domingo, 31 de agosto de 2008

sobre o que não é

aqui jaz um texto

um texto bom, um texto rico

um texto sobre a vida

mas que a própria vida me impede de realizá-lo

pois ébrio estou

ébrio e com sono

e as horas avançadas são como um chamado a que me junte ao reino

a que me ceda gentilmente ao manto

reino e manto, estes, de orfeu.

sinto

sinto muito

sinto muito em deixá-los com o nada

mas deito-me agora sobre o travesseiro.

palavras desconexas parecem talvez ser mais verossímeis.

e a vida tem disso

tem de suas mudanças

mudanças e amadurecimentos

fatos tais que a tornam apenas mais digna do gozo

e é como diria o antigo mestre que a tudo viu

a tudo viu mas morreu infante

"mesmo um amor que não compensa é melhor que a solidão".

e eu dizia

dizia logo ali no começo

que aqui jazia um texto sobre a vida

um texto inspirado pelos ares e musas que somente o álcool traz

aqui jazia e aqui o jaz.

e este era um poema sobre aquilo que não foi

aquilo que não era

o que não é.

o que nem sei, ao menos, dizer.




nota do autor: agora, após um bom dia de sono, vejo o quão realmente bêbado estava ao escrever o que está acima. pois bem, deixo como uma óde à ebriedade. se você não o entendeu, eu tampouco.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

sobre o momento em que me encontrei

voltava para casa, ao fim de tarde, quando eu me encontrei.
não, não no sentido filosófico da expressão, no sentido literal.
eu ia por ali, andando despreocupadamente pelas ruas do meu bairro, concentrando meu olhar ao chão. mas sabe quando você dá aquelas breves olhadas para cima, tentando olhar o rosto das pessoas? então, em uma dessas desviadas de olhar, avistei um rosto muito familiar. devia ter uns 15 anos a mais que eu, barba por fazer, bigode ralo, semblante despreocupado e cansado. não havia como negar; aquele era eu.
fiquei encarando por alguns segundos, tentando desfazer o óbvio nó que havia dado em meus pensamentos, quando algo ainda mais bizarro aconteceu: ele me olhou de volta. e naqueles milésimos de segundo em que nossos olhares se encontraram, minha alma se encheu com a certeza de que eu era um cara legal. assim, de que eu seria um cara legal. melhor dizendo, de que eu serei legal.
eu sei, isso é tudo muito confuso. não consigo nem conjulgar os verbos.
e naquela situação esdrúxula, fiz o que, creio, a maioria faria. travei. não consegui pensar no que fazer, em como reagir, o que falar. e algo parecido deve ter acontecido com ele/comigo, já que eu também não fiz nada.
dessa forma, nos cruzamos respeitosamente e seguimos nossos caminhos. não consigo imaginar para onde eu ia. aliás, não sei nem ao menos se essa é a verdadeira questão. talvez eu devesse me perguntar o que raios ele fazia ali, naquele momento, 15 anos antes de quando ele deveria estar vivendo. deus! lá vou eu novamente me chamando de "ele", quando o fato é que "ele" era eu.
a esta altura você deve estar achando que sou maluco. talvez esteja certo; e talvez neste momento eu esteja mostrando à minha mulher um velho texto, que publiquei na internet 15 anos atrás, sobre o momento em que me encontrei na rua, depois de lhe ter contado a incrível experiência que foi ter cruzado comigo mesmo 15 anos mais novo; e talvez ela, minha mulher, esteja pensando em como sou maluco.
de qualquer forma, se eu não fosse louco, isso tudo certamente contribuiu para tornar-me um pouco mais insano. mas quantas pessoas tiveram a chance de vislumbrar seu futuro?
depois de me encontrar, sei que estou no caminho certo, sei que sou feliz, sei que continuo tranquilo e sei que meu gosto por roupas cairá com o tempo - ou isso, ou no futuro todos andam muito desleixados pela rua.
não sei por que aconteceu comigo. não sei por que mereci esse lapso temporal. não sei nem ao menos se esse acontecimento ajudará a transformar-me naquele sujeito que caminhava tão despreocupado pelas ruas da cidade.
há, no entanto, algo de que tenho certeza: se, em 15 anos, eu tiver estampado em minha cara um olhar tão leve e realizado, esse tempo que nos separa, eu de mim mesmo, será do caralho.
mal vejo a hora.

e agora? como serei em 30 anos?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

sobre tantos dias

e eis que hoje, um ano após o início deste blog, cá estou aqui a escrever o post de comemoração de seus 366 dias de existência - este ano foi bissexto.

confesso que nem eu acreditava que isso seria possível. nunca consegui dar muita continuidade a essas coisas. eu achava que seria mais algo que eu me empolgaria no começo e abandonaria às traças com o passar do tempo.

certamente que o tempo passou e a periodicidade deste blog foi diminuindo, mas creio que não deixei de postar textos novos um mês sequer.

