quarta-feira, 23 de julho de 2008

sobre o bolinho de atum

o bolinho de atum não gostava de ser o que era.
pudera, tinha uma vida entediante. uma vida de bolinho de atum.
o que se pode esperar do cotidiano de um bolinho de atum? se você pensou em "nada", parabéns, você está correto. envie-nos seu endereço por e-mail e aguarde por prêmios maravilhosos.
sua vida era entediante, pois o bolinho de atum era um ser inanimado. há quem diga até que um bolinho de atum não chega nem a ser um "ser", sendo apenas "comida". engana-se. pelo menos este bolinho de atum de quem falo é muito mais do que comida. é um ser entediado, aborrecido, um tanto genioso, com baixa auto-estima e uma personalidade apática.
não bastasse ser um bolinho de atum, é também um bolinho de atum cuja receita contém cebola. e o tal bolinho de atum odeia cebola, mesmo que seja parte de quem é. apesar de lhe dar sabor e um certo tempero, o bolinho de atum acredita que a cebola azeda-lhe a vida. de certa forma, não podemos lhe tirar a razão. por que não podemos? bem, nem eu, e acredito que nem você, que está a ler esta história, somos bolinhos de atum, não chegando nem a pertencer ao fabuloso grupo que constitui os bolinhos mais diversos existentes neste planeta. assim, não podemos sequer imaginar o que se passa na mente de um bolinho de atum.
o bolinho de atum também sofre. sofre por ter sido separado, ainda na infância, de seus irmãos, sabe, os outros bolinhos de atum que cresceram ao seu lado no forno. sofre também por ser ignorado por todos, esquecido em cima da bancada como um objeto qualquer. esse tipo de coisa pode causar profundas sequelas na confiança de um bolinho de atum. e assim esse nosso bolinho de atum foi ficando frio, duro, amargo, marcado pelo tempo e pelos duros golpes que a vida nos dá.
é, é difícil essa vida de bolinho de atum.
não bastasse ter sido esquecido e jogado pra escanteio como um qualquer, o bolinho de atum ainda tem que aguentar as próprias incertezas e dilemas que atravessa. pelo menos tais dúvidas não durarão muito tempo na mente do bolinho de atum. durarão somente, e tão somente, até ouvir um miado esfomeado ao seu lado.
e agora o bolinho de atum não existe mais, não pensa mais, não se amargura mais. foi comido pelo gato de estimação da quituteira que o fizera.
pobre bolinho de atum. depois de tanto tempo lidando com sua pobre condição de bolinho de atum, acabou depositado em uma caixa de areia qualquer, expelido pelo felino que o atacara sem piedade.
mas não se preocupe pelo nosso herói. claro, o bolinho de atum era religioso. budista, para dizer a verdade, e acreditava em reencarnação. talvez essa sua vida que acabou de acabar fosse apenas um momento de expiação, uma fase na qual tinha de aprender a lidar com o fato de ser um reles bolinho de atum.
quem sabe, em sua próxima encarnação, não volte como algo superior?
quem sabe talvez não volte como um nutritivo bolinho de chuchu?
quem sabe ele volte como um bolinho de chocolate, sempre disputado por todos, espalhando sorrisos nas faces das crianças e ajudando a espantar as tristezas do universo feminino?
quem sabe - e digo isso com toda a fé que eu tinha no humilde bolinho de atum, confesso que aprendi a amá-lo como a um filho - volte até como algo mais do que um bolinho? um suflê, por exemplo.
fico na torcida, e espero que vocês se unam a mim em minhas preces pelo futuro incerto daquilo que outrora fora um bolinho de atum.

porque, afinal, quem sabe?

sábado, 19 de julho de 2008

sobre a perda de um dom

não me lembro mais como se namora.

sempre fui um bom namorado. é verdade. pode perguntar às minhas ex's. não são muitas, o que não lhe tomará grande parte de seu tempo.
logicamente, convém perguntar quanto ao período anterior ao momento em que eu, impiedosamente, terminava o relacionamento, mas tenho confiança de que sempre fui um bom companheiro.
e agora não consigo me lembrar mais como é namorar. mal consigo me lembrar de como é passar um bom tempo com alguém do sexo oposto em um relacionamento que não passe do platônico. sei lá, desaprendi. talvez o fato de ter passado os últimos dois anos sem algo verdadeiramente sério tenha causado essa falta de memória. o fato é que eu não sei mais.
a simples idéia de passar um dia inteiro com uma mulher, sob o título de namoro, já é o suficiente para me deixar inquieto. claro, tamanho esquecimento tinha de vir acompanhado pelo medo. quem sabe, o velho medo do desconhecido, mesmo que já conhecido. talvez seja então o medo do esquecido?
mais uma dúvida.
não me entenda mal. eu gosto de namorar. curto relacionamentos sérios. adoro ter alguém para chamar de minha (não no modo possessivo, obviamente). o caso é que, pela primeira vez em minha breve vida, temo o namoro ao mesmo tempo em que anseio por ele.
minha memória nunca foi das melhores. maldita seja.
logo agora que eu imaginava já estar pegando o jeito da coisa, ela vem e apaga todo o conhecimento que lutei para reunir em meus 19 anos.
é, como os americanos diriam, é a história da minha vida.

