ah, não. agora não. por favor. tinha de ser agora?
toda vez que vamos ao cinema, ao teatro, a algum recital de poesia, esse infeliz esquece de me desligar ou deixar no silencioso, e toda vez alguém liga. ele não aprende nunca? maldito seja! estou cansado de passar vergonha, de ser xingado e vaiado. como se fosse eu o sem educação!
o que posso fazer? oh, deus! mais alguns toques e eu não aguentarei mais. a vontade é muito forte!
não vou, não posso, não quero.
não vou, não quero, não posso.
não posso, não quero, não vou!
ai, mas a natureza é muito forte. fui feito para isso! quem será o desgraçado ligando bem a essa hora? puxa vida, já são 11 horas da noite, isso não é hora para se ligar para alguém. deve ser a amante desse infeliz. sempre ligando nos momentos mais inoportunos. desiste, sua vaca!
não, o telefone é desconhecido. de certo, a oferecida está ligando de algum outro lugar. por que ela não desiste?
daqui a pouco começo a tremer. se isso acontecer, não resistirei mais, gritarei a plenos pulmões! filho-da-mãe, custava ter me desligado? não, não custava!
já sei, mandarei tudo às favas e chutarei minha bateria. isso, resolvo meu próprio problema. a partir de hoje, não dependerei mais desse imbecil que nem consegue seguir as regras básicas da etiqueta.
deixe-me ver, deixe-me ver. isso. aqui. só um chutinho, agora... foi.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

sobre o bolinho de atum

o bolinho de atum não gostava de ser o que era.
pudera, tinha uma vida entediante. uma vida de bolinho de atum.
o que se pode esperar do cotidiano de um bolinho de atum? se você pensou em "nada", parabéns, você está correto. envie-nos seu endereço por e-mail e aguarde por prêmios maravilhosos.
sua vida era entediante, pois o bolinho de atum era um ser inanimado. há quem diga até que um bolinho de atum não chega nem a ser um "ser", sendo apenas "comida". engana-se. pelo menos este bolinho de atum de quem falo é muito mais do que comida. é um ser entediado, aborrecido, um tanto genioso, com baixa auto-estima e uma personalidade apática.
não bastasse ser um bolinho de atum, é também um bolinho de atum cuja receita contém cebola. e o tal bolinho de atum odeia cebola, mesmo que seja parte de quem é. apesar de lhe dar sabor e um certo tempero, o bolinho de atum acredita que a cebola azeda-lhe a vida. de certa forma, não podemos lhe tirar a razão. por que não podemos? bem, nem eu, e acredito que nem você, que está a ler esta história, somos bolinhos de atum, não chegando nem a pertencer ao fabuloso grupo que constitui os bolinhos mais diversos existentes neste planeta. assim, não podemos sequer imaginar o que se passa na mente de um bolinho de atum.
o bolinho de atum também sofre. sofre por ter sido separado, ainda na infância, de seus irmãos, sabe, os outros bolinhos de atum que cresceram ao seu lado no forno. sofre também por ser ignorado por todos, esquecido em cima da bancada como um objeto qualquer. esse tipo de coisa pode causar profundas sequelas na confiança de um bolinho de atum. e assim esse nosso bolinho de atum foi ficando frio, duro, amargo, marcado pelo tempo e pelos duros golpes que a vida nos dá.
é, é difícil essa vida de bolinho de atum.
não bastasse ter sido esquecido e jogado pra escanteio como um qualquer, o bolinho de atum ainda tem que aguentar as próprias incertezas e dilemas que atravessa. pelo menos tais dúvidas não durarão muito tempo na mente do bolinho de atum. durarão somente, e tão somente, até ouvir um miado esfomeado ao seu lado.
e agora o bolinho de atum não existe mais, não pensa mais, não se amargura mais. foi comido pelo gato de estimação da quituteira que o fizera.
pobre bolinho de atum. depois de tanto tempo lidando com sua pobre condição de bolinho de atum, acabou depositado em uma caixa de areia qualquer, expelido pelo felino que o atacara sem piedade.
mas não se preocupe pelo nosso herói. claro, o bolinho de atum era religioso. budista, para dizer a verdade, e acreditava em reencarnação. talvez essa sua vida que acabou de acabar fosse apenas um momento de expiação, uma fase na qual tinha de aprender a lidar com o fato de ser um reles bolinho de atum.
quem sabe, em sua próxima encarnação, não volte como algo superior?
quem sabe talvez não volte como um nutritivo bolinho de chuchu?
quem sabe ele volte como um bolinho de chocolate, sempre disputado por todos, espalhando sorrisos nas faces das crianças e ajudando a espantar as tristezas do universo feminino?
quem sabe - e digo isso com toda a fé que eu tinha no humilde bolinho de atum, confesso que aprendi a amá-lo como a um filho - volte até como algo mais do que um bolinho? um suflê, por exemplo.
fico na torcida, e espero que vocês se unam a mim em minhas preces pelo futuro incerto daquilo que outrora fora um bolinho de atum.

