sexta-feira, 22 de maio de 2009

sobre conversas que não deveriam existir

idéia para uma possível montagem de crônica em curta-metragem:

o cenário é de uma rua familiar, repleta de pequenas casas com seus portões metálicos. dois amigos e vizinhos de longa data, já ficando grisalhos, por volta de seus 40, 50 anos, conversam em frente ao portal da garagem de um deles.

- ali vai meu filho. olha como o moleque é grande e forte!

observando a baixa estatura do companheiro, o outro apenas responde sarcasticamente:

- é... vê-se que puxou a mãe...

- e tu? o que tens?

- posso não ter filhos, mas pelo menos controlo minha mulher quando quero.

- não foi o que me disse ontem...

- mas não lhe falei nada, muito menos ontem.

- conjuguei o verbo na terceira pessoa.

- ah, e posso saber quando falasse com minha mulher?

- oras, pois ontem!

- como ontem? e eu, onde estava?

- comendo a tua secretária...

- e quem lhe disse isso?

- tua mulher... irônico, não?

o silêncio se posta entre os dois. cada um contrariado com o outro. permanecem calados por alguns minutos, até que o de menor estatura finalmente quebra o vazio com uma pergunta:

- peraí, quando falasse do meu filho, tavas insinuando que sou baixinho???

o corno apenas permanece calado. vira-se e caminha em direção à sua casa, deixando o amigo com seus próprios complexos; parte, então, vitorioso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

sobre o maior dos clubes

"tenho um namorado". - foi o que ela me disse, ao se levantar e me dar um leve beijo, daqueles que não se sabe se é destinado aos lábios ou à bochecha.
e eu fiquei ali, observando-a partir, ligeiramente enraivaceido - enraivecido... eu tava é puto! - ao imaginar os sentimentos que ela poderia sustentar por um terceiro. quatro meses haviam se passado desde que eu a conhecera. três meses desde que eu havia percebido o quanto era linda. dois desde que reparara como seus olhos também brilhavam de forma fora do comum quando depositados sobre a minha pobre pessoa. um, um mês inteiro, desde que eu percebi que estava perdidamente apaixonado.
eu, um jogador, não por natureza, mas por formação; e estava lá, assistindo-a partir para talvez nunca mais voltar, incapaz de correr atrás dela e segurá-la.

num bar, dois amigos discutiam já brevemente embriagados. o mais velho parecia sê-lo ainda mais do que realmente era; e o mais jovem fingindo ser mais experiente do que a realidade, talvez apenas para enganar ao colega de cerveja, talvez mentindo para si mesmo.
discutiam, como invariavelmente essas situações de dois amigos conversando ebriamente em um bar acabam, sobre mulheres.
ambos já haviam sofrido sua cota de desilusões e alegrias, de rejeições e felicidades, mas, acima de tudo, ambos estavam absolutamente na merda.
talvez você já tenha lido um livro de stephen king chamado "a coisa", talvez não tenha. o que importa saber sobre esta obra é que é protagonizada por um grupo de jovens párias da sociedade, auto-intitulados "clube dos perdedores".
senhoras e senhores, apresento a vocês, aqui, nesta mesa de bar, o verdadeiro clube dos perdedores. ainda haverão de inventar algo que combine mais com um clube de perdedores do que ser constituído de apenas duas pessoas. há quem discuta que, melhor do que serem chamados de clube, talvez devessem receber a alcunha de dupla.
sim, dupla de perdedores.
no entanto, e aqui ambos podem testemunhar a seus favores, os dois eram tão extremamente perdedores que suas experiências poderiam encher a vida de mais meia dúzia de indivíduos. assim, temos aqui novamente formado o clube dos perdedores.

"costeletas, velho. o cara tem costeletas!" - dizia entusiasmadamente um deles, ou melhor, bradava. se lamentava por ter sido, de acordo com uma lógica só sua, trocado por um sujeito que cultivava uma quantidade um tanto obscena de pêlos nas extremidades das bochechas.
"ela tem um namorado, bicho. depois de tudo o que passamos, ela tem uma porra de um namorado" - respondia o outro. talvez não respondia, mas relatava, sem se importar muito com as lamúrias do companheiro.
para os não muito vividos entre mesas de bar, principalmente neste estágio de bebedeira, poderia parecer que os dois contavam suas próprias histórias sem dar muita importância para o que o outro dizia. chegaria um observador a tal conclusão e não poderia estar mais enganado. é assim que funciona a dinâmica do clube dos perdedores. problemas e contos são jogados ao ar de forma aparentemente aleatória, e a conversa não segue necessariamente uma linha de raciocínio que uma mente comum conseguiria acompanhar. o que não significa, de forma alguma, que um não está prestando a mais profunda atenção no outro.
conforme os relatos vão se aprofundando, tomando forma, se solidificando, a competição se acerra. sim, pois um compete com o outro pelo título de maior dos perdedores.
a essa altura, a cerveja já foi esquecida, e são depositadas na frente de ambos doses cavalares de whisky.

