sábado, 22 de dezembro de 2007

sobre Henry Chinasky e as pessoas

"- As pessoas não precisam de amor. Precisam é de sucesso, de uma forma ou de outra. Pode ser que seja no amor, mas não necessariamente."

-Henry Chinaski, em "Factótum", de Charles Bukowski

sábado, 15 de dezembro de 2007

sobre dias chuvosos

e foi num absurdo, numa topada, numa ilusão, num milésimo de segundo antes de conseguir dormir que João se lembrou de Thaís. haviam namorado por dois anos. ele tinha 18, ela era apenas alguns meses mais jovem.
agora, no entanto, já habitava a casa dos 40 anos. sustentava aquela barriga típica dos quarentões que abandonaram qualquer tipo de esporte há mais de dez anos. não era gordo, mas tinha uma senhora barriga. pelo menos era o que lhe falava sua mulher.
no dia seguinte, após um café-da-manhã calado, foi trabalhar. procurou se concentrar nos seus serviços, mas flashs de sua vida com Thaís lhe cruzavam a mente, dançando pelo monitor e indo pousar sobre a impressora. era como se estivesse imprimindo seu passado, lentamente, preparando-o para entregá-lo a seu editor. era como se uma obra do acaso pudesse estampá-lo na primeira página do jornal para o qual trabalhava. não é preciso dizer, foi um dia de trabalho muito improdutivo. pelo menos profissionalmente falando, pois há colegas que poderiam jurar ter visto João rindo sozinho defronte ao computador, de pé na sala do café, na fila do restaurante.
deitado na cama ao lado de sua mulher, fingia estar dormindo, mas já se decidira. daria um jeito de arrumar o telefone de Thaís.
através de Marcon, um amigo próximo afastado desde o início de seu casamento, conseguiu notícias de Thaís. não eram muitas, provavelmente solteira, trabalhando com publicidade, e um cartão. pegou o telefone. discou. uma suave voz feminina atendeu do outro lado da linha, mostrando que já era muito tarde para voltar atrás.

encontraram-se num bar que costumavam frequentar quando ainda eram um casal. ela certamente se apresentava mais velha, mas ainda tinha aquela beleza que João um dia jurara ser a maior do mundo, sussurando ao ouvido da namorada. o quê de menina desaparecera, dando lugar a uma aparente experiência de vida. divorciada, já acumulava sua própria bagagem.
após atender à ligação, Thaís tinha demorado certo tempo para se lembrar do antigo parceiro. contudo, logo aceitou o reencontro.
durante o namoro, haviam se amado muito. no começo, pelo menos. sua assim chamada "ignorância" aborrecia João, mas era contraposta ao seu gênio forte. tal gênio viria a provocar inúmeras discussões ao longo do relacionamento, principalmente quando confrontado pelo jeito leve e irresponsável deste, mas era exatamente o que João mais amava, mesmo sem saber. ironicamente, 18 anos depois do término do namoro, ele havia se casado com uma mulher muito dócil.
a conversa se desenrolava com desenvoltura. eram dois estranhos com uma forte intimidade que só se adquire com o tempo. não falavam sobre as antigas desavenças, pois os anos haviam se encarregado delas. na verdade, discutiam como era possível que tivessem se afastado tanto. ele mesmo lutava para compreender o que acontecera. teria a vida se encarregado de afastá-los? ou foram ambos que, após a útima grande separação, haviam construído muros tão altos entre si que a distância se tornara intransponível?
as horas passavam e João se entorpecia com a presença dela e com mais um copo de cerveja. se lembrava dos dias que passavam em sua cama, abraçados, confessando sentimentos que nunca mais seriam compartilhados com ninguém, dos filmes vistos no sofá de seu antigo apartamento no jardins, com os pés e as pernas entrelaçados para se manterem protegidos contra o frio de mais um dia chuvoso de são paulo.
e foi num absurdo, numa topada, numa ilusão que então entendeu. havia sido ele o responsável pelo distanciamento entre os dois. ele havia construído o tal muro intransponível. ele ainda a amava.
ele ainda a amava quando terminara o namoro. passava por uma turbulência em sua vida como nunca havia passado antes e a simples idéia de tê-la ao seu lado já lhe sustentava. no entanto, fôra obrigado a terminar o relacionamento de pouco mais de dois anos. em seguida, tentara seguir adiante, empurrando com a barriga, mas ambos frequentavam o mesmo círculo de amizades e seguir com a vida parecia difícil demais. assim, começou a levantar uma barreira, tijolo a tijolo, dia após dia, até que, mesmo quando sentados na mesma mesa de bar, sua presença não passava de uma voz tão abafada por concreto e cimento que ele mal podia distinguir.
por muito tempo, considerou-se vitorioso. havia vencido uma força ímpar em sua vida. agora, cerca de 20 anos após o rompimento, decidiu levantar bandeira branca para si mesmo, permitindo-se ser feliz, admitindo a derrota. nunca havia sido capaz de deixar de amá-la.
sentou-se mais próximo a ela, sentindo um perfume que não era o mesmo que sentia quando eram jovens, mas não menos agradável. tirou o cabelo de sua face como costumava fazer. percebeu os pêlos de seu braço se eriçando. enfim, decidiu mentir ao responder a pergunta que ela lhe fizera sobre ser casado.
procurou pelo garçom e pediu a conta.