terça-feira, 10 de junho de 2008

sobre pensamentos III - notas de um policial rodoviário


07:52 - rodovia presidente dutra, km 157. são paulo, 10 de junho de 2008.
morreu na contramão para me encher o saco.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

sobre táxis e as gotas da chuva


para escrever ouvindo: Stars - your ex-lover is dead



foi através do amigo de um amigo que eu encontrei marina pela segunda vez. estávamos na festa de bodas de ouro de um casal de 70 anos ou algo do gênero. as mesas eram cobertas por toalhas de linho branco, com pequenos vasos repletos de lírios ao centro, copos de cristal e talheres de prata. as paredes eram enfeitadas por faixas prateadas e douradas, e a banda tocava sucessos dos anos 50 e 60. era um salão de festas realmente muito bonito.
quando apresentados pelo jovem de boas intenções que não sabia que já nos conhecíamos, rimos brevemente. logo em seguida, instalou-se um silêncio, daqueles constrangedores, pelo que pode ter sido três minutos ou 13 anos. enfim, ela disse algo que teria sido considerado um clichê, caso ignorássemos o tempo que havíamos passado juntos:
- é, eu acho que já nos encontramos antes, não?
pude perceber pelo tom de sua voz que ela sinceramente não se lembrava de mim. quer dizer, pode ser que seu inconsciente soubesse quem eu era, mas já é sabido que a distância entre consciência e aquilo que habita as profundezas de nossa mente é enorme.
talvez essa seja a hora na qual eu devesse contar como nos conhecemos, nos apaixonamos e nos separamos 20 anos antes. fazíamos faculdade juntos, marina e eu. jornalismo. fomos amigos por um tempo, até uma festa em que os dois, bêbados, percebemos que pertencíamos a sexos opostos. alguns meses depois, fomos morar juntos, contrariando uma amiga que dividia o apartamento com ela e dois sujeitos que viviam comigo. com o fim do contrato de 12 meses, acabou também nosso relacionamento. essas coisas acontecem, o que se pode fazer?
enquanto eu lembrava dessa história, percebi que a hora avançava e eu tinha de ir embora. do lado de fora a chuva caía impiedosamente. ao expressar minha necessidade de partir, ela sugeriu que dividíssemos um táxi e eu, por preferir não me molhar, aceitei prontamente.
atravessávamos uma ponte e percebi que ela parecia triste. não trocava mais que algumas poucas palavras comigo. não podia imaginar que, naquele momento, ela tentava se lembrar do meu nome.
a separação foi amigável. concordávamos que não havia maneira de continuarmos juntos. namoramos por cerca de um ano, o qual eu passara tentando entendê-la profundamente em tempo integral. não adiantava, eu não conseguia penetrar suas defesas, ou assim pensava. eu era muito jovem, tinha 22 anos, como podia ser tão arrogante a ponto de querer conhecer todos os seus segredos? saí triste da relação, mas não magoado. ela sim, ficou um tanto deprimida. por isso acabei achando que eu era o maduro da relação, aquele que sabia lidar com relacionamentos.
hoje vejo todos os erros cometidos. não era ela quem se distanciava, não era ela quem tinha medo, não era por culpa dela que eu não conseguia conhecê-la de verdade. ela havia escolhido sentir, amar, desejar, e eu, coitado, nem tive a chance de fazer tal escolha. nunca a amei realmente. minha tristeza depois do fim não era pelo fim em si, mas pela minha incapacidade de sentir. foi por me amar tanto que ela acabou brevemente deprimida. sua depressão era um cartão-postal dos sonhos que tivemos juntos, um recado do amor verdadeiro.
talvez se tivesse tido a coragem de viver tudo aquilo eu não estivesse olhando para trás. marina era o que eu mais queria, e lhe entreguei o que entreguei. espero que não se arrependa de ter me conhecido. espero que não se arrependa de ter terminado. espero que não se arrependa de não haver o que salvar.
pagamos o taxista e subimos apressadamente para o meu apartamento, pois a chuva continuava a cair forte. no dia seguinte, em minha cama, ela ainda não se lembrava de nós dois. talvez assim fosse melhor. eu era um homem melhor, um ser humano melhor. podia ser que eu finalmente conseguisse lidar com o que eu sempre quis.
tínhamos muito tempo para nos conhecermos, para reinventarmos nossa história.
as enormes gotas da tempestade escorriam pela minha janela, desenhando sombras na face adormecida de marina.
naquele momento, eu não sentia muito por não haver o que salvar.