"e teve aquela vez que eu, por medo de terminar, falei pra ela que tinha ficado com sua melhor amiga. o resultado foi melhor do que eu havia planejado. a gente não se fala até hoje..."

"isso porque tu nunca deu um soco na cara do pai dela, meu velho. teve uma vez que o velho entrou e ela tava chorando, daí começou a falar um monte pra mim... não tive dúvidas..."

"tá, e o vaso passou raspando na minha cabeça. eu gritei 'tá louca, sua vaca!?' e saí batendo a porta..."

"ela ficava falando dos ex dela. mandei tomar no cu, mas agora acho que eu deveria ter sido mais paciente..."

"falei 'vanessa', bicho. VANESSA! daí a samantha ficou olhando pra mim e, quando eu vi, tava me estapeando e ameaçando morder o..."

"e eu to lá, olhando pra baixo, rezando a deus que um milagre enverta a porra da força da gravidade e tudo o que tá caído, suba..."

conforme a madrugada vai clareando, fica claro que a disputa terá de ser decidida um outro dia. mais leves e relaxados, nosso clube dos perdedores formado por dois dos mais exemplares espécimes da humanidade já paridos se levanta, encerrando esta sessão. apoiados entre si, com pernas cambaleando para todos os lados, ambos se dirigem para o carro.

sei que, em tempos de lei seca e o caramba, este não é o final mais politicamente correto para qualquer história, mas essa é a minha verdade e eu ficarei com ela.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

sobre pensamentos V - rádios, ondas e pavio

imaginemos, por um segundo, que o texto a seguir se trata, não de um um ser, mas de ondas.

sabe, aquelas ondas. não daquelas que ameaçam levar aos entes querido em feriados religiosos - ou não; não daquelas que ameaçam com seu tamanho a costa da tailândia, ou até mesmo aos estúpidos banhistas cariocas, com seu quebrar espumoso sobre praias repletas de placas de bombeiros que buscam alertar sobre os perigos de banhar-se em areias enganosas.

mas ondas que enganam aos olhos. enganam aos olhos e à mente, explicadas por professores de física que buscam passar aos seus alunos conhecimento necessário para que ingressem em faculdades de renome.

enfim, imaginemos, todos, ondas que se transportam pelo ar, atravessando paredes e a própria imaginação. imaginemos, por falta de opção a que imaginar, ondas de rádio.

e imaginemos um locutor que chegara, às três e meia da manhã, bêbado em sua humilde residência, citando o já esperado comercial de chinelos, tentando explicar tal situação. obviamente, pede-se ao intrépido leitor paciência para com as idas e voltas de tal autor incapacitado em sua ebriedade, esperando, agora, para que o disco do kings of leon seja finalmente baixado na internet - atitude, à qual, famigerado escritor espera e roga para que nenhum leitor repita, tendo em mente as severas leis internacionais de copyright.

imaginenos, ora, rogo para que imaginemos, respeitando todos àqueles que já tiveram imaginação suficiente para encarar um louva-deus deus, que nosso corajoso herói, pequeno em sua estatura e limitado por esta, seja um pequeno rádio.

rádio daqueles de pilha, daqueles que não carregam em sua existência grandes ambições, como a de ser ouvido, um dia, em um estádio lotado por torcedores fanáticos que buscam toda e qualquer informação por seu time do coração.

sabe? rádios pequenos, que se carregue em bolsos castigados pelo uso. rádio azul-marinhos arranhados pelo uso de anos, e invejados por aqueles mais modernos, que lêem mp3 e arquivos de computador, mas que mesmo assim não podem ser levados a qualquer lugar.

pois bem, nosso herói agora é um rádio de pilha.

e, por mais que, com os anos, ele tenha sido tentado a transmitir as partidas alvi-negras de seu dono, lutou e resistiu. pois, por mais que a natureza de um rádio transmissor seja a de passar a seu senhor as notícias e as vontades a que é submetido, este era um aparelho dos mais singulares e teimosos.

era, então, um aparelho com paixão e teimosia. um aparelho que transmitia uma única sintonia. não importava quantas ameaças sofrece, de quanto ódio fosse alvo. por anos a fio, transmitia uma única onda.

e tal onda havia ele aprendido anos antes, quando ainda era um rádio de fábrica, daqueles que não desafiam nem mesmo a garantia das grandes indústrias. havia aprendido, então, e apaixonado-se por ela, pobre coitado. pois mesmo em organismos onde reinam circuitos e eletricidade pode reinar a emoção, e este não conseguia fugir de sua realidade.