sua mulher reclamou quando João se debruçou por cima dela, acordando-a. cheirando a cerveja, ele obstruiu seus protestos com um beijo suave. finalmente se dando conta de que poderia passar o resto de sua vida com aquela mulher, João a amou como nunca.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

sobre cigarros, solidão, tiros, propostas e inocentes

dois amigos em algum bar da vida, por aí, deus sabe onde. conversam sobre suas marcas de cigarro prediletas. queria eu conhecer metade delas. atrás do balcão, um homem com um avental que um dia, não tenho certeza, já fora branco e com os cabelos ficando ralos, puxados para trás, bem apertados num elástico que forma um rabo-de-cavalo daqueles que só se vê nos piores botecos (ou nos melhores salões de beleza). a oleosidade flutua pelo ar como uma entidade, não se sabe se vinda da gordura usada para fritar as batatas ou se do próprio rabo-de-cavalo do homem de avental. um jogo de futebol qualquer passa na pequena televisão posicionada acima da geladeira. na mesa localizada entre os dois amigos, uma garrafa da mais fina cerveja servida no local e dois copos, cheios pela metade.
no entanto, menti quando disse que era um bar. na verdade, era um belíssimo restaurante localizado no bairro mais afortunado da cidade. menti também quando disse que eram dois os que conversavam. era um só e se mantia calado, quieto, mergulhado na própria instrospecção. logo, seria estranho se houvesse dois copos à sua frente. esse único copo não estava cheio de cerveja, e sim de vinho, o mais barato servido no estabelecimento. a oleosidade, no entanto, era a mesma, que podia vir tanto da cozinha quanto do rabo-de-cavalo do garçom, um homem ainda moço, com longos cabelos negros unidos suavemente num elástico que lhe dava um quê francês se unido ao bigode fino sobre seus lábios e vestindo um avental de brancura tão intensa que podia ser comparada apenas à de seus dentes. no telão, localizado à esquerda do homem calado, passavam as notícias do dia.
de súbito, tiros. o homem agora era três, que conversavam animadamente até ter a discussão interrompida pelos disparos, felizmente saídos do cano de um .38 que se encontrava do outro lado de uma bela tela de plasma do aparelho televisor do local. recompostos do susto, chamaram a franzina garçonete alemã da cantina italiana em que se encontravam e pediram, de sobremesa, uma torta holandesa. aproveitaram também para pedir que a moça, com seus curtos cabelos tão claros que pareciam com o branco do avental que usava, enchesse novamente suas xícaras com café.
ao ouvir o pedido, a jovem não podia entender o que estava acontecendo. se conheciam há tão pouco tempo e ele já lhe propunha em casamento? só podia ser algum louco. afinal, em apenas três meses não dá pra saber com exatidão se a pessoa é normal ou não. isso, era um lunático. mas era um lunático rico, lindo, com olhos verdes e por quem ela estava perdidamente apaixonada. diabos, pensava que aquele jantar à beira do cais era apenas alguma armação dele para conseguir dela o que vinha pedindo desde que haviam começado a dividir a cama. e ela cederia, facilmente. debaixo do vestido comportado, podia sentir a lingerie branquíssima rendada que comprara para a ocasião. tentou ganhar tempo, recuperar o fôlego. ajeitou os cabelos ruivos ondulados que se prendiam em um sensual rabo-de-cavalo. próxima à mesa do casal, a banda continuava seu concerto em cima do palco. ao final da música, palmas calorosas. no entanto, o pretendente continuava a esperar sua resposta.
suando, podia sentir suas unhas se enfincando nas palmas das próprias mãos. sempre fazia isso quando estava nervoso. a resposta daquela mulher era o momento crucial de sua vida. olhava ansioso para o relógio, mas mesmo que o ponteiro dos segundos avançasse apenas uma casa, para ele era como se um dia inteiro houvesse passado. pensamentos de culpa e de vergonha inundavam sua mente. talvez tivesse cometido algum erro. talvez não devesse ter feito aquilo, no final das contas! agora era tarde, ela havia se levantado de sua cadeira com uma cara de profunda certeza. "inocente", foi o que disse a jurada número um, e seu rabo-de-cavalo de cabelos tão negros quanto a morte balançou lentamente. um sorriso se estampou na face do acusado, mesmo que continuasse suando. o tribunal entrou num caos de enormes proporções. a grande maioria das pessoas que assistiam ao julgamento, indignadas, protestavam. a mãe das duas meninas que haviam sido vítimas daquele monstro chorava compulsivamente. as câmeras de tv, que haviam acompanhado o julgamento desde o início, procuravam registrar todas as emoções presentes. enquanto o inocentado saía do tribunal por um corredor que os policiais haviam conseguido abrir entre a multidão enfurecida, a oleosidade podia ser sentida fortemente no ar. talvez vinda do próprio homem suado que caminhava solitário pensando na felicidade que tivera. um sujeito grisalho, gordo, vermelho de raiva conseguiu forçar passagem até os policiais. era o marido da mãe que chorava e pai das meninas que haviam deixado a vida.
tiros. desta vez, de verdade.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