a escassez de postagens se deve a um único e simples fato: só posto aqui textos que me vêm em momento de grande inspiração. logo, não há um só post que eu não me orgulhe. logicamente que há aqueles que habitam um lugar mais especial no meu coração, seja pelo orgulho que me proporcionem ou pela simples inspiração que me levou a escrevê-los.

em um ano, minha vida mudou muito. quando comecei a escrever neste blog, morava em são paulo e ainda era um reles vestibulando com pretensões de ser um jornalista. hoje, moro em santa catarina, cursando uma das melhores universidades de jornalismo do país, e posso dizer categoricamente que jornalistando eu sou feliz. no entanto, vocês que acessam este despretensioso blog podem e devem ter a certeza de que continuarei a escrever, pois esta é minha grande e verdadeira paixão.

comecei dizendo que o início deste blog seria a partida inevitável para um fim. e isto é verdade. mas durante este ano fui levado por jack kerouac, charles bukowski, orson scott card, truman capote, george orwell, jonathan safran foer, guilherme fiuza, ruy castro, josé saramago, luís fernando veríssimo e outros cronistas e escritores a escrever textos que certamente não são só meus. e tudo isso foi uma experiência única, que eu espero que dure por muitos outros anos.

a todos que têm acompanhado com paciência a trajetória deste blog, meu muito obrigado. se gostaram, façam uma publicidade por aí. eu agradecerei muito mais.

até o ano que vem.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

sobre as três partes envolvidas

na entrada, ele pensa.
ela me obrigou a vir à tal peça.
eu nem queria, mas tive de vir. sabe como é, um agrado aqui, outro acolá, e se consegue uma semana de sossego. ir ao teatro com ela deve me garantir alguns dias sem lavar a louça.
pessoas empoladas por todos os lados. tenho certeza de que ouvi o casaco de alguma madame rosnando para mim. odeio colocar terno. odeio colocar gravata. odeio, acima de tudo, colocar esses malditos sapatos velhos. tudo bem, é tudo pelo direito de colocar os pés cansados em cima da mesinha de café da sala.
com licença, com licença. desculpe senhor, esses são os nossos lugares. não, veja. bem aqui, no bilhete. o quê? fileira H? oh, perdão. com licença, com licença.
com licença, com licença. finalmente. não sei como a deixo me convencer a vir a essas peças. se eu tivesse que tropeçar em mais alguma barriga, surtaria. não mande eu me calar. estou falando baixo! "shhhh" o quê?! ah, perdão.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!
na coxia, o diretor se desespera.
maldição! tentemos mais uma vez.
abre a cena com nada no palco, fecha a cena com celular tocando. nada!!!
vamos, tente! não é possível que não haja ninguém no público com o maldito celular ligado. vamos, alguma musiquinha do gás, algum funk que seja! pelo menos aquele clássico "atende o telemóvel". de que adiantou todo aquele trabalho de pegar os números dos celulares de todos os que compraram os ingressos para ninguém atender?
e agora? a peça inteira era baseada nessa premissa. sempre tem de haver algum mal-educado que esquece o celular ligado.
ô, minha filha, continua tentando! continua tentando, senão é melhor cancelarmos agora toda essa porcaria!
no bolso, o celular luta para se controlar.
ah, não. agora não. por favor. tinha de ser agora?
toda vez que vamos ao cinema, ao teatro, a algum recital de poesia, esse infeliz esquece de me desligar ou deixar no silencioso, e toda vez alguém liga. ele não aprende nunca? maldito seja! estou cansado de passar vergonha, de ser xingado e vaiado. como se fosse eu o sem educação!
o que posso fazer? oh, deus! mais alguns toques e eu não aguentarei mais. a vontade é muito forte!
não vou, não posso, não quero.
não vou, não quero, não posso.
não posso, não quero, não vou!
ai, mas a natureza é muito forte. fui feito para isso! quem será o desgraçado ligando bem a essa hora? puxa vida, já são 11 horas da noite, isso não é hora para se ligar para alguém. deve ser a amante desse infeliz. sempre ligando nos momentos mais inoportunos. desiste, sua vaca!
não, o telefone é desconhecido. de certo, a oferecida está ligando de algum outro lugar. por que ela não desiste?
daqui a pouco começo a tremer. se isso acontecer, não resistirei mais, gritarei a plenos pulmões! filho-da-mãe, custava ter me desligado? não, não custava!
já sei, mandarei tudo às favas e chutarei minha bateria. isso, resolvo meu próprio problema. a partir de hoje, não dependerei mais desse imbecil que nem consegue seguir as regras básicas da etiqueta.
deixe-me ver, deixe-me ver. isso. aqui. só um chutinho, agora... foi.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