assim, por muito tempo, prendeu-se nosso herói à mesma situação, negando-se a abrir seu sinal a ondas alheias, piratas até, que pudessem contanimar, pela sua própria existência, sua realidade.

peço que imaginem, agora, que há outros que louvam tal motivação. quem nunca atravessou uma situação na qual a simples força de vontade é motivo de admiração? de certo que há aqueles que pensem que isso é bobagem, mas, e nesse caso devo ressaltar autor e aparelho eletrônico, não somos destes.

pois bem, coube um dia para que esse aparelho, seja por motivação de seu dono, perseverante em não deixar um bem defeituoso para trás, seja por razões próprias, sintonizar, enfim, em ondas quaisquer que não aquelas a que se mantinha preso por gerações.

imaginemos, agora, que tal aparelho não é, senão, um rádio, e sim e um ser humano, e que tal homo sapiens responda pela alcunha de pavio, não seu nome de batismo, mas de vivência.

e imaginenos sua alegria ao vislumbrar novas ondas. e sua liberdade com isso. pois há de se tolerar a existência daqueles que se viram presos por toda a vida. e - sei que há muitos que não podem imaginar tal situação, mas peço que meus caros leitores esforcem-se por manterem-se com as mentes abertas - a liberdade que isso propõe.

o caso é que, finalmente, pavio era verdadeiramente livre. como ser, como personagem deste absurdo conto sobre a condição humana.

livre como somente um aparelho que se vê aberto a novas sintonias, ou como este autor se vê diante das novas possibilidades de entender a si mesmo e àqueles que que têm algo a dizer em sua vida pode sentir-se.

imaginemos, acima de tudo, compreensão suficiente em vossos corações para não sentir desprezo por este autor, que disse o que tinha a dizer em tamanhas linhas e tempo.

pavio era, enfim, livre. e isso ninguém, nem mesmo este escritor que aqui vos fala, poderia tirar dele. (confessando, enfim, que o inveja. como o inveja)

ou seja: ondas não podem ser visitadas por aqueles que se mantém fechados à sua propria existência. e alegria não é conhecida por quem não se dá conta disso.

finalmente o autor pode transcrever, em palavras, sua própria liberdade.

não a sua; a de pavio. imaginemos, agora, o sorriso do autor ao digitar tais palavras. posso dizer, pois conheço a fundo o escritor, que é dos sorrisos mais sinceros que já transmitiu em vida. e em textos de pavio.

domingo, 22 de março de 2009

sobre conversas noturnas

a história a seguir retrata, embora não tão profundamente quanto possa parecer, o momento em que pavio encontrou deus.

sabe aqueles momentos, logo antes de dormir, em que sua mente parece acelerar a 200 quilometros por hora e você simplesmente não consegue adormecer? então, pavio, nosso jovem anteriormente conhecido, transitava exatamente por esse misterioso mundo da mentes aceleradas. um olhar mais atento através da escuridão de seu quarto revelaria suas finas e pálidas canelas, que sempre ficavam para fora da cama - pavio devia medir mais de dois metros - inquietas embaixo das cobertas.

o que fazer nessas horas? você relaxa, tenta descontrair cada músculo de seu corpo, controlar a respiração, desfocar a mente de qualquer assunto em específico, mas isso dá tanto trabalho que, no final, você acaba ainda mais desperto do que antes. eu disse desperto, e não energizado, ou até mesmo acordado, como pavio estava. é como se cada um de tais procedimentos fosse inútil, e você acaba percebendo que, não importa o que faça, haverão duas forças que não podem ser controladas: seu coração e sua mente. e a última insiste em visitar cada situação do dia, semana, mês, ano, horas, minutos ou segundos. são faces e momentos que transitam a velocidades exorbitantes, de forma desconexa, incabível, impensável, intransitável, impossível. na verdade, possível apenas naqueles momentos que antecedem o adormecer.

mas já basta de divagações sobre tal instante. (divagações que, garanto-lhes, passaram todas pela cabeça do pobre pavio, não importando o quanto ele estivesse exausto) foi olhando para o quadro do "paquiderme comendo bambu", trazido por sua amada mãe em sua última visita, que pavio se deu conta dos leves e constantes ruídos vindos da janela de vidro em seu quarto. eram barulhos baixinhos, que lembravam aqueles que fazem pequenas pedras ao serem atiradas de encontro às janelas de amantes, com uma cadência que se assemelhava a sons produzidos por galhos de árvores embaladas pelo vento, perturbando o ser humano adormecido abrigado em seu quarto, que só cedem quando abrem-se as janelas ou quando tais galhos são arrancados à força por um pobre insône frustrado. foi com tal pensamento que pavio decidiu conhecer a origem dos ruídos.