porque, afinal, quem sabe?

terça-feira, 13 de maio de 2008

sobre juras de amor eterno

durante a ligação, ele fazia juras de amor.
"mas eu te amo, pô! será que só você não vê isso? fomos feitos um para outro! eu quero passar o resto da minha vida contigo, guria! quero acordar ao teu lado. quero fazer juras de amor eterno. quero ter filhos, netos, bisnetos. quero te chamar de 'minha fofuchinha'. quero fazer amor contigo. quero ser a azeitona da sua empada, poxa! só de ouvir tua voz, vi que era pra sempre. nunca me senti assim por alguém antes. sou teu escravo, teu criado! não consigo pensar em mais ninguém. para mim, nem existe mais alguém neste universo! só você. tu és tudo, minha amada!"
do outro lado da linha, ela se desesperava, tentava mudar de assunto, mas ele continuava.
"vamos fugir? a gente desliga, eu ligo pro meu chefe, mando ele à merda e a gente foge. juntos. compramos uma fazenda no interior do amapá, estocamos vinho tinto e comida enlatada, e só saímos depois de três meses de sexo animal e apaixonado! vai, diz que sim. diz que sim, senão eu me mato. não estou brincando. subo nesta cadeira, amarro meus cadarços ao redor do meu pescoço e pulo. hein? eu falei que pulo! PU-LO! essa ligação... não, não precisa chamar a polícia. você sabe que eu não tava falando sério. pelo menos não se você aceitar fugir comigo. pára de me tratar assim, com tanta frieza, tanta formalidade! você sabe meu nome, está cansada de saber. isso, assim tá melhor. ai... fala de novo. isso, me chama de 'senhor manuel'. isso. assim eu fico louco! você sabe disso. casa comigo. vou ligar pro teu pai e pedir tua mão em casamento. não, nem tente me convencer de que é loucura. sou louco, sim. louco por você! por que você não se rende a isso? é o destino! somos almas gêmeas. eu nasci pra você, e você nasceu pra mim! não acredita que todos já nascemos predestinados e ficar com alguém? pois eu acredito. e você é minha. nunca tive mais certeza sobre coisa alguma. minha vida andava tão sem rumo, tão sem sentido. até que eu te conheci. melhor dia da minha vi...alô?? tá aí ainda? ufa... você ficou quieta por tanto tempo que eu achei que pudesse ter desligado."
ela realmente pensava em desligar. não aguentava mais.
"e, se você tivesse desligado, acho que eu não reagiria bem. esperei por tanto tempo para te encontrar... enfiaria a cabeça no forno e deixaria o gás fazer o resto. mas deixemos tudo isso pra lá. falemos de nós. como se chamarão nossos filhos? quero ter quatro. um guri, duas gêmeazinhas lindas e outro gurizinho. posso até imaginar o cachorro tomé entrando pela casa todo coberto de lama e você gritando com ele. você grita com o pobre tomé, mas o ama. você ama o tomé, não ama? e quanto a mim? você me ama?"
ela já desistira. faria a vontade dele. esse era seu plano.
"AMA??? meu deus, quanta felicidade. voce não se arrependerá! farei de ti a mulher mais feliz do mundo! faz o seguinte: desliga o telefone, fala com teu chefe, pede as contas e me encontra às dez na rodoviária de malas prontas. vamos hoje mesmo lá praquela fazenda no amapá. eu te amo, meu amor. até logo, já estou com saudades!"
ela não podia acreditar. pela primeira vez, o toque de desligado soava como as notas tiradas de harpas por pequenas mãos angelicais. olhou para o relógio pendurado na parede. ele ainda apontava para as 15 horas. para o inferno com isso! pediria demissão imediatamente. não que fosse se mudar para o amapá com aquele maluco. sua mãe bem que lhe dissera para estudar mais e virar advogada. ou médica! mas não... tinha de ser teimosa, brigar com os pais, sair de casa. aquela fora a situação mais louca na qual se envolvera em toda sua vida. não queria mais saber de telefone, não queria mais saber de seu trabalho. se levantou, trêmula, e foi em direção à sala do patrão, jurando a si mesma que nunca mais aceitaria um emprego como atendente de telemarketing.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

