segunda-feira, 10 de agosto de 2009

sobre o leitor que é

as pessoas lêem livros por dois motivos: para somar algum conhecimento às suas existências ou para, por algum momento, fugir delas.

posso afirmar categoricamente que pertenço ao segundo grupo. leio para visitar novos lugares, novas realidades, novas mentes. leio para tudo isso, e acabo me entregando à obra. me transformo no livro que estou lendo, enquanto estivê-lo fazendo. neste período sou autor, história, protagonista, tudo ao mesmo tempo e, como não posso deixar de sê-lo, sou também eu mesmo.

com isso, fica até fácil de identificar o que leio em determinadas épocas. se estou desleixado, cínico e cruelmente realista, sou também henry chinaski de bukowski. caso esteja direto, humanizado e um tanto epopéico, grandes são as chances de estar acompanhando saramago.

às vezes gosto de me aventurar por imaginar o que aconteceria ao ler algo como shakespeare. sou, por natureza, um dramático inveterado e um romântico amador. teria eu o fim em sangue? sei que, quando estou a ler stephen king, me transformo em um ser das sombras, soturno e perturbado, com uma personalidade mutável e volúvel, tal qual o seu palhaço pennywise.

certa vez, eu era james joyce. confuso, elaborado, profundo e nunca terminei de lê-lo. também, com tantas páginas... decidi-me então por ser a existência humana, partindo de um caso único e extrapolando-o para tudo e todos. poderia ser dito que experimentava uma vontade crônica de ser breve. ou talvez que vivia uma vontade breve de ser crônica?

enfim, posso dizer, quem sabe, que sou um leitor vivo, sendo tudo o que leio e lendo tudo o que sou o tempo todo. mesmo que isso mude com a editora ou com o autor.

sábado, 8 de agosto de 2009

sobre o que sempre existirá

sempre existirão garotas que se interessarão por caras exclusivamente por causa de seus carros.

e sempre existirão caras que sabem que seus carros lhes ajudam com essas garotas.

a relação homem/mulher/veículo automotor se vê coberta por uma sombra nefasta. não me entendam mal. essa relação sempre existirá, assim como sempre existiu. no entanto, a modificação e, talvez, modernização dos carros nos últimos anos acabou com uma das maiores lembranças que uma pessoa poderia ter em vida: a de saber e até mesmo conhecer o carro em que foi concebido.

carros que duram anos e anos a fio não existem há, pelo menos, uns 20 anos. ou seja, há toda uma geração, talvez até mesmo duas, que não conhece aquele canto especial no banco traseiro em que, um dia, papai e mamãe se envolveram com tamanho fervor que acabaram por selar uma relação eterna.

sim, caros amigos, houve uma época mais feliz, uma época mais simples, em que os recreios eram momentos de discussões como:

- papai disse que eu fui feito na nossa brasília.

- sério? eu fui feito num gurgel.

- e eu numa mercedes.

- caramba! teu pai era rico?

- não. motorista...

- ah!...

- ...de ônibus.

hoje em dia, não podemos mais testemunhar uma conversa tão pura e, ao mesmo tempo, tão reveladora. quem tem o pai cujo carro está na família há mais de três anos? desvalorização no mercado, flutuações cambiais, modelos 2000, quintas gerações e, acima de tudo, motores vagabundos são os principais motivadores da perda de nosso passado.

pertencemos, meus caros, a uma geração sem ninho, sem um carro-natal, sem uma kombi para para chamar de sua. até hoje, gosto de imaginar que sou fruto daquele uno que me lembro ter andado um dia. enfim, creio que nunca saberei com certeza. sei que nem mesmo meus pais poderão se lembrar qual carro tinham na época. não com tantos kadets, monzas, kas e derivados no caminho a enevoar as memórias.

mesmo assim, se ficarmos no mais absoluto silêncio e aguçarmos bem a audição, poderemos ouvir uma camisinha estourando no banco de trás de algum 206 por aí. lutemos para não ficarmos tristes por mais um que não conhecerá suas origens.

sim, sempre existirão os carros para facilitar a aproximação de interesses entre os sexos. só não existe mais aquele pedaço de passado que tanto alegrou a nossos pais e avós em outros tempos.

aprofundando um pouco e distorcendo um tanto mais, pode-se dizer que, por desconhecermos nosso passado, perdemos um pouco também de nosso futuro. mas talvez isso seja ir um pouco longe demais.

