terça-feira, 21 de outubro de 2008
sobre uma história familiar
ambos eram amigos há muito tempo. quem sabe até se conhecessem desde crianças, tendo sido vizinhos em um daqueles subúrbios americanos - grandes casas com varanda, quintal e uma bela cerca branca - ou em um conjunto habitacional criado pela prefeitura paulistana - prédios de estatura mediana, com a pintura descascando em contraste com as pixações ilegíveis nos andares superiores. eram amigos por tanto tempo que já conheciam todos os gostos um do outro, suas paixões, seus temores, suas expectativas e aquelas pequenas manias que todos temos, perceptíveis apenas por aqueles com quem convivemos a maior parte de nossa vida. exato, esse é o nível de intimidade que ambos compartilham.
de qualquer forma, é um espanto que os dois tenham se aturado por tanto tempo. isso porque, mesmo se conhecendo há anos, os dois não têm absolutamente qualquer coisa em comum. está bem, talvez ambos dividam a mesma opinião sobre a saúde pública - aliás, quem não tem a mesma opinião sobre a saúde pública? - mas, de resto, são completos opostos.
ela gosta de rock, tatuagens, preto, piercings e grandes concertos internacionais. ele prefere seu jazz, suas artes e seus livros, além de, é claro, a gostosona da faculdade. mais uma vez: se a história fosse outra, estaria ela apaixonada pelo vocalista gótico daquela banda de heavy metal, mas esse não é o caso. e, dessa vez, ela reprova frontalmente as escolhas relacionamentais dele. existem mais de mil mulheres inteligentes e interessantes somente na vizinhança em que moram, por que raios ele tinha de gostar justo daquela piranha?
nem ele sabe, mas ela não consegue se conformar. tenta dissuadi-lo da idéia - onde já se viu pensar em casamento sem nem ao menos ter a coragem para chamar a guria pra sair? como pode se falar em cachorro e gêmeos se os dois nem ao menos foram apresentados? - mas ele se mostra irredutível. e é óbvio que ela gritará com ele, tentará pôr um ultimato nessa loucura, e ele ficará lá, com aquela cara de bocó, tentando entender por que as mulheres estouram por qualquer besteira.
então ela sai com lágrimas nos olhos, borrando o lápis preto que os envolve e esbarrando o ombro com força na porta, para marcar sua saída dramática. por sua vez, ele desiste de entendê-la e, na mesma noite em que consegue um jantar com a tal boasuda da faculdade, não pode imaginar que sua antiga e querida amiga de infância está se entregando, finalmente, àquele vocalista gótico da banda de heavy metal.
alguns meses se passam, vamos dizer uns três, e ambos seguem sem se falar. não é preciso dizer que tudo em que os dois pensaram nesses meses foi em como sentiam a falta um do outro. aliás, também não irei entrar em detalhes aqui, mas vocês podem imaginar o quanto sofreram na mão de seus respectivos parceiros.
ele, usado por motivos materiais, como caronas para o shopping, carregador de sacolas e financiador de compras. ela, usada por motivos bíblicos, como sexo, pedaço de carne sem sentimentos e boneca inflável.
finalmente, o reencontro dos dois acontece, e de longe pode se perceber, pelo modo como se olham e se comportam, que o distanciamento serviu para que percebessem que eram feitos um para o outro. sobe música romântica, algo como kiss me, do sixpence none the richer.
enquanto a música inunda o ambiente da festa ou do show cenário do reencontro, os dois se trancam em um quarto arrancando suas roupas com todas as mãos, dentes, unhas e utensílios à disposição.
neste mesmo momento, seus antigos parceiros fúteis se dão mal de alguma forma. talvez batam o carro e a polícia leve os dois sob a alegação de tráfico de drogas, algo do qual o antigo vocalista gótico da banda de heavy metal realmente é responsável. enquanto esperam pelo seu direito a uma ligação, são estranhamente mantidos na mesma cela e descobrem também serem perfeitos um para o outro. afinal, não podemos culpá-los inteiramente por serem as pessoas fúteis que são, e eu realmente acho que ambos merecem um pouco de felicidade nesse mundo.
esse deve ser o enredo da sua comédia romântica assucarada favorita, ou então de todo um gênero que você odeie. no entanto, a história já é conhecida. mesmo com pequenas variações - em um filme de kevin smith, teríamos escatologias, lesbianismos e dois pequenos traficantes que serviriam para manter a trama junta; por sua vez, caso fosse uma produção de nora ephron, teríamos tom hanks e meg ryan - a moral é sempre a mesma.