terça-feira, 13 de maio de 2008

sobre juras de amor eterno

durante a ligação, ele fazia juras de amor.
"mas eu te amo, pô! será que só você não vê isso? fomos feitos um para outro! eu quero passar o resto da minha vida contigo, guria! quero acordar ao teu lado. quero fazer juras de amor eterno. quero ter filhos, netos, bisnetos. quero te chamar de 'minha fofuchinha'. quero fazer amor contigo. quero ser a azeitona da sua empada, poxa! só de ouvir tua voz, vi que era pra sempre. nunca me senti assim por alguém antes. sou teu escravo, teu criado! não consigo pensar em mais ninguém. para mim, nem existe mais alguém neste universo! só você. tu és tudo, minha amada!"
do outro lado da linha, ela se desesperava, tentava mudar de assunto, mas ele continuava.
"vamos fugir? a gente desliga, eu ligo pro meu chefe, mando ele à merda e a gente foge. juntos. compramos uma fazenda no interior do amapá, estocamos vinho tinto e comida enlatada, e só saímos depois de três meses de sexo animal e apaixonado! vai, diz que sim. diz que sim, senão eu me mato. não estou brincando. subo nesta cadeira, amarro meus cadarços ao redor do meu pescoço e pulo. hein? eu falei que pulo! PU-LO! essa ligação... não, não precisa chamar a polícia. você sabe que eu não tava falando sério. pelo menos não se você aceitar fugir comigo. pára de me tratar assim, com tanta frieza, tanta formalidade! você sabe meu nome, está cansada de saber. isso, assim tá melhor. ai... fala de novo. isso, me chama de 'senhor manuel'. isso. assim eu fico louco! você sabe disso. casa comigo. vou ligar pro teu pai e pedir tua mão em casamento. não, nem tente me convencer de que é loucura. sou louco, sim. louco por você! por que você não se rende a isso? é o destino! somos almas gêmeas. eu nasci pra você, e você nasceu pra mim! não acredita que todos já nascemos predestinados e ficar com alguém? pois eu acredito. e você é minha. nunca tive mais certeza sobre coisa alguma. minha vida andava tão sem rumo, tão sem sentido. até que eu te conheci. melhor dia da minha vi...alô?? tá aí ainda? ufa... você ficou quieta por tanto tempo que eu achei que pudesse ter desligado."
ela realmente pensava em desligar. não aguentava mais.
"e, se você tivesse desligado, acho que eu não reagiria bem. esperei por tanto tempo para te encontrar... enfiaria a cabeça no forno e deixaria o gás fazer o resto. mas deixemos tudo isso pra lá. falemos de nós. como se chamarão nossos filhos? quero ter quatro. um guri, duas gêmeazinhas lindas e outro gurizinho. posso até imaginar o cachorro tomé entrando pela casa todo coberto de lama e você gritando com ele. você grita com o pobre tomé, mas o ama. você ama o tomé, não ama? e quanto a mim? você me ama?"
ela já desistira. faria a vontade dele. esse era seu plano.
"AMA??? meu deus, quanta felicidade. voce não se arrependerá! farei de ti a mulher mais feliz do mundo! faz o seguinte: desliga o telefone, fala com teu chefe, pede as contas e me encontra às dez na rodoviária de malas prontas. vamos hoje mesmo lá praquela fazenda no amapá. eu te amo, meu amor. até logo, já estou com saudades!"
ela não podia acreditar. pela primeira vez, o toque de desligado soava como as notas tiradas de harpas por pequenas mãos angelicais. olhou para o relógio pendurado na parede. ele ainda apontava para as 15 horas. para o inferno com isso! pediria demissão imediatamente. não que fosse se mudar para o amapá com aquele maluco. sua mãe bem que lhe dissera para estudar mais e virar advogada. ou médica! mas não... tinha de ser teimosa, brigar com os pais, sair de casa. aquela fora a situação mais louca na qual se envolvera em toda sua vida. não queria mais saber de telefone, não queria mais saber de seu trabalho. se levantou, trêmula, e foi em direção à sala do patrão, jurando a si mesma que nunca mais aceitaria um emprego como atendente de telemarketing.