é, isso com certeza seria ir longe demais. honremos os bancos traseiros, então. e respeitemos as caronas.

sábado, 1 de agosto de 2009

sobre a verdade ou sobre uma chupada

confiança é um assunto delicado. como alguém pode se propor a ler um texto sobre o assunto sem confiar no autor?

contudo, há um aspecto dentro de toda a questão envolvendo a confiança que, creio, intriga, ao mesmo tempo em que é comum a todos. que confiança perdida é justificadamente difícil de ser recuperada, ninguém discorda - acho que podemos estabelecer um ponto comum nisto; mas e quando se quebra uma confiança injustificada, algo que nem se sabia existir, algo que você nem ao menos pediu? enfim, é correto ser alvo do ódio da namorada daquele seu amigo apenas porque ela descobriu que, ao contrário do que você - "crápula" - confirmou, ele - "filho da puta" - não estava te ajudando a levar sua avó ao hospital, e sim estava traçando aquela vizinha do sétimo andar vestido de zorro e gritando "hi ho, silver"?

afinal, não era VOCÊ comendo aquela delicinha de mulher em cima da centrífuga; não era VOCÊ o namorado que passara para trás a pobre e ingênua criatura que, pobrezinha, nem merecia tamanho descaso.

na verdade, se havia algum culpado era ELE, que não conseguira manter a mentira, tão bem elaborada pela sua pessoa, de pé. mais que isso, ela devia era ficar orgulhosa de você que, afinal, provara ser um verdadeiro amigo. amigo dele, claro, mas não eram essas as funções estabelecidas no começo da relação?

você, o fiel escudeiro; ela, a jovem e inocente donzela que, futuramente, descobriria que aquele não era seu príncipe encantado.

aliás, pensando a respeito, ela devia era se envergonhar de lhe fazer uma pergunta daquelas - "assim... ele já me traiu? ontem, você saiu com ele?" -, de ter presumido que você deveria dizer a verdade. a ti, coube apenas o seu papel inicial; quem veio a querer mudá-lo fôra ela. como ela se sentiria se um dia você pedisse a ela um boquetinho? assim, nada de mais, só uma língua e coisa e tal. a traição seria a mesma.

na verdade, a traição de um amigo é muito maior que de uma namorada. chifre se perdoa. apunhalada nas costas, jamais.

ou seja, ela deve engolir o orgulho calada, e você deve manter o queixo erguido. a traidora, dentre os dois, era ela. pois, no fim, mais vale uma chupada que dizer a verdade.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

sobre expetativas frustradas

virei a dose de uma só vez e bati o copo na mesa, imitando aquele estilo bem macho. algumas gotas voaram pelo ar e caíram bem em cima do meu caderninho. três, para ser mais exato. limpo com as costas da mão e levanto a cabeça e, ao mesmo tempo em que combato o enjôo ocasionado pela terceira dose de cachaça, dou uma escaneada no bar.

a noite mal começou, o que explica a falta de movimento. o bar escuro dificulta a visão, e a fumaça acumulada de cigarro não é um fator que ajuda. nem as paredes pretas, mas tudo bem. a situação do ambiente é quase a mesma de todas as noites. atrás do balcão, pinguelo seca alguns copos com seu avental amarelado; na mesa do canto esquerdo, alguns jovens barbudos com óculos intelectualóides discutem as velhas verdades universais promovidas pela cerveja e pelo vinho; mais ao fundo estou eu na minha mesa de sempre, aquela que oferece o melhor campo de visão do bar inteiro. somos seis ao todo, e todos os seis se viram para olhar em direção à porta quando ela entra e se senta em um dos bancos próximos ao balcão.

sentada bem à minha frente, não consigo ver o seu rosto. all star branco rabiscado, saia jeans rasgada e uma camiseta justa, branca. mulheres não são comuns por aqui. na verdade, mulheres nunca entram nesse lugar. acho que é por isso que frequentamos esse bar. a liberdade de poder falar alto, arrotar e coçar o saco; o tipo de liberdade que um ambiente livre do sexo feminino proporciona.

logo, como se flutuasse em algum lugar no ar bem acima à minha cabeça, observei enquanto essa figura barriguda de um jornalista de meia idade, vestindo uma camisa branca velha e com algumas manchas de queimadura, se endireitava na minha cadeira. consertei também a postura e limpei rapidamente a mesa, em uma tentativa patética de parecer mais austero. quero dizer, dava pra ver alguns pêlos fugindo por entre os botões, e a minha barriga se dobrava por cima da calça de uma forma um tanto obcena. como melhorar uma imagem dessas?

por cima do balcão, pinguelo acenou pra mim depois de servir à nossa mais nova frequentadora uma dose de whisky. acenei de volta, e nem percebi que ele não estava olhando pra mim. tampouco notei que ela vinha em minha direção.