para falar a verdade, conheço um número muito maior de "gostosonas da faculdade" ou de "vocalistas góticos daquela banda de heavy metal" do que pessoas que poderiam se encaixar como nossos intrépidos protagonistas. raios, aposto que você já deve ter passado por uma situação parecida com a dos "parceiros fúteis" - eu sei que eu mesmo já me vi usando esses sapatos.
talvez tudo isso seja apenas dor de cotovelo. pode ser que realmente haja uma história dessas por aí, em algum lugar. por enquanto, seguimos apenas sonhando com algo assim tão simples, mas tenho minhas suspeitas de que, quando encontrarmos, não acharemos a menor graça, perdendo o interesse na trama bem antes da grande reviravolta.
afinal, qual a graça de uma história da qual já se sabe o final?
na manhã seguinte, ambos acordam, provavelmente com uma ressaca fenomenal. não conseguem mater contato visual por mais do que dois minutos. vestem suas roupas e seguem para suas casas sem trocar uma palavra. mais tarde, no mesmo dia, vão jantar juntos e nenhum dos dois tem coragem de tocar no assunto.
por muitos anos, aquela noite segue sem ser lembrada, pelo menos em voz alta, por nenhum dois, como um pacto estabelecido. um pacto que nunca precisou ser firmado.
ele, enfim, se casa com uma jovem corretora de imóveis, passando a frequentar ambientes mais familiares e se afastando gradualmente de seu passado.
passado esse que inclui ela, que se tornou uma escritora não muito conhecida, mas com admiradores fiéis e sem uma vida pessoal das mais animadas, regada por taças de vinho degustadas em sua solidão, altas horas da noite.
um pode realmente ter sido a pessoa perfeita para o outro, mas a vida tem dessas coisas e isso eu não posso mudar.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
sobre pensamentos IV - os clichês de um desabafo
com isso, venho aqui pedir perdão por este texto, que deve fugir do padrão e do conceito estabelecido desde o começo deste meu "projeto". assim será, porque esta é a primeira publicação muito mais voltada para mim mesmo, para minha paz interior, do que para os leitores. assim, minhas mais sinceras desculpas.
tenho minha história, como todos vocês. sempre evitei tratá-la como algo a ser divulgado ou contado neste blog, mas creio que não há como dar fundamento a tudo o que será dito sem que antigos fantasmas sejam trazidos à tona, licença seja dada ao clichê.
o caso é que eu posso ver, talvez verdadeiramente pela primeira vez, o quanto mudei nestes últimos meses, e o quanto eu venho lutado para que isso não acontecesse. tenho lutado tanto que até minto para mim mesmo, muitas vezes.
sabem, não sou tão velho assim, nem ao menos saí da adolescência, mas já há momentos do meu passado que olho com certo saudosismo. sei o quanto isso não é saudável em alguém que nem entrou na casa dos vinte anos, mas não consigo evitar.
tive uma infância comum, cheia de desenhos, brincadeiras, correrias e amores. no entanto, há parte desse passado que não deixo ficar tão transparente para quem me conhece, um lado que eu preferia que nem soubessem.
e é esse meu lado que fica martelando minha mente desde o confronto citado no início deste relato. nunca fui alguém de ignorar um embate. cacete, nunca fui alguém nem de deixar passar uma boa briga, e tenho as cicatrizes para provar. talvez não cicatrizes no termo literal, mas meu corpo certamente exibe as marcas de um passado do qual, vendo agora, não me pertence mais. em contrapartida, não posso dizer que sinto vergonha.
mas confesso que, desta vez, fiquei com o orgulho ferido. e, pra piorar, por motivos opostos: primeiro porque me sinto covarde por ter deixado passar a situação de cabeça baixa. segundo porque não deveria me sentir assim. não é covardia renegar um passado que seja infantil e imaturo. na verdade, vejo agora o quanto alguém tem de se orgulhar em perceber que cresceu, que a vida finalmente atingiu certo propósito.
talvez isso seja tudo resultado do meu aniversário que se aproxima. talvez seja apenas besteira criada por uma insônia. ou talvez seja tudo verdade.
de qualquer forma, obrigado. escrever tudo isso me ajudou a colocar as idéias no lugar, embora possa não parecer.