ao abrir a janela, pavio deu de encontro com o maior grilo que já havia visto em sua vida. certamente, haveria de ter algo de errado com o inseto, uma mutação, o que fosse. o verde de seu exoesqueleto, iluminado pela lua cheia, lembrava aqueles usados em canetas marcatexto e o bicho devia medir quase 50 centímetros. o assombro deu lugar, brevemente, ao pânico, quando o animal invadiu seu quarto tão rapidamente que pavio apenas imaginou ter sido com um pulo, já que nem mesmo conseguiu observar o gigantesco grilo mover-se. antes que pudesse reagir, o grilo rezadeiro já se encontrava em sua cama. rezadeiro, pois suas patas dianteiras se uniam, como em uma espécie de louvor.

isso, burro, não é um grilo. é uma porcaria de um louvadeus.

"nunca mais", disse o louvadeus, como que em uma resposta à conclusão de pavio.

ficaram os dois ali, observando-se na escuridão do quarto de pavio, quarto esse que estava ocupado pelo jovem há menos de um ano, quando mudara-se para sua nova cidade, longe de família e amigos. havia sido um bom ano, concluiu pavio, apesar das mudanças. na verdade, pensava, havia sido um bom ano por causa das mudanças. cada experiência era uma nova experiência, tudo era novidade. lugares, situações, amigos. tudo novo. nada se encaixava ou se encaixaria em sua antiga vida, que ainda esperava por ele e por seu retorno, guardados naquele lugar onde ficam as antigas lembranças de um passado que se olha com carinho. há quem chame tal lugar de coração, mas pavio gostava de pensar diferente. não coração, alma. era lá onde guardava seu passado. mas isso tudo não mudava o fato de que havia um louvadeus em sua cama, encarando-o em silêncio após proferir as poescas palavras. um cigarro depois, o clima misturado com fumaça que habitava o espaço entre jovem e inseto era quase tangível o suficiente para ser cortado com uma faca, cortado então pelas palavras do animal.

"apenas brincando. achei que ia ser legal começar assim, todo corvo. nunca mais. pffft. nunca entendi aquela porra de conto. quer dizer que corvos só sabem falar aquilo? vou te dizer uma coisa, se há uma coisa que eu sei, é que corvos são animais muito falantes. isso é, logo antes de te devorar. 'você sabia que ontem eu peguei aquela galinha que tava dando sopa e...' ZÁZ, sua vida acaba antes que possa perceber. perdi muito amigos assim. 'nunca mais'... acho que nunca é uma palavra que não consta em seu vocabulário..."

era verdade, então. aquele louvadeus realmente estava ali, em sua cama, após forçar sua entrada pela janela, falando com ele. não parecia se importar muito pelas horas avançadas da madrugada, ou pela fumaça do cigarro já apagado de pavio, ou até mesmo pelo vento gelado que entrava por sua janela, ou, certamente, pelo fato de que louvadeus não fala.

"tudo bem, um louvadeus não fala mesmo. são animais calados por natureza. quero dizer, todos os animais são calados por natureza, exceto pelos humanos, os quais achei por bem incentivar o dom da fala. achei que, talvez, caísse bem com sua suposta inteligência. por que me olhas com essa expressão de espanto? 'criei'? sim. criei, diabos! ou você é desses metidos a espertinho que acreditam naquela baboseira de evolucionismo? merda, construo a existência em seis dias, SEIS DIAS, e vem um branquelo metido a esperto e dá créditos à maldita natureza, aquela putinha... como se fosse difícil fazer tudo isso em MILHÕES DE ANOS. vou te dizer uma coisa, me dê só meio milhão e você verá o que eu construo com isso... evolucionismo... de qualquer forma, me desvio do assunto. prazer, jovem pavio. eu sou deus."

era o que faltava, um louvadeus com mania de grandeza.

"vai ficar aí quieto, porra? você tá aí, sentado no meio da noite, com a porra de DEUS no seu quarto, na sua cama, e vai ficar quieto? e eu falei que esse negócio de inteligência era algo superestimado... olha as formigas, por exemplo, burras feito uma porta, mas dão conta do recado. carregam animais cinco vezes o seu tamanho, abrem caminhos que os humanos levariam anos para abrir e não precisam construir arranha-céus para isso. na verdade, uma vez conheci uma que tava meio decidida a ser arquiteta, mas nós logo sabíamos que isso só podia dar errado e..."

e como falava, o filho-da-putinha! talvez fosse mesmo mais fácil pavio simplesmente dar uma sapatada nele e voltar a tentar dormir. mas isso faria uma puta de uma sujeira, o bicho estava bem no meio de sua cama. talvez pavio devesse ir dormir na sala, deixando o animal falando sozinho. mas isso seria de uma tremenda grosseria e se havia algo que pavio não era, era mal-educado. pois bem, por ora, iria responder aos caprichos do animal "divino".