sobre páginas em branco

sentado à frente de uma tela em branco, não sabia sobre quais letras repousaria seus dedos.
tivera sempre uma habilidade nata para transcrever a arte da vida em palavras. e tinha um bloqueio.
não era bom em conversas. se enrolava em discursos. corava ao trocar mais que duas sentenças com um desconhecido.
mas escrevendo, ah, escrevendo tinha o mundo em suas mãos. o destino de inúmeros personagens se desenlaçava em sua mente como que por um passe de mágica. sua vida, sua e a de todos aqueles que estavam ao seu redor tomavam forma sob nomes e aparências distintas àquelas da vida real. só assim sentia ter o controle.
só assim, e tinha um bloqueio. a branquidão imensurável da tela a sua frente era uma afronte, um cuspe bem dado em sua face. o monitor zombava dele. não só dele, mas também de toda a sua vida.
a agonia transpirava por seus dedos, posicionados em riste contra o teclado. se este fosse um conto de época, estariam entrelaçados com força contra algum lápis nº2 que fosse. este não é o caso. é um conto moderno sobre um escritor, seu computador e uma vida em branco.
quando havia sido a última vez que lhe acontecera algo desse tipo? não mais que um par de anos atrás. mesmo assim, aquela não tinha representado tamanho fracasso.
pois o bloqueio vinha na hora de sua autobiografia. uma obra aguardada pelos leitores fiéis e ansiada pela crítica. aos 78 anos, era de se esperar que deixasse alguma espécie de legado assinado de sua própria vida.
tudo que via, no entanto, era uma tela em branco. páginas em branco que viriam a representar uma vida vazia. uma vida de livros, e não de ações.
dias, semanas e meses se passavam em branco. sim, sua epopéia contra a máquina e a obra havia começado há muito tempo atrás. a angústia não era de agora. julgava que começara no momento de seu nascimento, mas a memória lhe traía. não era mais um escritor, um autor. era um reles mortal com uma vida gasta em vão.
em vão, não.
finalmente, percebia a beleza de tudo isso.
a beleza de ter uma tela em branco a sua frente, uma tela que poderia refletir quaisquer desejos que desejasse refletir. teria a vida que quisesse, e seria a partir deste momento.
a tela, afinal, podia estar em negro, impossibilitando seu trabalho e inviabilizando que gerações futuras viessem a conhecer a vida que levara em sua mente.
foi com isso em conta que tomou um gole de whisky do copo que se encontrava ao lado do teclado e repousou, pela última vez, o dedo médio sobre a tecla da letra w.
no dia seguinte, a diarista gritou ao achar o corpo do patrão sem vida em frente a um monitor com uma única letra escrita nele, além de sua assinatura padrão, mais abaixo.

"w


C.S."