às vezes é bom se lembrar com saudosismo do passado, não me envergonho das coisas que fiz. até fico feliz em lembrá-las. mas tenho ainda mais orgulho em saber que elas ficaram para trás, e que eu tenho toda uma vida com novos atos e atitudes pela frente, licença seja dada ao clichê.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
sobre o jogo
sempre acreditei no amor. no amor e nessas outras coisas bonitinhas e coloridas que se mostram nos filmes americanos de mulherzinha e nas novelas brasileiras, não mais tão de mulherzinha assim.
minha vida era boa, não tinha muito do que reclamar. o dinheiro ficava curto no final do mês, meus sanduíches ficavam cada vez mais preguiçosos e a poeira se acumulava nos cantos da minha casa, mas eu vivia como queria, quando queria, da forma como queria.
eu estava na faculdade, bicho. eu estava morando sozinho, bem longe de casa. tinha a rotina que sempre desejei. fazia meus próprios horários. chegava bêbado altas horas da madrugada sem ninguém me encher o saco a respeito. faltava nas aulas sem peso na consciência nem ter que inventar desculpas. levava quem eu quisesse para "passar a noite" e não tinha que me preocupar com a cara de desaprovação na mesa de jantar no dia seguinte.
e é óbvio que eu tinha de conhecê-la. era a guria mais linda a apaixonante que eu já tinha visto. caí de quatro, literalmente. não havia outra explicação. eu estava perdidamente, loucamente, idioticamente apaixonado pela carol, uma colega da faculdade que eu cursava.
porra, tive das minhas experiências no passado, me apaixonei, quebrei a cara, traí, me fodi, segui em frente e, de verdade, sempre gostei de tudo isso. o problema não era o "estar apaixonado" era mais o "por quem".
é, eu caguei no saco mesmo, mas como eu podia imaginar que pegar a dani, moreninha que me dava mole desde o primeiro dia de aula podia foder minha vida de tal maneira? como eu poderia imaginar que ela era a melhor amiga da mulher da minha vida?
enfim, eu não podia. mas falta de imaginação nunca é justificativa nessas coisas de relações.
por ter ficado com a dani eu estava interditado para tentar qualquer coisa com a carol. está certo, talvez não qualquer coisa, mas algo sério, significativo, duradouro.
como passar por essas barreiras sociologicamente naturais? a resposta me causou mais problemas do que a própria pergunta.
eu, osmar de oliveira netto, gênio, fui pedir conselhos com meu chegado, meu parceiro, meu melhor amigo carlos mangioli, também chamado carinhosamente de carlinhos.
malditas ligações que acreditamos serem eternas e fiéis.
carlinhos saberia o que fazer. era feio que doía, mas tinha jeito com as mulheres, fazer o quê. estava sempre acompanhado por alguns dos melhores exemplares femininos, onde quer que fôssemos. se havia alguém que poderia me ajudar, se apiedar desta pobre alma, colocar-se no meu lugar, seria ele. e não é que ele aprendeu rápido como se colocar no meu lugar? calma, estou colocando o carro na frente dos bois, aqui.
ele logo se debruçou sobre meu caso e, juntos, bolamos diversos planos e estratégias para contornar a situação. carlinhos se impacientava com meu jeito, sempre racionalizando demais as coisas, falava que eu parecia uma colegial, mas eu sou assim, e esse meu jeito vinha funcionando perfeitamente até então.
infelizmente, eu talvez já tivesse cometido um erro grande demais.
explico: alguns dias antes, eu havia me aproximado da carol, iniciado uma relação. oferecia a ela todo o meu encanto e carisma, em troca apenas de estar perto dela, esperando que mais cedo ou mais tarde ela me notasse, você sabe, como homem, não só como amigo.
tudo bem, eu sou um tanto piegas, confesso. dei até flores à guria. mas o erro não foi esse. na verdade, ela parecia até gostar disso. o erro foi ter tentado beijá-la, de surpresa, durante uma festa em que eu a havia levado. quando ela aceitou a carona, cometi o engano de pensar que aquilo era um encontro, de que éramos um casal. bem, não éramos. se havíamos de ser qualquer coisa, seria um trio, já que ela tratou de deixar claro que o problema era a dani.
e foi assim que me voltei a carlinhos. é claro que eu tinha medo de envolver qualquer homem na jogada, principalmente um jogador experiente quanto carlinhos, mas você tem de entender, eu estava desesperado.