"epa, nunca falei que era divino, ô grandalhão. isso soa meio gay. não que haja qualquer coisa de errado em ser gay, amo todas as minhas criações da mesma forma, apesar de que isso soa meio gay, também."

pavio se perguntava agora como o animal sabia o que havia pensado. cacete, aquela era uma noite estranha. ele gostaria de ter um do verde para espairecer um pouco ou, quem sabe, esquecer muito. quem diria, deus preocupa-se com sua masculinidade.

"pode ter certeza que eu me preocupo com minha masculinidade. não nos preocupamos todos? quero dizer, mesmo as mulheres se preocupam com sua masculinidade, por que não haveríamos nós de fazer o mesmo? enfim, talvez estejamos nos desviando da tarefa à mão. vim aqui esta noite, pois você tem o direito a fazer uma pergunta a deus, meu jovem. mas não enrole e..."

uma pergunta, então? pavio, como todo bom jovem na casa de seus vinte anos, tinha muitas perguntas. sobre tudo, sobre qualquer coisa. talvez não tantas quanto crianças de três a sete anos, fase de nossas vidas em que tudo é uma enorme marca de interrogação, mas pavio certamente tinha muitas dúvidas. o engraçado era que, logo agora, nada lhe vinha à mente. o inseto começava a olhar impaciente. tudo bem, foda-se, tudo não devia passar de um sonho mesmo... "qual o sent..."

"...e não me venha com aquela baboseira clichezinha de merda de 'ai, senhor meu deus, qual o sentido da vida?' que eu não to com saco pra essa porra sentimentalóide hoje. a verdadeira questão, meu jovem pavio, é a questão em si. como eu vi em um filme, certa vez, uma boa resposta não é uma boa resposta sem uma boa pergunta por trás dela. 'e o que é uma boa pergunta?' questionava um dos estudantes que assistia à aula fictícia na película. 'essa é uma boa pergunta.', respondia o professor, triunfante. 'então, qual a boa resposta?', 'a minha', ainda mais triunfante, tambores, aplausos, risos e regojizos. todo mundo fica feliz. era um bom filme, se não me engano, mas não consigo me recordar o nome. eu sei, eu sei, não é fácil ser onisciente. na verdade, enche o saco tanta coisa na cabeça da gente. você acha que tem dificuldades para dormir? devia ver o meu cérebro quando deito na cama...

"e aqui vou eu, saindo do eixo, novamente. enfim, caro pavio, lembre-se que tens apenas uma pergunta a ser feita e eu, cercado de toda a minha sabedoria infinita, tentarei responder da melhor forma possível. não há pressão. se a sua pergunta for qual a hora em bangkoc neste momento, eu responderei. devo dizer que será um tempo muito mal aproveitado, para você e para mim, e provavelmente nunca nos veremos novamente depois disso, mas eu responderei. pegue todas as suas dúvidas, todas as suas incertezas, aquelas que habitam os lugares mais empoeirados de sua mente, os cantos mais escuros de sua alma, o lugar mais apertado de seu coração, e busque algo que possa definir sua vida. acredite em mim, você não vai querer olhar para trás um dia e, ao se lembrar deste momento, ficar com vergonha da pergunta. eu sei disso, já não comentei que sou onisciente?"

e com isso pavio virou do avesso. afundou-se em si mesmo buscando todas aquelas imagens que transitavam em sua mente minutos antes. imagens que o próprio pavio não tinha muita certeza de que se tratavam. lembrou-se da visita de sua mãe e de seu irmão menor, no mês anterior, e de como tinha sido difícil deixa-los partir novamente, e de como deveria ter sido difícil para eles deixarem-no ir, também. visitou o momento em que, anos antes, havia negado o amor que queimara em seu peito; ele gostava de acreditar que havia sido pelo bem dos dois, mas não podia deixar de imaginar se não teria sido apenas egoísmo. caminhou pelas vielas da cidade onde seu pai morava, um homem que já não era mais tanto seu pai, mas que ainda era venerado pelos eternos olhos de criança que dominam a todos nós quando olhamos nossos pais. observou decisões difíceis, escolhas cobertas de alegria, despedidas com lágrimas ou abraços, brigas armadas de palavras ou de punhos. sentiu cada dor que era possível sentir e o gosto de sangue que as acampanha, sejam nas costelas ou na alma.