sobre o bolinho de atum

o bolinho de atum não gostava de ser o que era.
pudera, tinha uma vida entediante. uma vida de bolinho de atum.
o que se pode esperar do cotidiano de um bolinho de atum? se você pensou em "nada", parabéns, você está correto. envie-nos seu endereço por e-mail e aguarde por prêmios maravilhosos.
sua vida era entediante, pois o bolinho de atum era um ser inanimado. há quem diga até que um bolinho de atum não chega nem a ser um "ser", sendo apenas "comida". engana-se. pelo menos este bolinho de atum de quem falo é muito mais do que comida. é um ser entediado, aborrecido, um tanto genioso, com baixa auto-estima e uma personalidade apática.
não bastasse ser um bolinho de atum, é também um bolinho de atum cuja receita contém cebola. e o tal bolinho de atum odeia cebola, mesmo que seja parte de quem é. apesar de lhe dar sabor e um certo tempero, o bolinho de atum acredita que a cebola azeda-lhe a vida. de certa forma, não podemos lhe tirar a razão. por que não podemos? bem, nem eu, e acredito que nem você, que está a ler esta história, somos bolinhos de atum, não chegando nem a pertencer ao fabuloso grupo que constitui os bolinhos mais diversos existentes neste planeta. assim, não podemos sequer imaginar o que se passa na mente de um bolinho de atum.
o bolinho de atum também sofre. sofre por ter sido separado, ainda na infância, de seus irmãos, sabe, os outros bolinhos de atum que cresceram ao seu lado no forno. sofre também por ser ignorado por todos, esquecido em cima da bancada como um objeto qualquer. esse tipo de coisa pode causar profundas sequelas na confiança de um bolinho de atum. e assim esse nosso bolinho de atum foi ficando frio, duro, amargo, marcado pelo tempo e pelos duros golpes que a vida nos dá.
é, é difícil essa vida de bolinho de atum.
não bastasse ter sido esquecido e jogado pra escanteio como um qualquer, o bolinho de atum ainda tem que aguentar as próprias incertezas e dilemas que atravessa. pelo menos tais dúvidas não durarão muito tempo na mente do bolinho de atum. durarão somente, e tão somente, até ouvir um miado esfomeado ao seu lado.
e agora o bolinho de atum não existe mais, não pensa mais, não se amargura mais. foi comido pelo gato de estimação da quituteira que o fizera.
pobre bolinho de atum. depois de tanto tempo lidando com sua pobre condição de bolinho de atum, acabou depositado em uma caixa de areia qualquer, expelido pelo felino que o atacara sem piedade.
mas não se preocupe pelo nosso herói. claro, o bolinho de atum era religioso. budista, para dizer a verdade, e acreditava em reencarnação. talvez essa sua vida que acabou de acabar fosse apenas um momento de expiação, uma fase na qual tinha de aprender a lidar com o fato de ser um reles bolinho de atum.
quem sabe, em sua próxima encarnação, não volte como algo superior?
quem sabe talvez não volte como um nutritivo bolinho de chuchu?
quem sabe ele volte como um bolinho de chocolate, sempre disputado por todos, espalhando sorrisos nas faces das crianças e ajudando a espantar as tristezas do universo feminino?
quem sabe - e digo isso com toda a fé que eu tinha no humilde bolinho de atum, confesso que aprendi a amá-lo como a um filho - volte até como algo mais do que um bolinho? um suflê, por exemplo.
fico na torcida, e espero que vocês se unam a mim em minhas preces pelo futuro incerto daquilo que outrora fora um bolinho de atum.

porque, afinal, quem sabe?

sábado, 19 de julho de 2008

sobre a perda de um dom

não me lembro mais como se namora.

sempre fui um bom namorado. é verdade. pode perguntar às minhas ex's. não são muitas, o que não lhe tomará grande parte de seu tempo.
logicamente, convém perguntar quanto ao período anterior ao momento em que eu, impiedosamente, terminava o relacionamento, mas tenho confiança de que sempre fui um bom companheiro.
e agora não consigo me lembrar mais como é namorar. mal consigo me lembrar de como é passar um bom tempo com alguém do sexo oposto em um relacionamento que não passe do platônico. sei lá, desaprendi. talvez o fato de ter passado os últimos dois anos sem algo verdadeiramente sério tenha causado essa falta de memória. o fato é que eu não sei mais.
a simples idéia de passar um dia inteiro com uma mulher, sob o título de namoro, já é o suficiente para me deixar inquieto. claro, tamanho esquecimento tinha de vir acompanhado pelo medo. quem sabe, o velho medo do desconhecido, mesmo que já conhecido. talvez seja então o medo do esquecido?
mais uma dúvida.
não me entenda mal. eu gosto de namorar. curto relacionamentos sérios. adoro ter alguém para chamar de minha (não no modo possessivo, obviamente). o caso é que, pela primeira vez em minha breve vida, temo o namoro ao mesmo tempo em que anseio por ele.
minha memória nunca foi das melhores. maldita seja.
logo agora que eu imaginava já estar pegando o jeito da coisa, ela vem e apaga todo o conhecimento que lutei para reunir em meus 19 anos.
é, como os americanos diriam, é a história da minha vida.

terça-feira, 10 de junho de 2008

sobre pensamentos III - notas de um policial rodoviário


07:52 - rodovia presidente dutra, km 157. são paulo, 10 de junho de 2008.
morreu na contramão para me encher o saco.