algum tempo depois, nossos planos deram certo. de alguma forma, eu não podia acreditar que aquilo havia funcionado. no entanto, só fui me dar conta alguns dias depois, quando vi ambos, carlinhos e carol, entrando de mãos dadas pela porta do curso. era o casal mais odioso que eu já vira. tratei tudo com normalidade, mas não tenho falado com carlinhos desde então.
o caso é que o plano deu certo. mas não o nosso plano, e sim o do filho duma puta do carlinhos. e carol, pobre coitada, nunca teve a chance de ver o perigo rondando. eu havia tirado sua atenção do verdadeiro predador à sua volta. na verdade, eu a havia colocado em sua mira.
por que nunca cheguei às vias de fato com aquele cuzão de marca maior também conhecido carinhosamente como carlinhos?
oras, porque imagino que, de alguma forma, ele também não tem culpa. utilizou-se das armas e táticas das quais dispunha, e o fez muito bem. não consigo não sentir uma ponta de admiração por alguém assim. isso sem falar no fato de que é impossível não se apaixonar por carol. engraçado, a amo até hoje, embora já tenha aprendido a guardar tal sentimento pra mim.
é, devo ser mesmo isso que você está pensando, o maior perdedor do planeta. pelo menos hoje em dia eu sou rico, futuro presidente de uma empresa de armazenamento e distribuição de cerâmicas venesianas para a fabricação de azulejos e vasos sanitários, com uma renda que chega a duzentos mil reais por ano, enquanto carlinhos está para ser pai aos 23 anos, ainda desempregado e morando com a mãe e carol tenha sido talvez a maior corna da qual nossa faculdade teve notícia nas últimas três décadas.
não odeio o amor, não é sua culpa.
afinal, é como se eu jogasse o jogo, fosse razoavelmente bom nele, mas, de alguma forma, nunca cheguei a ler as regras.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
sobre um final feliz
está bem, talvez não deva pedir perdão ao amor em si, mas ao sexo.
e, quem sabe, não deva nem pedir desculpas ao sexo, mas aos relacionamentos humanos.
já dizia o velho bardo: "há uma maré nos assuntos dos homens". realmente o há. e esta "maré", como assim a chamava william shakespeare, são as cretinas das políticas sexuais.
veja o caso de osmar, por exemplo. grande amigo era ele. infelizmente, osmar tinha um problema. seu problema tinha nome. tinha nome, R.G., olhos grandes e profundamente negros, pele clara com pequenas sardas salpicadas pelo nariz e na parte superior das bochechas, cabelos longos e esvoaçantes, daqueles de comercias de shampoo que se vê na televisão, se vestia muito bem, roupas vivas, descoladas e decotadas na medida certa, sorriso tímido mas apaixonante, uma pequena pinta ao lado esquerdo da boca com os dentes tão brancos e alinhados e 1,78 metro de altura.
era 1,78 metro de problema, seu nome era carolina e ela estudava administração na mesma turma que ele. pobre coitado, como haveria osmar de resistir? não teve nem chance! ele ainda ficara tão feliz ao descobrir que tinham algo em comum, um assunto com o qual puxar conversa. ela era - imaginem só, entenderão o problema - a melhor amiga de daniela, a garota com quem ele ficara logo na primeira festa do curso e que estava atrás dele desde então. tudo bem, osmar era um imbecil. estava completamente, perdidamente, desesperadamente apaixonado pela melhor amiga de sua grande admiradora e não via nenhum empecilho nisso.
osmar, meu querido, esquece essa guria. só vai lhe dar dor de cabeça. não convém correr atrás de melhor amiga. você conhece as mulheres melhor que isso. era o que eu dizia. mas ele respondia, confiante, que não. a conquistaria de qualquer forma. estava idioticamente cego. enfim, ele não conhecia as mulheres melhor que isso.
antes que alguma amiga enfurecida venha me acusar de sexismo, permitam-me a defesa. dizia "as mulheres" simplesmente pelo fato de osmar, meu amigo, ser um heterossexual muito bem resolvido. meu problema mesmo sempre foi com as políticas sexuais, sejam elas entre mulheres ou entre homens. agora, se ele não podia ver nem ao menos a encrenca em que se metera, imaginem como reagiria se eu dissesse: "osmar, meu velho. deixe disso. essas políticas sexuais são de foder. e olha que nem é no bom sentido". dá pra ouvir as velhas engrenagens tentando funcionar em meio a tanta ferrugem e teias de aranha?