sobre talita viana

atirou os documentos na parede e gritou:
- eu não aguento mais isso!
a gata, gorda desde que era filhote, tomou um susto e desceu do ármario, preparada para a bronca. felizmente, o problema não era ela.
caio morava sozinho num pequeno apartamento. bem, sozinho mesmo, não. havia a gata.
as folhas ainda voavam pela sala quando percebeu que não havia mais ninguém ali, com excessão do felino obeso que atendia pela alcunha de talita viana. ele sabia que esse não era um nome comum a animais de estimação, sua mãe e sua ex-namorada já haviam lhe alertado quanto a isso, mas o bicho realmente tinha cara de talita viana, parecia gostar do nome dado.
- desculpem, caras. fica pra outro dia. tenho que voltar para casa. vocês sabem, talita não consegue se virar sozinha. - de fato, ela não conseguia. era apenas uma gata gorda. no entanto, os 'caras' não faziam idéia. era menos humilhante fingir que tinha alguém esperando em casa do que apenas dizer que não tinha saco para ficar no bar até altas horas, tomando cerveja e trocando conversa pequena. também era menos patético que esse alguém fosse uma mulher, e não um simples animal.
nenhum dos colegas de trabalho jamais havia conhecido o apartamento de caio. ele sempre tomara o cuidado para não deixar nenhuma espécie de convite no ar.
- pô, mais tarde passo na tua casa, quero te mostrar um disco fodido da rita lee que eu comprei. coisa rara. curtes rita lee?
- curto, curto. infelizmente, hoje não é um dia bom pra mim... - e era isso. nada de "quem sabe outro dia" ou "fica pra próxima". caio não podia entregar que era um farsante.
no trabalho, era conhecido como um cara de família. um exemplo da velha guarda. um gentleman, por assim dizer. depois do trabalho, nada de esticar a conversa no boteco da esquina. tinha de voltar para casa, voltar para a sua talita. ironicamente, por se passar por uma espécie em extinção, caio era admirado. não tinha amigos próximos, ou até mesmo amigos distantes. mas tinha admiradores.
de qualquer forma, a farsa não duraria para sempre. e ele sabia disso. começara a trabalhar na repartição há distantes dez anos e desde então conseguia manter a ilusão funcionando. com a passagem dos anos, no entanto, começara a perder o sono. tinha horríveis pesadelos com uma talita gigantescamente deformada, gorda, destroçando as pessoas no escritório. ninguém corria, apenas se entregavam à sua bocarra gritando: "eu sabia que era mentira! mentirosooooooooo!...".
com o fim das noites de sono, tinha começado a delirar acordado. certa vez, seu chefe de calças cáqui e careca lustrosa entrou em seu escritório agarrado a um cipó, lhe oferecendo um cacho de virgens e um estoque para a vida toda de areia para gatos.
foi num desses delírios que caio atirou as dinamites que tinha nas mãos para matar a salsicha sambista com chapéu côco que se arrastava pela parede de sua sala. vendo as contas sendo levadas pelo vento da janela aberta e da chuva que não demoraria a cair, teve consciência de que não conseguiria segurar. tinha atingido o limite.
não aguentava mais a pressão de suas mentiras. não tolerava mais o peso da vida falsa que apresentava no trabalho. no dia seguinte, levaria talita viana ao trabalho, vestida como ele sempre a vestira, com um gorrinho de lã azul com dois cordões que serviam para amarrar abaixo do queixo e um suéter laranja, que combinava com as listras de suas patas, preparado para a humilhação total.
- isso, amanhã é o dia, talita. amanhã você conhecerá a todos do escritório. seja boazinha com eles, sim? tenho certeza que eles lhe parecerão hostis à primeira vista, enquanto jogam o café quente e as rosquinhas em mim, mas não se preocupe comigo. eu mereço.
talita o observava desde que começaram a morar juntos. tinha visto quando ele chegara em casa animado com o novo emprego e quando começou a perder o sono e a ter alucinações. nada disso lhe dizia muita coisa. ele lhe dava comida, lhe dava almofadas fofas e trocava a areia. acima de tudo, nunca lhe enchia muito o saco quando subia em cima do armário, seu lugar preferido.
enfim, caio bastos era um ótimo animal de estimação.
bocejou e balançou a cabeça afirmativamente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