terça-feira, 29 de abril de 2008

sobre asdrúbal e o violino

a história de asdrúbal terminou no dia 17 de março de 1994. para ser mais exato, os médicos legistas registraram sua hora de óbito às três horas, 46 minutos e 27 segundos da madrugada, o que, por si só, era um engano. o relógio musical do responsável pela marcação estava cinco segundos atrasados, devido à uma música que tocava, todo dia, ao meio-dia e o alterava em nanossegundos.
sua vida - a de asdrúbal, não a do relógio - era uma longa sucessão de enganos musicais.
duas semanas antes, ele havia sido desqualificado de um concurso público por assoviar Chopin durante a prova. o monitor, um antigo regente da orquestra sinfônica de taubaté, assegurava que ele havia colocado um dó no lugar de um sol, expulsando-o da classe. ele apenas tentara segurar uma tosse que lhe acometera durante a canção, perdendo o tom por alguns segundos. com isso, asdrúbal continuava desempregado.
certa vez, por volta de 30 dias antes de falecer, ele havia cedido à pressão de uma amiga e decidira aceitar o encontro às escuras que ela lhe arranjara. chegando ao local marcado, o bar Jobim, asdrúbal passou a cortejar seu par, pensando em como havia errado em pensar que a amiga não teria bom gosto. se havia estado enganado em muitas coisas ao longo de sua vida, naquela vez estava certo. aquela não era sua prometida. na verdade, a escolhida estava sentada do outro lado do bar, próxima aos toaletes e ao cheiro de empadinhas, cantarolando incessantemente Chico, o sinal combinado para que se reconhecessem, e acabaria indo embora após uma hora de espera prometendo a si mesma nunca mais aceitar sair com alguém com um nome tão patético quanto asdrúbal. no entanto, o engano dele deu frutos, já que, naquela noite, não voltou sozinho para casa.
o nome dela era marina, uma morena apaixonante que cantarolava Caetano. bem, o forte de asdrúbal nunca fora a música popular brasileira, e isso lhe valeu uma namorada.
o nascimento de asdrúbal também fora uma incertidão. passara a vida toda pensando ser filho de seu fabinho, um pobre artesão de instrumentos musicais, mas era na verdade filho do vizinho, que aproveitava as muitas horas passadas por fábio na oficina para ir dançar a macarena na horizontal em sua casa.

enquanto asdrúbal era concebido, seu fabinho construía o violino. feito em madeira nobre, o instrumento fora encomendado por barão, um músico abastado das redondezas que reconhecia o talento do artesão com as cordas.
o violino tinha um estojo. feito em coro e revestido internamente por um veludo avermelhado, parecia aqueles usados pelos gângsteres dos filmes para guardar seu armamento. entalhado nele estava "13-06-36", a data em que ficara pronto. seu fabinho realmente estava orgulhoso de seu trabalho.
e com motivo, o instrumento era magnífico. dele sairiam notas que não eram crédito de quem o portasse, mas sim de seu criador e de suas formas.
mesmo assim, barão não obteve sucesso, com o violino ou sem ele. frustrado por saber que carregava a culpa pelo próprio fracasso, descontou sua raiva no pobre objeto inanimado que se recusava a casar com suas habilidades. aquele não era um violino qualquer, teria de ser portado por quem tivesse braço para domá-lo. e assim barão se vingou, privando-o do que nascera para realizar, para fazer, para ser. nos anos seguintes, todos que passavam pela casa de barão não podiam deixar de notar aquele estojo empoeirado guardado sob a escada, parecendo clamar por uma chance de ser ouvido.
e o silêncio perduraria eternamente, não fosse o sobrinho do barão achá-lo, dez anos depois, enquanto limpava a casa do tio recém-falecido. músico em início de carreira e herdeiro de todas as posses do barão, se empenhou em consertar aquele belo objeto esquecido.
de volta ao seu esplendor, o violino tratou de recompensar seu benfeitor. recompensou-o tanto que seu dono não se viu capaz de acompanhá-lo. sabia que as notas produzidas não eram suas e esperava um dia vê-lo no máximo de suas capacidades. com isso, tratou de passar o instrumento adiante.
com o correr dos anos, o objeto de orgulho de seu fabinho, construído nos anos 30, passou por diversas mãos.
foi tocado pelo 4º violinista da sinfônica da cidade de são paulo; acompanhou um show de baião no agreste do sertão do nordeste que virou mar; regeu um conjunto de cordas que cruzou a américa; viu bailes de carnaval virarem celebrações fúnebres; atraiu as massas a teatros municipais e poucas pessoas a recitais de poesia; até que, assim quis o destino, fosse parar no bar jobim, vendo a namorada de seu dono saindo pela porta com outro, enquanto fazia o que fora feito para fazer.
no mês seguinte, cada vez que era manuseado pelo músico, sentia no apertar das cordas toda a mágoa do indivíduo abandonado. o tempo passou e podia prever uma tragédia, tragédia que não tardaria, pois ouvia as emoções do dono, e este conversava com o instrumento, como que pedindo por conselhos de algo que já vira muito, já passara por tanto. infelizmente, não podia responder, não por outro meio que não sua música. e isso, ele já sabia, não seria suficiente para saciar a maldade que crescia naquele que o empunhava.
o violino então foi banhado de sangue. na beira da lagoa de guanabara, iluminado pelas luzes reluzentes dos postes, durante a madrugada do dia 17 de março de 1994.
seu dono, abominado pelo que fizera, saíra correndo, encoberto pelas sombras.
marina, a morena apaixonante que havia conquistado o coração de asdrúbal, gritava por socorro. mas já era tarde, para ele e o violino.
asdrúbal deixava de ser humano para virar estatística. o violino largava a vida de instrumento para virar prova.