e lá foi osmar, partir para a ofensiva. na primeira festa, pagou bebidas a carol. na segunda, ofereceu-lhe carona. na terceira, pateticamente, tentou beijá-la.
epa, osmar! que isso?
poxa, é que a gente estava se dando tão bem...
mas, osmar, - imagine aqui uma cara de piedade - você sabe o quanto a dani gosta de ti. e assim carol saiu pulando pela pista de dança, não sem antes dar aquele último olhar de piedade para trás. aquele que fica gravado na mente até o momento em que se fecha os olhos antes de dormir, isso caso consiga-se dormir. caso contrário, fica gravado até o dia seguinte, e acompanha cada momento maravilhoso proporcionado pela ressaca, física e moral.
você, reles mortal, há de imaginar que osmar desistiria, certo? pois devo confessar-lhe que esta possibilidade chegou a cruzar o pensamento de meu intrépido amigo.
ao contrário, osmar e eu bolamos uma complexa estratégia para dobrarmos carol. antes de mais nada, tínhamos de descobrir se ela realmente não ficava com ele por causa de daniela ou se apenas a usava como desculpa para evitar o confronto que viria com o "cara, não quero ficar contigo, mas a cerveja e as caronas podem continuar, viu?". parecíamos duas colegiais, eu sei, cheios de estratégias e planos mirabolantes - entrega aquele bilhetinho pro luquinhas? mas não fala que fui que mandei, hein? hihihi.
políticas sexuais. se não se pode com elas, junte-se e faça proveito.
então eu comecei a ficar amigo de carol, tentar arrancar qualquer pista que fosse sobre suas verdadeiras intenções com osmar. o pobre coitado ficava morto de ansiedade pelos relatórios diários. e aí? ela deixou escapar alguma coisa? não cara, mas acho que estou chegando lá. já passamos os dois primeiros namorados, a perda da virgindade e temos discutido a vez em que ela quase fugiu de casa com o sócio do pai. acredita que o coroa nem ao menos sonha com isso? tá, tá. não quero saber dos namorados antigos. só me avisa quando ela falar alguma coisa de mim.
o tempo passou e ela deixou, finalmente, escapar que até gostava dele. achava-o um cara divertido e, afinal, devia haver algum motivo muito forte para a dani gostar tanto dele, não?
essa era a deixa para passarmos para a fase dois. sim, caro leitor, nosso plano tinha fases. entretanto, esta parte era mais complicada. eu teria de ir para o sacrifício. ora, o que não fazemos pelos amigos, não? minha missão era a de virar um agente-duplo ativo, tentando corromper nosso maior inimigo. neste caso, o inimigo conhecido pela alcunha de daniela, ou, simplesmente, "dani".
ela tinha seu charme, apesar de ser doida de pedra. eu podia me esforçar para fazê-la esquecer o osmar, nem que isso custasse alguns beijinhos. ele era meu amigo, oras. era meu dever cívico pegá-la.
assim, enquanto osmar iniciava uma reaproximação lenta e gradual com carol, eu partia para cima de sua admiradora com tudo o que eu tinha. carreguei livros, passei a usar apenas roupas limpas, perfume importado, sorriso encantador, olhares 43, 44 e até o 45, aquela fatal ajeitada da franja caída por sobre os olhos para trás da orelha dela, com a mão descendo suavemente pela nuca até a parte frontal do pescoço. posso não ter grandes encantos, mas a vida me ensinou algumas manhas.
ela se fez de difícil, a princípio. tinha de fazê-lo e eu não esperava mesmo que fosse coisa fácil. no entanto, a persistência é a mãe de todos os cafajestes e veio a me abençoar. cinco semanas depois, em uma festa em que a banda que se apresentava era a menos afetada pelo álcool do recinto, arranquei-lhe um beijo. de daniela, não da banda, embora quem estava lá naquela noite possa jurar que tudo era possível. ela relutou brevemente, se entregou ao beijo, depois recobrou a consciência, me empurrou e saiu em direção ao banheiro. poderia parecer uma tentativa falha, mas a duração do beijo foi longa o suficiente para atingir seu objetivo. carol estava nos arredores e testemunhou parte da cena.
pronto, agora a guria já vai estar mais receptiva. deve estar confusa e achando que a outra te esqueceu. vê se não faz merda. com esse conselho em mente, osmar partiu mais uma vez determinado. estava determinado, mas não confiante. aquela primeira cagada de tentar beijá-la do nada e a rejeição o haviam abalado profunda e definitivamente. dessa forma, a reaproximação continuava lenta e gradual e, pior, não passava de uma reaproximação.