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

sobre a arte de mentir

em meu nascimento, fui agraciado com um dom. uma habilidade que ultrapassa a de um ser humano normal. se algum dia houvesse uma competição mundial, eu seria proibido de participar para dar chance aos outros concorrentes. enfim, eu minto. falando assim, parece simples, mas a verdade é que não se pode medir o tamanho da minha maestria para a decepção - engraçado usar a palavra "verdade" em um texto sobre a mentira.
desde pequeno, escapei das mais variadas situações, broncas, sinucas, buracos e problemas usando deste meu presente divino. simplesmente olhava bem fundo nos olhos daquele que me inquiria pelo que realmente havia acontecido, abria a boca e a magia acontecia. sinceramente, digo aqui que não sei exatamente como acontece. meus lábios se distanciam e o som sai, formando uma história tão falsa e coerente que não há como meu pobre cérebro ter inventado algo parecido. isso - meu dom é ainda maior que minha própria inteligência, que, sejamos honestos, é bem limitada.
sempre tive orgulho desta habilidade. quando amigos estão em apuros, eu mais que prontamente me ofereço para resgatá-los e as palavras se formam com velocidade e ferocidade, inventando uma realidade totalmente distorcida. eu literalmente mergulho neste mundo mentiroso que habita as mais sombrias profundesas da minha alma. não gaguejo, não olho para os lados, não fico mentalmente inventando histórias. é como se elas já existissem, já fossem verdades existentes em alguma outra dimensão além desta.
mesmo com toda essa alegria, toda essa calmaria que tal habilidade me proporciona, outro dia o tiro me saiu pela culatra. a vida tem dessas coisas, vejam só. minto, minto e dificilmente sou descoberto. no entando, sempre fica no ar aquela inquietação, aquele mal-estar que só uma mentira bem contada proporciona. claro, quando a mentira é descarada, logo é desmascarada e todos podem rir ou punir o autor. agora, quando não se pode provar a farsa, todos sabem no seu inconsciente que estão sendo enganadas, que há algo de podre no reino da dinamarca - como já dizia o bardo -, mas não há provas. por isso, por mais que ninguém até hoje tenha conseguido provar com exatidão que eu estava mentindo, todos sempre me olham com desconfiança. e foi isso que me pegou pelo cangote.
estava eu, numa dessas voltas que só a vida dá, em uma situação na qual eu precisava desesperadamente falar de forma sincera. e era assim que eu me comportava. quisera eu ter a frieza de controlar meu dom e poder mentir como nunca. infelizmente, cada vez que eu falava alguma coisa era a mais pura realidade que atingia os ouvidos do meu interlocutor. isso me exasperava, me afogava num mar de sinceridades. por ironia, não se acreditava em uma palavra que eu dizia. eu lutava por uma brecha de ar, uma chance de provar que estava bem-intencionado, mas todas as minhas tentativas eram vãs. acabei admitindo a derrota, mesmo me sacrificando até o último minuto.
é. sempre tive o dom da palavra. sempre tive a maestria para a mentira. mas o universo observava e decidiu me punir. e não é que me puniu bem quando falava a verdade?
enfim, o universo é mesmo um gozador. fazer o quê. aprende-se que, às vezes, é muito mais fácil de se acreditar em uma mentira do que na mais pura verdade.




em um texto sobre a mentira, como saber se alguma coisa do que eu disse é verdade? afinal, abri o texto dizendo que domino todos os aspectos que envolvem uma boa fraude. irônico. bem, minto.
minto?

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

sobre a distância I


Snow Patrol - Set The Fire To The Third Bar

(feat. Martha Wainwright)

I find the map and draw a straight line
Over rivers, farms, and state lines
The distance from 'A' to where you'd be
It's only finger-lengths that I see
I touch the place where I'd find your face
My finger in creases of distant dark places

I hang my coat up in the first bar
There is no peace that I've found so far
The laughter penetrates my silence
As drunken men find flaws in science

Their words mostly noises
Ghosts with just voices
Your words in my memory
Are like music to me

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
I, I pray that something picks me up
And sets me down in your warm arms

After I have travelled so far
We'd set the fire to the third bar
We'd share each other like an island
Until exhausted, close our eyelids
And dreaming, pick up from
The last place we left off
Your soft skin is weeping
A joy you can't keep in

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
And I, I pray that something picks me up
and sets me down in your warm arms

I'm miles from where you are,
I lay down on the cold ground
and I, I pray that something picks me up
and sets me down in your warm arms

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

sobre pensamentos I - a trilha

e, como nada é pra sempre, seguimos no ritmo alucinante de quem tem um pneu furado.