sentou-se na cadeira vazia da minha mesa e eu então notei que estava correto: de fato, mulheres nunca vêm a esse bar, mas para tudo há uma primeira vez. no entanto, essa não seria uma delas. mulheres não vêm a esse bar, mas talvez meninas... bem, eu tinha, bem ali, à minha frente, um exemplar feminino de não mais que uns 15 anos.

ela abriu a boca para falar e eu pensei "raios, essa merda dá cadeia", mas ela não disse uma só palavra, apenas engoliu todo o resto de bebida em seu copo. levemente corada, ficou me observando por uns cinco minutos e eu, ao invés de incomodado ou constrangido, apenas meditava sobre a situação. aquela era pra ser uma noite como outra qualquer. depois de sair da redação, eu iria ao bar, pediria uma cerveja, três cachaças e um whisky. dois, se o dia tivesse sido puxado demais. depois, ficaria sentado na mesa como sempre, fazendo o velho inventário do expediente, com meu velho caderninho de anotações. o caderninho, pra variar, estaria intacto no momento da chegada, e em frangalhos quando chegasse em casa, levemente embriagado. ao invés disso, ela insistia em ficar ali. ela, aquela menina, que mal saíra da puberdade, me investigando e devorando com os jovens olhos manchados pela maquiagem.

quem seria ela? talvez uma fã, apesar da idade. de vez em quanto eu conseguia vingar uma matéria na capa ou até mesmo uma coluna. não tinha conhecimento de ninguém que acompanhasse ou admirasse meu trabalho, mas tinha certeza de que eles deviam estar por aí, em algum lugar. e agora estava ali, sentada na minha mesa, parecendo toda jovem e serelepe. e eu só pensava que isso podia dar cadeia.

finalmente, ela sorriu incomodamente e, olhando diretamente nos meus olhos, perguntou:

"você é joão eduardo rosa? o jornalista?" - é, meu velho. mais uma vez, seus instintos se provavam corretos. uma fã, quem diria.

"sou eu, sim. como posso ajudá-la, minha querida? talvez mais uma dose de..."

"acho que você é meu pai."

"...whisky?..."

aquela era pra ser apenas mais uma noite, porra.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

sobre amor de verdade

prédio no jardins. 15h, 37min. vinda de algum lugar, ouve-se uma voz melosa que canta:
"hello, is it me you're looking for?
I can see it in your eyes
I can see it in your smile
you're all I ever wanted, and my arms are open wide
'cause you know just what to say
and you know just what to do
and I want to tell you so much, I love you..."

em outro apartamento, um filme termina e o aparelho de dvd é desligado. ela tem estado estranha a semana inteira; ele tenta começar uma conversa:
- e aí, gostou?
- é... não é mal, mas...
- pô, e a parte que eles tão no deserto, e aquele robozão sai debaixo da areia e começa a atirar...
- a gente precisa terminar.
-...pra todo lado e...? - ele é pego de surpresa. - como assim "terminar"?
- você sabe. eu sigo minha vida, você segue a sua.
- mas, assim, do nada?
- não. você sabe que a gente tem andado com problemas há meses... você com essa sua obcessão imbecil por robôs gigantes, eu com toda aquela merda no trabalho...
- tá, mas logo depois de transformers? você podia ter me preparado um pouquinho. não se muda de um estado de extrema felicidade depois de assistir um puta filme desses pra uma separação, porra. é tipo um choque térmico, saca? tem gente que morre disso.
- tá, desculpa. caguei. mas isso não muda o fato que a gente precisa terminar.
- eu sei que a gente tem enfrentado uns problemas, mas o que te fez decidir isso, assim, logo hoje?
- você me sufoca, cara.
- como assim?? a gente não se vê há uma semana!
- eu sei. e de repente você tem porque tem que me ver. puta saco...
- caralho, só achei que hoje seria legal da gente se ver. afinal, é só o aniversário de um ano de namoro...
- que brega isso!... te falei que você precisa relaxar mais. não ligo pra essas coisas.
- como assim não liga? um ano, porra! 365 dias... isso é, tipo, um vinte-avo das nossas vidas!
- nossa! quanto, hein??
- deixa de ser besta, você entendeu.
- foda-se. to indo embora.
- não, peraí!... - ele se sente mal, doente, fraco.
ela também, mas é porque se levantou rápido demais. - você realmente achou que nós íamos ficar juntos pra sempre?
- não, mas... - a pergunta o deixa sem reação. obviamente, ele não tinha pensado nisso. - ...mas também não pensei que íamos terminar hoje. hoje, e logo depois do primeiro filme!
ela, que já ia enfiando seu maço de cigarros na bolsa, pára. - por que? quantos filmes cê pegou?
ele sente que tem um trunfo. algo com o qual ela não contava. - tem mais três aqui. um godard, um almodóvar e um fellini.
- tudo bem. não preciso ir embora agora. mas assim que esses três terminarem, a gente segue com nossas vidas. cada um pra um lado.
- cada um pra um lado. certo. cê viu que vai sair transformers 2?