com isso, continuei em meu papel de agente infiltrado na mente de carol, conversando todos os dias com ela, fazendo propaganda, você sabe, o procedimento padrão. mas o tempo passava e osmar não tomava a iniciativa, não partia para o momento decisivo. pobre infeliz. diversos avisos foram dados. desse jeito, vai perder a guria, moleque. ninguém gosta de tanta parcimônia relacionamental.
fui amaldiçoado com essa minha visão objetiva sobre eventos externos aos meus interesses, mesmo que, àquela altura do campeonato, eu já seguisse meus próprios objetivos. não deu outra, alguém se adiantou e carol não estava mais desimpedida, nem mesmo interessada.
ah, essas políticas sexuais, você tem de adorá-las.
hoje, um ano após tudo aquilo, não tenho mais a mesma relação que tinha com meu querido amigo osmar. não temos relação alguma, aliás. ele, infelizmente, não consegue superar o fato de que estou namorando a guria de seus sonhos. sinto falta dele. tudo bem, talvez nem tanto.
somos muito felizes, carol e eu. claro que dou das minhas escapadelas, mas o que se pode esperar de um relacionamento que já começou em inverdades?
nota do autor: tema sugerido por bruno volpato, do blog música pra ler e meu colega no curso de jornalismo.
este texto não é auto-biográfico. ao menos a maior parte dele.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
sobre a procura
Chasing Amy, por Kevin Smith, 1997
Silent Bob: Chasing Amy.
(Shocked silence, more for the audience than anyone else)Holden: What? What did you say?
Bob: You’re chasing Amy.
Jay: Why do you so shocked for, man? Fat bastard does this all the time. Think just because never says anything, it’ll have some huge impact when he does open his fucking mouth…
Bob: Jesus Christ, why don’t you just shut the fuck up. You’re yap, yap, yapping all the time. Give me a fucking headache. (to Holden) I went through something like what you’re talking about, a couple years ago, this chick named Amy.
Jay: When?
Bob: A couple years ago?
Jay: What, you live in Canada or something? Why don’t I know about this?
Bob: Bitch, what you don’t know about me I could just about squeeze in the Grand fucking Canyon. Did you know I always wanted to be a dancer in Vegas? (does a gesture with his hands, a reference to a move by the exotic dancers in “Showgirls”) Betcha ya didn’t even know that shit, did ya?
Jay: So tell your fucking story so we can get outta here and smoke this.
Bob: So, there’s me and Amy. And we’re all inseparable, right? Big time in love. Then four months down the road, the idiot gear kicks in, and I ask about the ex-boyfriend. Which, as we all know, is a really dumb move. But you know how you don’t wanna know, but just have to know–stupid guy bullshit. So, anyway, she starts telling me about him. How they fell in love, how they went out for a couple of yeas, how they lived together, her mother likes me better, blah blah blah blah blah. And I’m okay. Then she drops the bomb. And the bomb is this: it seems that a couple of times while they were going out, he brought some people to bed with him, “menage a troi,” I believe it’s called. And this just blows my mind, right? I mean, I am not used to this sorta thing; I was raised Catholic, for Gods sake.
Jay: Saint shithead.
Bob (to Jay): Do something. (to Holden) So I’m totally weirded out by this, right? So I start blasting her. I mean, I don’t know how to deal with what I’m feeling, so I figure the best way is to call her ’slut,’ tell her she was used. I’m out for blood, I really want to hurt this girl. I’m like, “What the fuck is your problem,” right? And she’s just trying to calmly tell me it was that time, it was that place, and she doesn’t feel like she should apologize because she doesn’t feel that she’s done anything wrong. And I say, “Oh, really?” That’s when I look her straight in the eye, tell her it’s over. I walk.
Jay: Fucking-A.