sobre cigarros, solidão, tiros, propostas e inocentes

dois amigos em algum bar da vida, por aí, deus sabe onde. conversam sobre suas marcas de cigarro prediletas. queria eu conhecer metade delas. atrás do balcão, um homem com um avental que um dia, não tenho certeza, já fora branco e com os cabelos ficando ralos, puxados para trás, bem apertados num elástico que forma um rabo-de-cavalo daqueles que só se vê nos piores botecos (ou nos melhores salões de beleza). a oleosidade flutua pelo ar como uma entidade, não se sabe se vinda da gordura usada para fritar as batatas ou se do próprio rabo-de-cavalo do homem de avental. um jogo de futebol qualquer passa na pequena televisão posicionada acima da geladeira. na mesa localizada entre os dois amigos, uma garrafa da mais fina cerveja servida no local e dois copos, cheios pela metade.
no entanto, menti quando disse que era um bar. na verdade, era um belíssimo restaurante localizado no bairro mais afortunado da cidade. menti também quando disse que eram dois os que conversavam. era um só e se mantia calado, quieto, mergulhado na própria instrospecção. logo, seria estranho se houvesse dois copos à sua frente. esse único copo não estava cheio de cerveja, e sim de vinho, o mais barato servido no estabelecimento. a oleosidade, no entanto, era a mesma, que podia vir tanto da cozinha quanto do rabo-de-cavalo do garçom, um homem ainda moço, com longos cabelos negros unidos suavemente num elástico que lhe dava um quê francês se unido ao bigode fino sobre seus lábios e vestindo um avental de brancura tão intensa que podia ser comparada apenas à de seus dentes. no telão, localizado à esquerda do homem calado, passavam as notícias do dia.
de súbito, tiros. o homem agora era três, que conversavam animadamente até ter a discussão interrompida pelos disparos, felizmente saídos do cano de um .38 que se encontrava do outro lado de uma bela tela de plasma do aparelho televisor do local. recompostos do susto, chamaram a franzina garçonete alemã da cantina italiana em que se encontravam e pediram, de sobremesa, uma torta holandesa. aproveitaram também para pedir que a moça, com seus curtos cabelos tão claros que pareciam com o branco do avental que usava, enchesse novamente suas xícaras com café.
ao ouvir o pedido, a jovem não podia entender o que estava acontecendo. se conheciam há tão pouco tempo e ele já lhe propunha em casamento? só podia ser algum louco. afinal, em apenas três meses não dá pra saber com exatidão se a pessoa é normal ou não. isso, era um lunático. mas era um lunático rico, lindo, com olhos verdes e por quem ela estava perdidamente apaixonada. diabos, pensava que aquele jantar à beira do cais era apenas alguma armação dele para conseguir dela o que vinha pedindo desde que haviam começado a dividir a cama. e ela cederia, facilmente. debaixo do vestido comportado, podia sentir a lingerie branquíssima rendada que comprara para a ocasião. tentou ganhar tempo, recuperar o fôlego. ajeitou os cabelos ruivos ondulados que se prendiam em um sensual rabo-de-cavalo. próxima à mesa do casal, a banda continuava seu concerto em cima do palco. ao final da música, palmas calorosas. no entanto, o pretendente continuava a esperar sua resposta.
suando, podia sentir suas unhas se enfincando nas palmas das próprias mãos. sempre fazia isso quando estava nervoso. a resposta daquela mulher era o momento crucial de sua vida. olhava ansioso para o relógio, mas mesmo que o ponteiro dos segundos avançasse apenas uma casa, para ele era como se um dia inteiro houvesse passado. pensamentos de culpa e de vergonha inundavam sua mente. talvez tivesse cometido algum erro. talvez não devesse ter feito aquilo, no final das contas! agora era tarde, ela havia se levantado de sua cadeira com uma cara de profunda certeza. "inocente", foi o que disse a jurada número um, e seu rabo-de-cavalo de cabelos tão negros quanto a morte balançou lentamente. um sorriso se estampou na face do acusado, mesmo que continuasse suando. o tribunal entrou num caos de enormes proporções. a grande maioria das pessoas que assistiam ao julgamento, indignadas, protestavam. a mãe das duas meninas que haviam sido vítimas daquele monstro chorava compulsivamente. as câmeras de tv, que haviam acompanhado o julgamento desde o início, procuravam registrar todas as emoções presentes. enquanto o inocentado saía do tribunal por um corredor que os policiais haviam conseguido abrir entre a multidão enfurecida, a oleosidade podia ser sentida fortemente no ar. talvez vinda do próprio homem suado que caminhava solitário pensando na felicidade que tivera. um sujeito grisalho, gordo, vermelho de raiva conseguiu forçar passagem até os policiais. era o marido da mãe que chorava e pai das meninas que haviam deixado a vida.
tiros. desta vez, de verdade.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