"por que tudo o que vale a pena ser lembrado e guardado é acompanhado de dificuldades, incertezas ou dor?", finalmente perguntou.

"agora essa é a verdadeira boa pergunta. porque, senão, como saberíamos que elas merecem ser lembradas e guardadas? melhor ainda, que graça teriam elas?"

pavio então conseguiu lentamente deslizar para o adormecer, deitado em sua cama, como sempre estivera. no entanto, observando-se atentamente pela escuridão de seu quarto, através das cortinas e da janela, um olho mais experiente encontraria, em meio à folhagem, um pequeno grande inseto cor de jade.

domingo, 28 de dezembro de 2008

sobre a estranha situação do elefante

seu nome era joaquim garbusco, mas ele também era conhecido como "pavio". não mentirei para vocês, ele era assim chamado por um único motivo: eu o quis dessa forma.
como autor, locutor e genioso por natureza, sinto que é meu dever avisá-los de antemão: minha vontade será magnânima e a explicação para diversos eventos bizarros que acontecerão nas próximas linhas. outro dia mesmo, eu analisava, sabe-se lá deus por quê, a palavra "pavio" e decidi que seria um apelido peculiar para alguém. como alguém eu não poderia criar, decidi escrever um breve conto sobre o jovem joaquim, estudante e preguiçoso, apelidado de pavio. talvez sua mãe tenha o chamado assim por algum motivo obscuro, talvez tenha sido algum amigo malicioso, o fato é que eu não me importo.
pavio acordou certa manhã e observou que havia algo de errado com seu quarto, algo que não se encaixava à habitual paisagem composta por seu guarda-roupas bege, sua escrivaninha de compensado e seus pôsteres de filmes coreanos. o objeto que distoava do mundano era um enorme elefante acinzentado que comia tranquilamente o que parecia ser um bambu. tudo bem, não era um objeto, era mais um gigantesco paquiderme com olhar tolo e despreocupado.
pavio não sabia como lidar com esta situação. quero dizer, o que haveria alguém de fazer ao acordar e se deparar com um elefante em seu quarto? por um breve tempo, pavio e o animal se encararam e se analisaram à distância, sem imaginar que tudo isso era a mais pura obra de um autor frustrado e insône, que decidira tomar mais uma taça de vinho antes de se retirar aos seus próprios aposentos.
infelizmente, a taça de vinho (periquita, português, tinto seco. recomendo, aliás) acabara, e deixara o jovem escritor e locutor desse estranho conto em uma sinuca de bico. deveria ele continuar a escrever e se arriscar a um final infeliz e sem sentido ou simplesmente jogar a toalha a admitir que toda essa situação, todas estas palavras não passaram de um capricho seu, uma simples desculpa para escrever sobre um personagem conhecido como pavio que acordou certa manhã com um elefante em seu quarto?
sim, talvez a segunda opção pareça mais tentadora aqui, colocada em palavras. sim, acho que esse conto realmente foi apenas para a realização de um desejo incomum. na verdade, esse conto não era nada demais, mal tinha um começo, não deve merecer um fim. na verdade, e cito luís fernando veríssimo agora, este conto termina aqui.

domingo, 9 de novembro de 2008

sobre o último minuto

você abre os olhos e só vê branco. a lembrança de um romance de saramago passa brevemente pela sua cabeça. no entanto, você não está cego, acometido pela cegueira branca. está, sim, em um pálido quarto de hospital, como pode ser percebido pela aparelhagem característica e a famosa máquina que emite "beep".

sua respiração está mais pesada do que o costume. puxar o ar para dentro dos pulmões prova-se algo extremamente complicado. é difícil raciocinar. tubos saem de seus braços, ligados a bolsas com líquidos transparentes penduradas ao lado da cama.

sua cabeça roda, parece pesar 30 kilos. o branco dos lençóis se mistura com o bege claro das paredes e o cinza da televisão. uma mulher entra e mexe nos tubos. sai antes que você possa perguntá-la o que faz ali, o que está acontecendo. aliás, você percebe que não consegue falar, dói demais.

falando em dor, agulhas penetram lentamente seu peito, espalhando-se por suas costas, ao longo de toda coluna. não é a melhor sensação do mundo. talvez até se assemelhe ao que você imagina ser a morte ou o inferno. felizmente, a agonia passa, tão logo você desiste de mover qualquer parte do corpo. agora já sabe: até mesmo o mindinho pode funcionar como gatilho para dor tão profunda. parece uma boa idéia permanecer imóvel.