Bob: No, idiot, it was a mistake. I wasn’t disgusted with her, I was afraid. In that moment, I felt small, like I lacked experience, like I’d never be enough for her or something like that, you know what I’m saying? But what I did not get: she didn’t care. She wasn’t looking for that guy any more. She was looking for me, for the Bob. But by the time I figured this all out, it was too late. She had moved on. And all I had to show for it was some foolish pride which gave way to regret. She was the girl. I know that now. But (lights a cigarette) I pushed her away. (pause) So I spend every day since then chasing Amy. (pause) So to speak.
domingo, 31 de agosto de 2008
sobre o que não é
um texto bom, um texto rico
um texto sobre a vida
mas que a própria vida me impede de realizá-lo
pois ébrio estou
ébrio e com sono
e as horas avançadas são como um chamado a que me junte ao reino
a que me ceda gentilmente ao manto
reino e manto, estes, de orfeu.
sinto
sinto muito
sinto muito em deixá-los com o nada
mas deito-me agora sobre o travesseiro.
palavras desconexas parecem talvez ser mais verossímeis.
e a vida tem disso
tem de suas mudanças
mudanças e amadurecimentos
fatos tais que a tornam apenas mais digna do gozo
e é como diria o antigo mestre que a tudo viu
a tudo viu mas morreu infante
"mesmo um amor que não compensa é melhor que a solidão".
e eu dizia
dizia logo ali no começo
que aqui jazia um texto sobre a vida
um texto inspirado pelos ares e musas que somente o álcool traz
aqui jazia e aqui o jaz.
e este era um poema sobre aquilo que não foi
aquilo que não era
o que não é.
o que nem sei, ao menos, dizer.
nota do autor: agora, após um bom dia de sono, vejo o quão realmente bêbado estava ao escrever o que está acima. pois bem, deixo como uma óde à ebriedade. se você não o entendeu, eu tampouco.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
sobre o momento em que me encontrei
não, não no sentido filosófico da expressão, no sentido literal.
eu ia por ali, andando despreocupadamente pelas ruas do meu bairro, concentrando meu olhar ao chão. mas sabe quando você dá aquelas breves olhadas para cima, tentando olhar o rosto das pessoas? então, em uma dessas desviadas de olhar, avistei um rosto muito familiar. devia ter uns 15 anos a mais que eu, barba por fazer, bigode ralo, semblante despreocupado e cansado. não havia como negar; aquele era eu.
fiquei encarando por alguns segundos, tentando desfazer o óbvio nó que havia dado em meus pensamentos, quando algo ainda mais bizarro aconteceu: ele me olhou de volta. e naqueles milésimos de segundo em que nossos olhares se encontraram, minha alma se encheu com a certeza de que eu era um cara legal. assim, de que eu seria um cara legal. melhor dizendo, de que eu serei legal.
eu sei, isso é tudo muito confuso. não consigo nem conjulgar os verbos.
e naquela situação esdrúxula, fiz o que, creio, a maioria faria. travei. não consegui pensar no que fazer, em como reagir, o que falar. e algo parecido deve ter acontecido com ele/comigo, já que eu também não fiz nada.
dessa forma, nos cruzamos respeitosamente e seguimos nossos caminhos. não consigo imaginar para onde eu ia. aliás, não sei nem ao menos se essa é a verdadeira questão. talvez eu devesse me perguntar o que raios ele fazia ali, naquele momento, 15 anos antes de quando ele deveria estar vivendo. deus! lá vou eu novamente me chamando de "ele", quando o fato é que "ele" era eu.
a esta altura você deve estar achando que sou maluco. talvez esteja certo; e talvez neste momento eu esteja mostrando à minha mulher um velho texto, que publiquei na internet 15 anos atrás, sobre o momento em que me encontrei na rua, depois de lhe ter contado a incrível experiência que foi ter cruzado comigo mesmo 15 anos mais novo; e talvez ela, minha mulher, esteja pensando em como sou maluco.
de qualquer forma, se eu não fosse louco, isso tudo certamente contribuiu para tornar-me um pouco mais insano. mas quantas pessoas tiveram a chance de vislumbrar seu futuro?
depois de me encontrar, sei que estou no caminho certo, sei que sou feliz, sei que continuo tranquilo e sei que meu gosto por roupas cairá com o tempo - ou isso, ou no futuro todos andam muito desleixados pela rua.
não sei por que aconteceu comigo. não sei por que mereci esse lapso temporal. não sei nem ao menos se esse acontecimento ajudará a transformar-me naquele sujeito que caminhava tão despreocupado pelas ruas da cidade.
há, no entanto, algo de que tenho certeza: se, em 15 anos, eu tiver estampado em minha cara um olhar tão leve e realizado, esse tempo que nos separa, eu de mim mesmo, será do caralho.
mal vejo a hora.
e agora? como serei em 30 anos?