se a televisão estivesse desligada, eles poderiam ouvir as sábias palavras que vinham de um rádio qualquer:
"...hello, I've just got to let you know
'cause I wonder where you are
and I wonder what you do
are you somewhere feeling lonely, or is someone loving you?
tell me how to win your heart
for I haven't got a clue
but let me start by saying, I love you..."

lionel richie; esse sim sabe o que é amor de verdade.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

sobre apenas dois

ele acorda, desliga o despertador e decide que dormirá mais alguns minutos. ela já está saindo do banho, e pensa nas roupas que vestirá e qual caminho tomar para desviar do típico engarrafamento das dez da manhã.

ele sai de casa correndo, com uma maçã na boca por estar, mais uma vez, atrasado para o trabalho. ela aperta o botão do nono andar e troca conversa pequena com um cara do jurídico.

ele ouve the cure no carro, pois está de ressaca e esse trânsito é uma merda. ela se distrai com o ritmo de marisa monte, quando deveria estar concentrada no trabalho; afinal, esses números não vão se computar sozinhos.

ele decide ir pelo jardins, já que a porra da doutor arnaldo vai estar parada. ela pensa seriamente em mandar o chefe tomar no cu por lhe cobrar os relatórios mais uma vez.

ele muda de rádio mais uma vez e estaciona o carro ao som das palavras do profeta gentileza. ela cantarola, em direção ao banheiro, uma canção sobre a carta a elise.

ele começa a se resignar a respeito da bronca que levará da chefe, ao mesmo tempo em que esquece do fim de um namoro de quatro anos. ela troca palavras com uma colega e amiga de trabalho sobre homens e a carreira.

ele ouve às reclamações da empregadora e pensa em outras coisas. ela, enquanto fuma um cigarro, só quer saber de pensar em nada.

ele ajeita o teclado do computador, estala os dedos e puxa a primeira pauta. ela já está terminando a última planilha.

ele pega o celular e marca com amigos a que bar irão mais tarde. ela se ressente por saber que não terá tempo de acabar os relatórios e que terá trabalho em casa.

ele decide, enfim, que é hora do almoço. ela pede uma moqueca de camarão e uma água mineral.

ele atravesa a rua na hora errada, distraído com uma garota que, ele jura, poderia ser a mãe de seus filhos. ela desvia o olhar bem a tempo de não guardar na memória, para o resto de sua vida, a visão de um homem sendo atingido por um carro.

ele fica lá, caído no concreto, lutando para respirar com um dos pulmões perfurados. ela corre para socorrer o jovem que acabou de ser atropelado a poucos metros de si, que arfa em busca de ar.

ele, em poucos minutos, não passará de uma estatística. ela, em algumas horas, chorará a morte de um desconhecido.

eles poderiam ter sido protagonistas de qualquer história. se romance, comédia ou drama, não cabe a nós dizer. no entanto, foram não mais que personagens de um conto que descreve apenas o fim; mesmo quando todos iriam preferir que se tratasse apenas do começo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

sobre conversas que não deveriam existir

idéia para uma possível montagem de crônica em curta-metragem:

o cenário é de uma rua familiar, repleta de pequenas casas com seus portões metálicos. dois amigos e vizinhos de longa data, já ficando grisalhos, por volta de seus 40, 50 anos, conversam em frente ao portal da garagem de um deles.

- ali vai meu filho. olha como o moleque é grande e forte!

observando a baixa estatura do companheiro, o outro apenas responde sarcasticamente:

- é... vê-se que puxou a mãe...

- e tu? o que tens?

- posso não ter filhos, mas pelo menos controlo minha mulher quando quero.

- não foi o que me disse ontem...

- mas não lhe falei nada, muito menos ontem.

- conjuguei o verbo na terceira pessoa.

- ah, e posso saber quando falasse com minha mulher?

- oras, pois ontem!

- como ontem? e eu, onde estava?

- comendo a tua secretária...

- e quem lhe disse isso?

- tua mulher... irônico, não?

o silêncio se posta entre os dois. cada um contrariado com o outro. permanecem calados por alguns minutos, até que o de menor estatura finalmente quebra o vazio com uma pergunta:

- peraí, quando falasse do meu filho, tavas insinuando que sou baixinho???

o corno apenas permanece calado. vira-se e caminha em direção à sua casa, deixando o amigo com seus próprios complexos; parte, então, vitorioso.