a imobilidade é seu santuário de calma e paz, mas isso ainda não responde o que raios está fazendo naquele quarto de hospital. algo no fundo de sua mente lhe diz que, de alguma forma, você sabe a resposta para tal pergunta, porém esta está guardada em um lugar distante o suficiente para que suas mãos não possam alcançá-la. cansa pensar muito a respeito e, se há algo de que você tem certeza, é de estar profundamente, completamente, exaurido de qualquer energia.

sua cabeça ainda pesa os 30 kilos, e só então percebe o travesseiro macio e fofo com leve cheiro de hortelã com detergente na qual está depositada.

a agonia volta. dessa vez, não é a dor que a ativa, mas a falta de motivos, dos por quês de estar ali, preso àquela cama e aos tubos.

lentamente, as memórias começam a pipocar em sua cabeça, como não poderia deixar de ser. estranha e tortuosa é a psique humana. às vezes falha com o homem, exita em funcionar e exercitar os propósitos pelos quais existe. contudo, há os momentos em que decide lhes fornecer pequenas pistas a respeito do que acontece à sua volta, mesmo que, na maioria das vezes, não façam idéia.

você então vislumbra os vultos dos fantasmas que estiveram ali, naquele mesmo quarto, chorando e aguardando por boas novas. uma mulher com camisa rosa claro, cabelo castanho e olhos azuis cheio de lágrimas. ela olha para a sua figura fraca e doentia na cama e seu desespero é verdadeiro e profundo. você gostaria de poder acalentá-la, dar garantias de que tudo ficará bem, mas não tem poder para tanto. o simples fato de continuar vivo já é um fardo grande demais.

crianças entram correndo pela porta. a mulher olha para elas com ternura e tristeza. a mais nova delas, uma menina loira com sardas pela face, brinca com as flores depositadas em um vaso sobre a mesinha ao lado do seu leito. ela não parece saber muito o que significa sua estadia ali. o mais velho, no entanto, exibe os olhos marejados e procura desviar o olhar de onde você está deitado. a dor da consciência de sua tristeza é maior do que a das agulhas, e você chega a desejar que ele não estivesse ali para vê-lo naquele estado. infelizmente, não há nada que você possa fazer. não há nada que você possa fazer há muito tempo, aliás.

os três, entes querido de uma vida há muito passada, se movem como espíritos etéreos, cujo lugar é qualquer um, exceto aquele pálido quarto de hospital. eles deviam estar mundo afora, procurando seus próprios destinos, e não sofrendo por um moribundo sem a menor perspectiva de poder sorrir, cantar ou dançar novamente.

a onda de luz que inunda suas dúvidas neste momento é mais intensa do que a experiência de olhar para um eclipse solar sem qualquer proteção. a cegueira vem de verdade dessa vez, vindo, no entanto, como uma cegueira que lhe abre os olhos para a verdade. você vê, pela primeira vez. vê o médico, com seu jaleco branco e óculos de lentes grossas determinando, com poucas palavras, o fim de seu caminho, de sua vida. na verdade, ele não necessitaria de mais de uma palavra para tal. câncer. terminal. não há nada que possamos fazer. sinto muito.

você gostaria de chorar neste momento. aliás, se já houve algum momento perfeito para as lágrimas desde a criação do mundo, seria este. você quer chorar e seus olhos permanecem secos. nenhuma gota desce por sua face, não importa o tamanho da dor que tome conta de seu coração. a tristeza é tão profunda que seria egoísta não fosse um detalhe: márcia.

você se lembra do nome dela, afinal. consegue até se lembrar daquela pequena lanchonete no interior em que estava no dia em que a conheceu. recorda-se do gosto do café, do cheiro das flores sobre a mesa, da aparência mal-encarada da garçonete rude que o atendeu. a luz do sol que invadiu o ambiente quando a porta dupla foi aberta por márcia era suficiente para queimar levemente sua íris, mas sua beleza o impediu. aquele era o momento de uma vida inteira juntos.

para seu espanto, alguém aperta sua mão, ali, naquele quarto de hospital. a cabeça está caída sobre o braço esquerdo, depositado a seu lado na cama. os cabelos começam a clarear e há um quê de derrota naquela cena. você sente sua perna úmida e salgada por um choro de dias. ela nunca saíra dali, nunca deixara de rezar e rogar por melhoras, mas a esperança se esvaía.

algo então acontece dentro de sua doença, de seu estado, de toda a dor causada pelo tumor instalado em seu peito. você o sente regredindo, perdendo força, desistindo de derrotá-lo, até que, finalmente, ele se retira. você se sente completo novamente. poderia se levantar neste exato momento, agarrar aquela mulher que nunca desistira de ti e dar-lhe um beijo que poderia, nos livros, até mesmo ser chamado de "beijo da vida". você está pronto para mim.