e, naquele momento, acabaram-se suas histórias, seus ensaios.

ensaios sobre asdrúbal e o violino.

sexta-feira, 14 de março de 2008

sobre sacolas deixadas num trem

certa feita ouvi sobre um garoto que, durante uma viagem, esquecera uma sacola no trem entre uma cidade e outra. logo que chegou ao hotel, se deu conta da falta da bagagem, mas, como é possível saber, nada havia a ser feito. o país era outro, a língua era estrangeira, e nenhum dos presentes sabia como reivindicar as posses perdidas.
a sacola não era qualquer sacola, e sim aquela na qual ele levava suas compras mais queridas e desejadas, um conjunto de chapéus com as quais sonhava desde que ficara sabendo que deixaria o brasil. sua reação foi das mais simples e previsíveis: chorou. errado há de ser aquele que pensar que o garoto era apenas mais um que dava importância às coisas materiais, assim como há de estar errado aquele que acredita que é fútil chorar por sonhos perdidos.
aqueles chapéus eram mais que reles compras, eram a própria materialização de desejos profundos, infantis até, mas que caracterizavam sua própria personalidade.
obviamente, sua mãe e seu irmão mais velho não foram capazes de entender de imediato a importância daquela perda, e chegaram até mesmo a se impacientar com o pobre garoto. no entanto, sua infelicidade era tão profunda e seu desespero tão genuíno que não puderam se conter em acalentar o infante. comprariam outros assim que pudessem, e foi assim que aos poucos o pranto cessou.
difícil dizer se a sensação de vazio naquele jovem peito tenha passado tão facilmente.

há aqueles que se vêem, em determinado momento de suas vidas, em posição similar. têm de deixar para trás bens preciosos que sabem que dificilmente irão recuperar, ao menos da forma como um dia foram. as formas de lidar com tais acontecimentos são as mais diversas, mas o princípio é o mesmo.
de início, a sensação de perda vem forte, e olhar para trás causa uma dor incomensurável.
em seguida vem a negação. evita-se que o pensamento passeie pelos campos da saudade, e a mente preocupa-se em se manter ocupada.
no entanto, é da natureza humana sentir a falta, a saudade, o vazio deixado por algo que se ama. dessa forma, enquanto a mente luta para ser forte, a alma sente e, embora as ações sejam de quem parece seguir olhando para frente, conhecendo novos destinos e vislumbrando novas vidas, o coração se mostra ainda soberano e sofre calado, até que o cérebro esteja forte o suficiente para acompanhá-lo.

nesse momento que se chora verdadeiramente por aqueles que tiveram de ser deixados para trás, irmãos, amigos, parentes - assim como uma sacola esquecida.

finalmente este irmão mais velho que vos fala entende da dor madura sentida por alguém que tinha tanto para ensinar, por ser tão infinitamente mais inocente a ponto de derramar lágrimas por um bando de chapéus deixados num trem para veneza.



nota do autor:
em homenagem a Gabriel, meu irmão, e a honra que é poder chamá-lo assim, e a todos aqueles que, mesmo não tendo o sangue em comum, já pude um dia fazer o mesmo. obrigado por tudo.