sobre páginas em branco

sentado à frente de uma tela em branco, não sabia sobre quais letras repousaria seus dedos.
tivera sempre uma habilidade nata para transcrever a arte da vida em palavras. e tinha um bloqueio.
não era bom em conversas. se enrolava em discursos. corava ao trocar mais que duas sentenças com um desconhecido.
mas escrevendo, ah, escrevendo tinha o mundo em suas mãos. o destino de inúmeros personagens se desenlaçava em sua mente como que por um passe de mágica. sua vida, sua e a de todos aqueles que estavam ao seu redor tomavam forma sob nomes e aparências distintas àquelas da vida real. só assim sentia ter o controle.
só assim, e tinha um bloqueio. a branquidão imensurável da tela a sua frente era uma afronte, um cuspe bem dado em sua face. o monitor zombava dele. não só dele, mas também de toda a sua vida.
a agonia transpirava por seus dedos, posicionados em riste contra o teclado. se este fosse um conto de época, estariam entrelaçados com força contra algum lápis nº2 que fosse. este não é o caso. é um conto moderno sobre um escritor, seu computador e uma vida em branco.
quando havia sido a última vez que lhe acontecera algo desse tipo? não mais que um par de anos atrás. mesmo assim, aquela não tinha representado tamanho fracasso.
pois o bloqueio vinha na hora de sua autobiografia. uma obra aguardada pelos leitores fiéis e ansiada pela crítica. aos 78 anos, era de se esperar que deixasse alguma espécie de legado assinado de sua própria vida.
tudo que via, no entanto, era uma tela em branco. páginas em branco que viriam a representar uma vida vazia. uma vida de livros, e não de ações.
dias, semanas e meses se passavam em branco. sim, sua epopéia contra a máquina e a obra havia começado há muito tempo atrás. a angústia não era de agora. julgava que começara no momento de seu nascimento, mas a memória lhe traía. não era mais um escritor, um autor. era um reles mortal com uma vida gasta em vão.
em vão, não.
finalmente, percebia a beleza de tudo isso.
a beleza de ter uma tela em branco a sua frente, uma tela que poderia refletir quaisquer desejos que desejasse refletir. teria a vida que quisesse, e seria a partir deste momento.
a tela, afinal, podia estar em negro, impossibilitando seu trabalho e inviabilizando que gerações futuras viessem a conhecer a vida que levara em sua mente.
foi com isso em conta que tomou um gole de whisky do copo que se encontrava ao lado do teclado e repousou, pela última vez, o dedo médio sobre a tecla da letra w.
no dia seguinte, a diarista gritou ao achar o corpo do patrão sem vida em frente a um monitor com uma única letra escrita nele, além de sua assinatura padrão, mais abaixo.

"w


C.S."

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

sobre Ray Smith, a essência e a mente da casca de banana

"Tudo é possível. Eu sou Deus, eu sou o Buda, eu sou o imperfeito Ray Smith, tudo ao mesmo tempo, sou o espaço vazio, sou todas as coisas. Tenho todo o tempo do mundo e vida para fazer o que deve ser feito, para fazer o que está feito, para fazer o feito atemporal, infinitamente perfeito em si mesmo, por que chorar, por que se preocupar, perfeito como a essência e a mente da casca de banana."

-Ray Smith, em "Vagabudos Iluminados", de Jack Kerouac