eu saio das sombras. poderia ser de trás da cortina, de debaixo da cama, ou de dentro do guarda-roupas. você sente um novo aperto, dessa vez no ombro, autoria de minha esquálida mão. com seus olhos, você procura sua amada, sua mulher e companheira, mesmo sabendo que, em seu sono, ela não poderia ter chamado sua atenção de tal forma. sempre admirei isso nos homens. como, mesmo nas situações mais impossíveis, procuram força e esperança em sentimentos intangíveis como o amor.

finalmente, você me localiza e, pela primeira vez, o olhar que vejo não é de terror ou espanto, e sim da mais profunda aceitação pelo que viria a acontecer. você certamente foi um ser humano admirável. não tentou barganhar, implorar ou subornar. simplesmente pediu mais um minuto para se despedir. de pé novamente, depois de meses naquela cama, você calmamente inclinou-se e beijou ternamente a testa daquela que ainda demoraria anos para me conhecer.

juntos, deixamos aquele pálido quarto de hotel. meu trabalho estava feito e você teria toda uma nova vida pela frente. nada mudou no seu antigo mundo, só a máquina, que passou a emitir um longo e fulminante "beep".

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

sobre segundos de euforia

na última vez em que assisti a uma corrida inteira de fórmula 1, do ínicio ao fim, airton senna morreu. lembro de poucas coisas da ocasião. na verdade, acho que só me lembro realmente de alguma coisa, qualquer que seja, porque foi nesse dia em que vi meu avô chorando pela primeira vez.

neste domingo, anos depois, acabei acompanhando o gp de interlagos. não sei bem o que foi. nunca fui um grande entusiasta do automobilismo. talvez fosse a torcida dos meus amigos e do resto do país, talvez fosse porque eu realmente simpatizo com felipe massa, o zacarias da ferrari. de qualquer forma, às 15 horas, lá estava eu defronte ao televisor.

a corrida começou morna e logo se tornou entediante como sempre. tive de resistir bravamente à tentação de mudar de canal, mas confesso que fui me distraindo com outras coisas, apesar de manter a tv sintonizada. acho que o fato de não ter mais nada que preste nos canais abertos aos domingos (tudo bem, talvez não só aos domingos) tenha sido um forte motivador a manter-me firme.

massa foi o líder do campeonato por alguns instantes, é verdade, mas eu sabia que aquilo não duraria. nenhum outro motor tinha potência para rivalizar com os da ferrari e da mclaren. havia apenas um fator que poderia dar o título ao brasileiro: o talento individual dos pilotos. infelizmente, eu sabia que não havia tanto talento para garantir a colocação de hamilton atrás o suficiente.

deus, como é bom às vezes estar enganado. foi assim que, faltando apenas duas voltas para o fim, vettel, alemão que já não tinha nenhuma chance ao título, parte para cima do inglês e dá o campeonato a felipe massa. nesse momento eu já estava na beira do assento, praticamente de pé, rezando para todas as divindades que conheço, e até a algumas inventadas, só para garantir.

o brasileiro, depois de liderar desde o começo a corrida, cruza a linha de chegada campeão do campeonato. tudo o que havia para fazer tinha sido feito. o impossível tinha se transformado em possível e o país verde-amarelo era então vermelho.

até a penúltima curva da última volta. quis o destino que o jovem piloto da escuderia italiana não conhecesse a vitória. não neste ano, pelo menos. timo glock, com pneus para pista seca, não conseguia tração suficiente para manter sua quarta posição debaixo da chuva que caía sobre interlagos. assim, com a curva, nada pôde fazer para impedir a ultrapassagem de sabastian vettel, seguido por, sim, senhoras e senhores, lewis hamilton.

a inglaterra conseguia um novo campeão depois de doze anos. o brasil perdia o seu.

acho que não trago muita sorte ao automobilismo brasileiro. pensando bem, não temos tido muita sorte mesmo nesse tempo em que passei ausente.

deveria acompanhar o campeonato no ano que vem?

a verdade é que eu buscava manter minha confiança baixa antes da corrida simplesmente pelo medo de não me decepcionar. fazemos muito disso, todos os dias. aliás, estamos tão acostumados que já nem percebemos. deve ser algo da natureza humana, sei lá. por alguns segundos, na última volta, na última reta, eu me permiti acreditar, gritar, festejar. está certo que a decepção veio, forte e ligeira, deixando-me atordoado, até mesmo atônito por alguns minutos. minha mente processava o que havia acontecido, meus olhos haviam sido testemunhas da ultrapassagem derradeira e, mesmo assim, meu coração relutava em ceder à lógica. sim, a decepção e a tristeza foram grandes. mas não troco o que senti naqueles poucos segundos de euforia por muitas coisas nessa vida. ao medo, então? nunca mais.